“Negócio do presidente do BRB”: como eram tratadas as compras de carteiras do Master

Atualizado em 17 de março de 2026 às 9:27
Fachada do BRB. Foto: reprodução

A auditoria forense sobre a compra de carteiras de crédito do Banco Master pelo BRB (Banco de Brasília) aponta que as operações eram tratadas internamente como “negócio do presidente” e conduzidas sob pressão e urgência. O relatório preliminar da segunda fase da investigação, conduzida pelo escritório Machado Meyer com suporte da Kroll, indica que decisões foram fragmentadas para evitar a necessidade de aprovação pelo Conselho de Administração do banco público do Distrito Federal.

Segundo o documento obtido pela Folha, o então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, teria desempenhado papel central nas aquisições. Do total de operações realizadas entre 2024 e 2025, 83% envolveram ativos ligados ao Banco Master, volume considerado elevado diante da ausência de mecanismos eficazes de mitigação de risco.

Relatos colhidos pela auditoria indicam que a decisão de compra, a velocidade das transações e até a precificação partiam diretamente da presidência.

Funcionários afirmaram ter emitido pareceres contrários às suas convicções técnicas por entenderem que se tratava de um “negócio do presidente”. Um dirigente relatou que, ao questionar a continuidade das aquisições, foi orientado a aprovar as operações de qualquer forma.

Paulo Henrique Costa, ex-presidente do BRB. Foto: reprodução

A auditoria aponta falhas de governança e ausência de freios institucionais ao poder decisório. Em alguns casos, aquisições bilionárias teriam sido determinadas e analisadas no mesmo dia. Também foram identificadas negociações diretas sem a entrega de relatórios exigidos contratualmente.

Ao todo, o BRB comprou R$ 21,9 bilhões em carteiras do banco ligado a Daniel Vorcaro. Parte relevante desses ativos, cerca de R$ 13,3 bilhões, apresenta indícios de ausência de lastro, inconsistências estruturais e vícios documentais. A origem de parte dessas carteiras estaria na empresa Tirreno, apontada pela Polícia Federal como de fachada.

As investigações também identificaram contratos inadimplentes, registros em nome de pessoas mortas e possível substituição irregular de devedores para simular renovação de crédito. A fragmentação das operações, abaixo do limite de R$ 750 milhões, teria sido usada para evitar análise pelo Conselho de Administração.

A auditoria conclui que as compras geraram liquidez ao Banco Master e podem estar conectadas às operações de aumento de capital do BRB, que permitiram a entrada de Vorcaro e outros investidores no banco público. Há suspeitas de que aportes de R$ 1 bilhão tenham viabilizado a ampliação das aquisições em mais R$ 10 bilhões.

A defesa de Paulo Henrique Costa afirma que as operações faziam parte do planejamento estratégico desde 2019. “Não tem nenhuma decisão do Paulo Henrique, nenhuma determinação para fazer isso ou aquilo. A velocidade de compra de carteira quem dá o timing é o mercado. Não é o presidente do banco”, declarou o advogado Cleber Lopes.

Augusto de Sousa
Augusto de Sousa, 31 anos. É formado em jornalismo e atua como repórter do DCM desde de 2023. Andreense, apaixonado por futebol, frequentador assíduo de estádios e tem sempre um trocadilho de qualidade duvidosa na ponta da língua.