Não vou falar de futebol. Vou falar de justiça

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a vida é injusta

 

E então a Portuguesa foi condenada a perder os 4 pontos que a rebaixam. Sob pressão do Fluminense, time que mais se beneficiou da decisão, o STJD (Supremo Tribunal de Justiça Desportiva) resolveu que havia irregularidade na escalação de Héverton e, portanto, que a Portuguesa deveria ser punida por isso.

Não houve excesso de rigor para se aplicar a lei.

Mas se fez justiça?

Não para mim. Foi uma decisão técnica. Não foi errada, mas optou-se por aplicar a regra independentemente de qualquer atenuante, e independentemente do senso de justiça ou mesmo do que podemos chamar de bom senso.

Voltemos um pouco no tempo, para o jogo de que se falou hoje: a Portuguesa escalou um jogador que havia sido suspenso. Não era Romário ou Ronaldo. Era sequer o Tupãzinho. Héverton estava na reserva e entrou aos 32 minutos do segundo tempo. Não mudou o panorama da partida – e nem precisaria mudar, posto que a Portuguesa poderia até perder.

A Portuguesa não precisava ganhar. Não precisava nem empatar. Não precisava de Héverton em campo. Simples assim.

É óbvio, portanto, que não houve intenção de escalar um jogador suspenso. Não há lógica possível que não aponte para isso – embora haja lógica que possa apontar para conspiração. Mas consideremos o mais provável, ao menos para alguém que torce pela humanidade: foi um erro de comunicação ou de compreensão.

Bem, deixem-me fazer uma digressão: por coincidência, li esta semana um livro brilhante chamado “Os Espetáculos da Desrazão”, de Beto Cupertino. Foi indicado como um dos melhores do ano no prêmio cultural que o DCM está promovendo, o Criadores e Criações. O livro conta a história de uma cidade onde qualquer erro é punido como crime. Tropeçou, será julgado. É uma narrativa fantástica e surreal, mas no fim das contas… é tão verdadeira.

Nós punimos o erro como crime.

Faça um exercício: deixe o conceito de assassino de lado por um instante. A diferença entre uma pessoa que bate um carro num poste e outra que atropela alguém na calçada pode ser pura sorte. Apenas cada um encontrou um obstáculo diferente. Eu disse que pode ser.

Nós punimos os erros.

Os personagens desta ficção que nos causa tanta estranheza, não são absolutamente nada diferente de nós. Nós somos personagens de ficção. Vivemos num mundo que, se não fosse pelo costume que temos, é absolutamente bizarro. Alguém ainda lerá nossa história e pensará como foi ridícula a nossa sociedade.

Não acredito na justiça punitiva. Não acho que ela deva ter 1% de punição. Falo da justiça comum, não nos esportes. Ela deveria, para mim, ser apenas regeneração, reeducação, reintrodução à sociedade – eventualmente reclusão, claro, não por punição mas por segurança da sociedade.

E então o STJD puniu a Portuguesa. Não construiu nada que já não seria construído sem essa punição. O susto já tinha sido o suficiente para o time, por exemplo, trocar de advogado. Presumo que também tenha sido o suficiente para notar que há um problema interno de comunicação e arrumá-lo.

Assim, na minha visão, o que aconteceu perdeu absolutamente o sentido. Se tornou tecnocracia.

Virou apenas um, mais um “espetáculo da desrazão”, uma punição ao erro.

O caso da Portuguesa, como tantos casos célebres recentes, pode nos ajudar a notar as injustiças que existem nos casos que acabam não se tornando célebres. Pode nos ajudar a notar como é ultrapassada a nossa democracia. Ou como é injusta a nossa justiça.

Li um post de um advogado consagrado recentemente no Facebook. “O STF não serve à justiça; serve ao direito”. Por paradoxal que seja, um tribunal “de justiça” não serve à justiça. E, sim, o que ele disse é verdade.

Mas não precisa ser assim para sempre.

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