
O controle do resort Tayayá, em Ribeirão Claro (PR), antes dividido entre parentes do ministro Dias Toffoli e um fundo ligado ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, passou integralmente para o advogado goiano Paulo Humberto Barbosa após uma série de transações realizadas ao longo de 2025. Em apenas dois meses, Barbosa adquiriu as cotas dos irmãos José Carlos e José Eugênio Dias Toffoli e, meses depois, em setembro, comprou também a participação do primo do ministro, Mario Umberto Degani. A operação consolidou Barbosa como o único proprietário do empreendimento por meio de suas holdings — PHB Holding e Participações Ltda. e Angra Doce Investimentos Ltda.
Segundo a Folha de S.Paulo, a primeira compra, em fevereiro de 2025, envolveu a Maridt, empresa dos irmãos do ministro, e foi estimada em cerca de R$ 3,5 milhões. Degani permaneceu por mais cinco meses no negócio, deixando a sociedade apenas em setembro. Antes disso, entre 2021 e 2025, os parentes de Toffoli dividiram o controle do Tayayá com o fundo de investimentos Arleen, que integrava a rede financeira atribuída a Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master. O fundo Arleen também foi sócio de parentes de Toffoli na DGEP, uma incorporadora imobiliária cujas instalações estão registradas no mesmo endereço do resort. A entrada do fundo na DGEP rendeu cerca de R$ 3,2 milhões aos irmãos do ministro.
Investigadores apuram se o Banco Master utilizava uma estrutura de fundos hospedados na gestora Reag para simular patrimônio e inflar artificialmente ativos por meio de empréstimos que retornavam ao sistema financeiro. Segundo a Folha, a suspeita é de que empresas obtinham crédito no Master e aplicavam os recursos nos fundos geridos pela Reag, produzindo valorização acelerada — e muitas vezes sem comprovação — dos ativos, o que beneficiaria o que a PF chama de “laranjas de Vorcaro”. Tanto o Arleen quanto outros fundos da teia foram administrados pela Reag, que também é investigada na Operação Carbono Oculto por suspeita de lavar recursos para o PCC.
O Arleen foi liquidado em 22 de dezembro de 2025. A decisão de encerramento foi registrada no início de novembro, menos de duas semanas antes de Vorcaro ser preso ao tentar embarcar para Malta. O fundo aparece ainda como sócio do Maia 95, que por sua vez é ligado ao fundo RWM Plus, ambos citados em investigações sobre movimentações financeiras suspeitas.
A transação envolvendo o resort ganhou relevância porque Paulo Humberto Barbosa mantém relações profissionais com integrantes do grupo J&F. Ele é sócio de Renato Mauro Menezes Costa, atual presidente da Friboi, e de Gabriel Paes Fortes, cunhado de José Batista Júnior, irmão mais velho de Joesley e Wesley Batista. Os três administram a Petras Negócios e Participações, empresa de aluguel de aeronaves na qual Barbosa detém 50%. Ele também possui cerca de dez empresas ligadas aos setores de comércio, investimentos e agropecuária. Seu escritório de advocacia já representou interesses dos Batista em processos tributários no Tribunal de Justiça de Goiás e perante a Secretaria de Fazenda estadual.

A JBS afirmou ao Metrópoles que “o escritório do advogado mencionado defendeu a empresa em ações no estado de Goiás. Nem a Companhia nem os acionistas possuem qualquer relação com as empresas citadas ou com qualquer outro negócio do advogado”. A defesa de Daniel Vorcaro, por sua vez, disse à Folha que não há irregularidades, que o banco “nunca foi gestor, administrador ou cotista dos referidos fundos” e acusou a reportagem de sugerir “conexões inexistentes”.
O negócio envolvendo o resort se entrelaça a outro ponto sensível: Dias Toffoli é o relator do caso Master no Supremo Tribunal Federal. O inquérito investiga uma cadeia de operações que inclui a venda de R$ 12,2 bilhões em créditos do Banco Master ao BRB, operação que teria sido feita sem lastro. A saída dos irmãos de Toffoli do Tayayá ocorreu um mês antes do anúncio de intenção de compra do Master pelo próprio BRB, tentativa depois rejeitada pelo Banco Central. Em dezembro, Toffoli decidiu que o caso deveria tramitar no STF, sob sigilo, alegando a presença de um deputado federal entre os investigados. Na quarta-feira (14), a Polícia Federal deflagrou nova fase da investigação, desta vez concentrada nos envolvidos na teia de fundos atrelados ao Master e à Reag.
O ministro também já esteve envolvido em outra polêmica relacionada à J&F ao suspender, em 2023, o pagamento de R$ 10,3 bilhões previsto no acordo de leniência da empresa com o Ministério Público Federal, decisão criticada à época por órgãos de controle. A repercussão do caso voltou após a revelação das movimentações envolvendo o resort e os fundos investigados.
Embora não tenha sido sócio formal do Tayayá, Toffoli é descrito como frequentador assíduo do local. Em 2025, a imprensa registrou uma visita do ministro ao resort utilizando aeronave de Roberto Augusto Leme da Silva, o Beto Louco, investigado na Operação Carbono Oculto por suspeita de participação em esquema de evasão fiscal e distribuição de combustível adulterado associado ao PCC. Outro episódio citado pela Folha mostra que Toffoli pegou carona para viajar ao Peru num avião em que estava um advogado envolvido no caso Master.
