Nasce o cinema olavista. Por Ethel Rudnitzki e Rafael Oliveira

Cinema olavista. Foto: Reprodução/Agência Pública

Publicado originalmente na Agência Pública

POR ETHEL RUDNITZKI E RAFAEL OLIVEIRA

No dia 20 de julho deste ano, o presidente Jair Bolsonaro (PSL) publicou um decreto anunciando mudanças na estrutura administrativa do cinema brasileiro. A Agência Nacional de Cinema (Ancine) foi do Rio para Brasília, e o Conselho Superior de Cinema teve sua composição alterada, além de ser transferido do Ministério da Cidadania, que englobou o antigo Ministério da Cultura, para a Casa Civil. O número de membros do setor audiovisual no Conselho foi reduzido pela metade – de seis para três – e da sociedade civil, de três para dois. Os demais são funcionários do governo.

As mudanças foram justificadas pela necessidade de combate ao que é visto pelo Executivo como produções cinematográficas “de esquerda” que haviam sido aprovadas para captação de recursos via lei de incentivo. “O ativismo é uma coisa que não podemos permitir”, justificou Jair Bolsonaro em coletiva a jornalistas.

A fala de Bolsonaro se aproxima do discurso de Olavo de Carvalho. Para ele, existe um movimento global pela destruição da “cultura ocidental” movido por “esquerdistas” que tentam conquistar a hegemonia através da cultura, ocupando os espaços intelectuais, como as escolas e as universidades. Para vencer os fantasmas do “marxismo cultural”, é necessária uma “guerra cultural”, segundo o autoproclamado filósofo.

Muito antes das mudanças na Ancine, algumas produtoras brasileiras de cinema, inspiradas nas ideias de Olavo de Carvalho, já atuavam incansavelmente em prol da tal “guerra cultural”. O professor ganhou espaço no audiovisual através de diretores como Josias Saraiva Monteiro Neto, conhecido como Josias Teófilo, que criou a Lavra Filmes, de Mauro Ventura Alves, sócio da Ivin Films, e da produtora gaúcha Brasil Paralelo.

Ainda em 2015, quando manifestantes com camisas verde e amarelas da CBF saíam pelas ruas do país pedindo o impeachment da então presidente Dilma Rousseff (PT), Teófilo organizava seu movimento por trás das lentes. Em setembro e outubro daquele ano, ele, o produtor e montador Matheus Bazzo, o assistente de direção Mauro Ventura e o diretor de fotografia Daniel Aragão foram para Virgínia, nos Estados Unidos, gravar um filme sobre Olavo de Carvalho, que já estampava timidamente algumas camisetas nos protestos pelo impeachment, com a frase: “Olavo tem razão”.

As filmagens resultaram no longa-metragem O jardim das aflições, lançado em março de 2017, com a direção de Teófilo. O documentário estreou sob polêmica, após sete cineastas retirarem seus filmes do festival Cine PE em boicote à participação do diretor pernambucano. Feito parcialmente por alunos e entusiastas de Olavo de Carvalho, o documentário apresenta a obra e o pensamento do escritor.

O sucesso levou Teófilo a criar em 2018 a Lavra Filmes, sua produtora audiovisual, e a fazer outros projetos. Um deles foi anunciado em julho através de seu Twitter, com o nome de Nem tudo se desfaz, e pretende tratar da história recente do Brasil – desde as manifestações de 2013 até a eleição de Jair Bolsonaro.

Assistente de direção de Teófilo em O jardim das aflições, Mauro Ventura estreou como diretor em junho de 2018, com o filme Bonifácio: o fundador do Brasil. O documentário conta a história do luso-brasileiro José Bonifácio de Andrada e Silva, apontado pela produção como “um dos mais importantes brasileiros da história” e Patriarca da Independência. A Ivin Films, de Ventura, produziu também curta-metragem sobre o livro de Olavo de Carvalho O imbecil coletivo e sua repercussão. A produtora atualmente está realizando o filme Brasil: alma portuguesa, que pretende apresentar os vínculos entre Brasil e Portugal.

Fundada em 2016, a gaúcha Brasil Paralelo é outra produtora que tem ligações com o pensamento de Olavo de Carvalho. Produtora de cursos, séries e filmes documentais que propõem uma “solução paralela” para a cultura e educação no Brasil, a Brasil Paralelo lançou em 2019 seu primeiro longa-metragem nos cinemas, 1964: o Brasil entre armas e livros. Ele reúne depoimentos de especialistas ligados à direita que questionam a versão apresentada pela historiografia. Entre eles, a ideia de que havia de fato uma ameaça comunista, usada em diversos momentos pelos generais para recrudescer a repressão, e a relativização da censura.

Entre as outras iniciativas da produtora está a série O teatro das tesouras, que parte da tese defendida por Olavo de Carvalho de que “não há oposição entre os grandes partidos” do Brasil. A Brasil Paralelo produziu também a série Congresso Brasil Paralelo, que analisa a história brasileira e traça um panorama do presente e do futuro.

Por trás das séries e dos documentários estão equipes formadas majoritariamente por entusiastas e alunos de Olavo de Carvalho. A influência do autoproclamado filósofo também está nos bem-sucedidos financiamentos coletivos – as produtoras realizaram os três maiores crowdfundings do cinema brasileiro.

Além de Carvalho, as produtoras também têm buscado estabelecer relações próximas com políticos, especialmente com a família Bolsonaro. O próprio presidente prestigiou algumas das produções da Lavra Filmes e da Brasil Paralelo em posts nas suas redes sociais.

Prestígio na política

No dia 17 de junho deste ano, o cineasta Mauro Ventura, sócio da Ivin Films, foi recebido pelo ministro da Cidadania, Osmar Terra (MDB). A reunião, que contou também com a participação de membros da Cúpula Conservadora das Américas, tinha como pauta “tratar da Lei do Audiovisual, das suas produções e do seu impacto na promoção do Brasil internacionalmente”. Na agenda do ministro, também foi listado como presente Cristian Derosa, editor do site Estudos Nacionais, que não aparece nas fotos.

Em resposta a pedido de Lei de Acesso à Informação movido pela Agência Pública, o Ministério da Cidadania disse não dispor de ata da reunião, mas enviou documento de “memória” da reunião, no qual não consta o nome de Derosa.

Um mês depois do encontro, o site Estudos Nacionais publicou um documento assinado pelo movimento “Brasil 2100”, que propõe “sugestões imediatas para romper o ciclo viciante, desmoralizante e vexatório da cultura brasileira”. O manifesto lista projetos aprovados para captação de recursos via Ancine que, segundo os autores, “não deveriam ter sido aprovados”. Os autores do documento não foram identificados e não há outros indícios da existência do movimento “Brasil 2100”. No site, Cristian Derosa afirmou desconhecer os autores do manifesto. Mas, à Folha, disse conhecê-los mas negou-se a dar os nomes.

Sejam quem forem os autores, fato é que pelo menos uma das sugestões apresentadas pelo documento inspirou mudanças reais no cinema brasileiro na mesma semana. A transferência da Ancine para Brasília era uma das demandas do “Brasil 2100”. O documento sugere também a criação de uma “nova política cultural brasileira”, sem especificar do que se trata.

Em discursos sobre as mudanças, Bolsonaro citou alguns dos filmes rejeitados pelo manifesto, como produções sobre a vida de “Bruna Surfistinha”.

Além de ter sido prestigiado em uma reunião com um ministro de Estado, Ventura teve seu filme Bonifácio: o fundador do Brasil divulgado por Eduardo Bolsonaro, o filho zero três do presidente, no Twitter.

Ventura e Eduardo participaram de sessão solene na Câmara em homenagem a José Bonifácio por ocasião das comemorações do bicentenário da Independência do Brasil, em 2022. No evento, o historiador Rafael Nogueira, entrevistado para a produção de Bonifácio, aluno de Olavo e palestrante do Brasil Paralelo, discursou em homenagem ao personagem histórico e mencionou a importância do filme. Também participaram da sessão outros olavistas, como o deputado Luiz Phillipe de Orleans e Bragança (PSL-SP), membro da “família imperial brasileira” e também palestrante do Brasil Paralelo, e a deputada Caroline de Toni (PSL-SC).

As produções da Lavra Filmes e da Brasil Paralelo são amplamente divulgadas e elogiadas por membros do governo Bolsonaro.

O filme O jardim das aflições foi repetidamente divulgado pelo deputado federal e filho do presidente, Eduardo Bolsonaro, bem como por seu irmão Flávio, no Twitter. Segundo Daniel Aragão, que participou do filme, Eduardo e Teófilo se aproximaram após a produção. O documentário de Teófilo foi exibido no auditório do Trump International Hotel, em Washington, durante a visita de Jair Bolsonaro a Trump, segundo a Folha de S.Paulo. Além do próprio Olavo de Carvalho e do ex-estrategista de Trump, Steve Bannon, os ministros Fernando Azevedo, Sergio Moro, Paulo Guedes e Marcos Pontes também assistiram à sessão.

Em janeiro deste ano, Eduardo Bolsonaro publicou foto dando depoimento para o novo documentário de Josias Teófilo, Nem tudo se desfaz. A conta do diretor da Lavra Filmes é uma das 338 seguidas por Jair Bolsonaro no Twitter.

Eduardo Bolsonaro e Josias Teófilo gravando para o filme “Nem Tudo se Desfaz”. Foto: Reprodução/Twitter

O presidente segue também o perfil oficial da Brasil Paralelo na rede social. A produtora, que tem depoimentos de Jair e Eduardo em suas produções, é a mais mencionada pela família: Eduardo tuitou sobre os filmes e séries da empresa em mais de 20 ocasiões. O documentário 1964: o Brasil entre armas e livros foi visto por Bolsonaro no avião presidencial, enquanto o mandatário retornava de viagem oficial a Israel.

Financiamento olavista

O compartilhamento de conteúdos das produtoras por políticos foi fundamental para o sucesso dos filmes, já que grande parte deles foi financiada através de campanhas de crowdfunding na internet. A Brasil Paralelo, a Ivin Films e Josias Teófilo têm as três maiores campanhas de financiamento coletivo do cinema brasileiro, respectivamente.

Olavo de Carvalho divulga amplamente os filmes e suas campanhas de financiamento, inclusive publicando anúncios patrocinados em página do Facebook.

Ventura conta que optou pelo crowdfunding nas outras produções acreditando no engajamento da sua rede de contatos ligada ao professor, que conta com quase 600 mil seguidores no Facebook e 175 mil no Twitter. Mas a maior influência que o escritor exerce é sobre os mais de 3 mil alunos que já passaram por seu Curso On-line de Filosofia, que tem aulas semanais.

“O próprio público que a gente estava lidando tem uma composição concêntrica a partir do professor Olavo, assim a gente tem um alcance efetivo de bastante gente”, afirma.

Mauro Ventura, diretor da Ivin Films, e Olavo de Carvalho em sua casa na Virgínia. Foto: Reprodução

Durante as produções de O jardim das aflições, o professor não poupou elogios aos diretores. Para a produção de Bonifácio e Milagre, o escritor deu depoimentos em vídeo elogiando os filmes – dos quais ele próprio participa.

Além disso, a grande maioria das empresas doadoras de crowdfunding é de alunos de Olavo, que investiram milhares de reais nessas produções.

Em 2017, o filme Jardim das aflições foi bancado por uma campanha online de crowdfunding em três fases – a maior da história até então, com R$ 315 mil arrecadados, vindos de 5 mil pessoas anônimas e quatro empresas.

Um ano depois, o recorde foi superado pela produção com a direção de Mauro Ventura, por meio de sua recém-fundada produtora Ivin Films. Bonifácio: o fundador do Brasil, lançado em junho de 2018, recebeu doações de 2.800 investidores individuais e seis corporativos, totalizando R$ 387 mil, arrecadados via campanha online que convocava os doadores a “participar da guerra cultural” e “ajudar o Brasil a resgatar sua verdadeira alma”.

A Brasil Paralelo superou os dois recordes com sua primeira campanha de crowdfunding, que, ainda em andamento, tem como objetivo a produção e a distribuição gratuita na internet e em escolas. O projeto “A Última Cruzada: O Filme” vai transformar em longa-metragem a série de seis episódios Brasil: a última cruzada, que revisita o período imperial brasileiro para reforçar os laços com os portugueses colonizadores. A campanha já arrecadou mais de R$ 450 mil, batendo a primeira meta.

Uma das empresas que contribuem para essas campanhas é a Pereda Incorp, do empresário Luiz Pereda, aluno do curso de Olavo. Ele doou para Bonifácio e Milagre, produções da Ivin Films. Segundo o empresário, a decisão de investir nos trabalhos partiu de um ensinamento do seu professor. “Uma coisa que ele fala bastante é que o amor ao conhecimento é uma coisa muito rara no Brasil”, afirma.

O empresário ressalta que seus investimentos não tiveram como objetivo promover sua empresa, mas sim uma visão de mundo. “Eu acredito que o papel de um bom empresário, além de fazer a economia crescer, de empregar, de enfim, produzir pro mundo, que é de, especialmente no Brasil, contribuir para uma das coisas mais falhas que a gente tem que é a falta de inteligência”, afirma Pereda.

O filme Bonifácio também recebeu investimento do blog “Como Educar Seus Filhos”, do empresário e atual secretário de Alfabetização do Ministério da Educação (MEC), Carlos Nadalim. O crowdfunding contou ainda com apoio do Movimento Avança Brasil, grupo conservador pró-Bolsonaro do qual Olavo de Carvalho é conselheiro; do escritório de advocacia Panichi Advogados, do jurista conservador e olavista Raphael Panichi; e do Instituto Realitas, do sociólogo conservador Edgard Leite.

A empresa de arquitetura Arquiteco, de Paulo Coutinho, aluno do curso de Olavo, também doou. Aparecem também como apoiadoras as empresas CriarLOG, que atua em transportes, logística e distribuição de cargas, e a 4IT Smart Solutions, que presta consultoria em tecnologia da informação.

Outra empresa que aparece como apoiadora é o Café Patriota, que fica no bairro da Aldeota, em Fortaleza, no Ceará. O café, que quer a “preservação e disseminação dos valores fundamentais da sociedade brasileira”, também é parceiro da Brasil Paralelo, oferecendo descontos para quem for assinante do conteúdo da produtora – 30 dias de café expresso grátis e desconto de 20% em todo o cardápio. À Pública, Anapuena Havena, sócia do Café Patriota, disse que a empresa não fez nenhum tipo de contribuição financeira para o filme Milagre. “O que aconteceu foi apoio na divulgação”, disse.

A Ivin ainda fez um curta-metragem em 2018 sobre o livro O imbecil coletivo, de Olavo de Carvalho, que não contou com financiamento coletivo. Os custos do filme foram pagos com a distribuição – a produtora vende a versão online do filme por R$ 14,90.

A Pública procurou todas as empresas mencionadas na reportagem, perguntando os valores doados, mas não obteve respostas.

Mas algumas pistas podem ser depreendidas do crowdfunding realizado para O jardim das aflições. A campanha tinha três categorias de recompensas para empresas interessadas em doar altas quantias: quem investisse R$ 10 mil teria sua logomarca exibida nos créditos iniciais junto com outras três investidoras; para quem investisse R$ 20 mil, a logomarca apareceria sozinha com destaque nos créditos iniciais; se doasse acima de R$ 40 mil, a empresa teria maior tempo de exibição nos créditos iniciais.

O filme conseguiu patrocínio de quatro empresas. A “Como Educar Seus Filhos”, de Carlos Nadalim, investiu ao menos R$ 20 mil na produção e teve a logomarca exibida nos primeiros minutos de filme. Em seguida, aparece a logomarca de Victor Gamarra, empreendedor de marketing digital e criptomoedas, com mesmo tempo de exibição. Em entrevista à Pública, Gamarra confirmou o valor investido e afirmou que a doação se deu pela crença na importância da obra de Olavo. “O professor Olavo tem uma mensagem muito importante a transmitir, sobretudo num país contaminado pelo coitadismo, pela burrice generalizada, pela histérica adoração a diplomas, pela crença de ausência de inteligência fora do ambiente universitário”, afirma.

O filme contou também com o patrocínio da Andrade CG Advogados, especializada em atendimento a empresas, e da editora Concreta, que investiram ao menos R$ 10 mil cada uma. Germano Costa Andrade, sócio da Andrade GC, confirmou o valor investido e ressaltou que foi uma contribuição modesta e que não recebeu nenhum benefício fiscal ou financeiro com a doação. “O filme pareceu alinhado à nossa sede por mudanças dessa realidade”, afirmou.

Todas as empresas que financiaram o filme são gerenciadas por olavistas. Nadalim é aluno do curso e seu blog propaga o homeschooling, ou ensino domiciliar, uma das muitas pautas defendidas por Carvalho. Gamarra também é admirador do escritor, conforme indicado em suas redes sociais. A editora Concreta, que vende livros de cultura clássica, catolicismo e protestantismo, também é administrada por um aluno de Carvalho, Renan Martins dos Santos. Já a Andrade CG tem como sócios dois alunos, Germano Costa Andrade e sua esposa, Carolina Ribeiro Botelho.

No total, a produção arrecadou R$ 315 mil – R$ 155 mil além da meta de R$ 160 mil estabelecida. Pelo menos R$ 70 mil vieram de empresas e o restante, de doações individuais, a partir de R$ 60 por pessoa. Os doadores físicos foram recompensados também com materiais de divulgação do filme e nome nos agradecimentos.

Brasil Paralelo ganha com assinaturas

Orgulhosa por não utilizar dinheiro público, a Brasil Paralelo financia suas atividades através de assinaturas digitais por seu conteúdo. “Ficar dependente de grandes patrocinadores, incentivos de lei não era uma alternativa. O conflito de interesses nesses casos é iminente”, afirmou um dos sócios, Filipe Valerim, em entrevista ao site Boletim da Liberdade. O plano básico, que custa R$ 478,88 por ano, oferece acesso a todos os conteúdos exclusivos das séries e filmes da produtora. Já o plano “Master” custa R$ 687,48 e oferece, além dos conteúdos exclusivos, acesso a aulas ao vivo; ao chamado “Núcleo de Formação” da plataforma, com cursos e palestras; e a encontros presenciais com outros assinantes, membros da equipe e palestrantes.

Em entrevista para o blog Saída pela Direita, em fevereiro, a empresa afirmou ter mais de 20 mil assinantes, o que resultaria em uma receita anual de pelo menos R$ 9,6 milhões, considerando o plano mais básico. Não há divulgação de empresas apoiadoras, à exceção do grupo Liberta, que realizou a série O dia depois das eleições, em parceria com a produtora em 2017.

O grupo foi fundado por Leandro Ruschel, economista aluno de Olavo de Carvalho, palestrante da Brasil Paralelo e irmão de um dos fundadores da produtora, Bruno Ruschel.

As polêmicas leis de incentivo

Por conta das dificuldades logísticas que encontrou para fazer campanhas de crowdfunding, Josias Teófilo resolveu criar uma empresa para tentar captação em leis de incentivo. A Lavra Filmes conseguiu a aprovação de dois projetos pela Ancine em 2019, via lei de incentivo ao Audiovisual. A lei possibilita que empresas e pessoas físicas abatam parte do imposto de renda direcionando recursos para produções audiovisuais.

Um dos projetos de Teófilo que conseguiu aprovação é Nem tudo se desfaz, registrado sob o nome de “Sinfonia nº 2” na Ancine. Trata-se de “um documentário de longa-metragem sobre a história recente do Brasil (entre 2013 e 2018) e as crescentes tensões políticas e agitações sociais que levaram a uma alteração de eixo da política nacional, e uma crise de representatividade sem precedentes – tanto da população para com o governo, como da população em relação à mídia”. O projeto foi aprovado para captar R$ 530 mil até o fim deste ano. O diretor pretende ainda fazer a distribuição por intermédio de um crowdfunding.

O outro projeto é Espelhos do tempo, que foi aprovado para captar R$ 1.306.660,60 até 31 de dezembro de 2019 e se trata de uma série sobre a arquitetura de cidades brasileiras “de Ouro Preto a Brasília”. À Pública, Teófilo disse que não vai levar adiante a captação para esse projeto.

Josias Teófilo considera as leis de incentivo positivas, mas faz ressalvas. “Está havendo um grande questionamento do cinema nacional no atual governo, e isso é resultado de péssimo uso das leis, inclusive com irregularidades. Mas isso tudo não inviabiliza a própria lei em si. Ela é boa. A lei de incentivo, ao invés de o empresário pagar imposto para o governo, é preferível que ele doe para projeto cultural. Você privatiza a escolha dos projetos culturais”, afirma.

Diferentemente da Brasil Paralelo, os diretores da Ivin também não são contrários aos incentivos públicos. “As leis [de incentivo] em si não são boas ou más. Eu vejo de forma positiva que existam contradições, mas é necessário quebrar essa hegemonia da esquerda”, defende Ventura.

Crítico das leis de incentivo à cultura, o presidente Jair Bolsonaro reprovou o uso desses recursos para o filme Nem tudo se desfaz. “Recentemente tomei conhecimento sobre a liberação para captação de R$ 530 mil via Ancine para produção de um filme sobre minha campanha nas eleições. Por coerência, sugeri que voltassem atrás nessa questão. Não concordamos com o uso de dinheiro público também para estes fins”, publicou em seu Twitter. Ele anunciou interesse de extinguir a Ancine, mas voltou atrás na decisão.

Na ocasião, Carvalho saiu em defesa de seu aluno. “Primeiro: o filme não é sobre o Bolsonaro. Segundo: a Ancine não deu nem vai dar um só tostão ao Josias. Só deu a autorização legal para ele tentar obter patrocínio privado”, publicou em seu Facebook.

O diretor da Lavra Filmes comemorou o recuo do presidente sobre a extinção da Ancine. “A direita brasileira inteira tem preconceito contra as leis de incentivo, inclusive não entendem exatamente como a coisa funciona.”

Ventura também é contra a ameaça de extinção da Ancine. “O nosso cinema não é grande. Ele ainda precisa se desenvolver, ainda precisa ganhar corpo. […] Quando a gente abre mão de uma das únicas formas de obter alguma vantagem nesse jogo, a gente está realmente, aí sim, entrando num retrocesso”, diz, ressaltando que não vê com bons olhos o estabelecimento de filtros na instituição.

O diretor da Ivin Films afirma que pensa em utilizar recursos estatais. “A gente tem o plano de utilizar todos os meios, inclusive os meios de fomento estatal”, diz. No entanto, sua produtora ainda não apresentou projetos com captação por leis de incentivo.

Guerra audiovisual

“Participe da guerra cultural”, convida a Ivin Filmes em vídeo promocional com Olavo de Carvalho para a campanha de financiamento do filme Bonifácio. Com discurso parecido, Filipe Valerim, sócio-fundador da Brasil Paralelo, agradece aos assinantes por ajudarem a Brasil Paralelo a despertar “a consciência de pessoas que jamais teriam a uma visão sistêmica dos problemas que o Brasil enfrenta e da revolução cultural que passamos”.

Indagado pela Pública sobre o que sua campanha quis dizer com “guerra cultural”, Ventura aponta uma hegemonia da esquerda na cultura e diz que “os filmes da produtora se inserem nessa lógica na medida que eles oferecem pro público algo que não está sendo privilegiado há algum tempo”.

Josias Teófilo não abraça completamente a ideia de guerra cultural, mas admite que seus filmes podem ser usados dentro dessa retórica. “Eu tenho reservas quanto a isso da guerra cultural, mas ao mesmo tempo eu noto que existe uma guerra cultural, contra mim, contra filmes. E você se afirmar é também entrar na guerra, né”.

Com equipes formadas majoritariamente por entusiastas e alunos de Olavo de Carvalho, as três produtoras passeiam por temas relevantes dentro da “guerra cultural” do professor, como a história do Brasil, e a religião. Além dos temas, as produções também repetem alguns dos entrevistados, entre eles o professor Olavo de Carvalho, o deputado federal Luiz Philippe de Orléans e Bragança e o professor de filosofia e história Rafael Nogueira, aluno do curso.

Contrário à rotulação de sua produtora em um espectro político, Mauro Ventura esclarece: “Nós não produzimos direita, nós produzimos cinema”, diz. E completa: “As pessoas estão imbuídas daquilo que elas acreditam e por mais que o trabalho delas seja técnico, elas vão acabar colocando algo daquilo que elas acreditam no trabalho. Imparcialidade total não existe, mas existe sinceridade de fato”.

Para Teófilo, suas produções também tentam fugir de ideologias. “A retórica começa a matar a arte, são raras as obras de arte que conseguem sobreviver a propaganda de qualquer coisa que seja. Então no caso do Nem Tudo Se Desfaz, eu quero ser o mais descritivo possível, e adjetivar o mínimo. Tentar ao máximo dar uma experiência pras pessoas, e não informação pras pessoas”, diz.

Procurada por telefone e mensagem, a Brasil Paralelo não respondeu à Pública até a data de publicação.

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