“Não vou me render”, diz Evo Morales em meio à crise na Bolívia

Atualizado em 24 de junho de 2026 às 20:01
Ex-presidente da Bolívia Evo Morales. Foto: Divulgação

O ex-presidente da Bolívia Evo Morales afirmou nesta terça-feira (23) que o governo do presidente Rodrigo Paz está “forçando uma guerra civil” ao adotar o que classificou como uma política neoliberal.

A declaração foi dada durante entrevista concedida à AFP na localidade de Lauca Eñe, na região do Chapare, onde ele permanece refugiado enquanto enfrenta um mandado de prisão que ele contesta. A Bolívia atravessa uma crise marcada por escassez de alimentos, combustíveis e medicamentos após semanas de bloqueios em rodovias.

Os protestos ocorreram em diversas regiões do país e coincidem com o agravamento da situação econômica, considerada a mais grave em décadas. O governo atribui parte das mobilizações ao grupo político ligado ao ex-presidente.

No último sábado (20), a administração de Rodrigo Paz decretou estado de exceção para liberar estradas bloqueadas. A medida ampliou a tensão entre o governo e setores ligados a Morales, especialmente no Chapare, região que concentra sua principal base de apoio político.

Durante a entrevista, Morales afirmou que não pretende deixar a região nem recuar diante das ameaças de prisão. “Não vou me render”, declarou. Em seguida, acrescentou: “Quem negocia a sua sobrevivência não é digno.” O ex-presidente também disse que não pretende abandonar sua atuação política mesmo diante do avanço das medidas adotadas pelo governo.

Ex-presidente da Bolívia, Evo Morales fala durante entrevista à AFP. Foto: Divulgação

A entrevista ocorreu após a passagem por vários postos de controle. Nos arredores do local onde Morales está instalado, apoiadores permaneceram reunidos para acompanhar a movimentação. Parte deles portava armas artesanais, segundo o relato da agência.

Ao comentar a possibilidade de uma operação das forças de segurança no Chapare, Morales afirmou que a região está organizada para reagir. “Não há motivos para intervir; não há bloqueios. Sabem que haverá problemas aqui, estamos bem organizados. Sabem que companheiros vão se defender, vão nos defender. Não queremos mortos, feridos”, declarou.

O ex-presidente também voltou a contestar o processo judicial que enfrenta por um suposto caso de tráfico de menor. Segundo ele, a investigação tem motivação política. “Processo inventado. Não encontraram nada de narcotráfico, corrupção. É um tema puramente político. Como Evo não é corrupto nem está ligado ao tráfico de drogas, tentam usar o tema ‘pedófilo’. As pessoas acham graça”, afirmou.

Ao projetar os próximos meses, Morales disse que novas mobilizações poderão ocorrer caso a situação econômica não seja resolvida. Segundo ele, “se não for resolvida a questão estrutural, que é a questão econômica, a qualquer momento qualquer setor vai se mobilizar. Se não houver um plano para reativar a economia estatal, continuará havendo rebelião e agitação”.

O ex-presidente afirmou ainda que não defendeu a renúncia de Rodrigo Paz, mas mencionou a possibilidade de uma saída institucional por meio de eleições e criticou eventuais privatizações de serviços e recursos estratégicos do país. “A questão é evitar que se privatizem a luz, a água, as telecomunicações, os recursos naturais, a saúde, a educação. Este é o pedido”.

Guilherme Arandas
Guilherme Arandas, 28 anos, atua como redator no DCM desde 2023. É bacharel em Jornalismo e está cursando pós-graduação em Jornalismo Contemporâneo e Digital. Grande entusiasta de cultura pop, tem uma gata chamada Lilly e frequentemente está estressado pelo Corinthians.