NegoVila Madalena: artista plástico, rapper e skatista. Morto com um tiro por PM de folga

NegoVila Madalena foi morto na madrugada do último sábado (28/11) por um PM de folga | Foto: Reprodução/Instagram

Publicado originalmente na Ponte:

Por Caê Vasconcellos

A Vila Madalena, na zona oeste da cidade de São Paulo, acordou em luto no fim de semana. Os famosos grafites do Beco do Batman deram lugar a uma parede com tinta preta e frases pedindo justiça pelo assassinato de um dos artistas mais queridos do bairro: Wellington Copido Benfati, conhecido como NegoVila Madalena.

NegoVila foi morto com um tiro após tentar apartar uma briga frente a uma distribuidora de bebidas no bairro. O tiro foi disparado pelo sargento PM Ernest Decco Granaro, 34 anos, que foi preso em flagrante por homicídio, conforme confirmou a Secretaria da Segurança Pública.

O caso foi registrado pelo 14º DP (Pinheiros), que apura os fatos, assim como a Polícia Militar, que instaurou um Inquérito Policial Militar. O PM Decco foi encaminhado ao presídio militar Romão Gomes, na zona norte da cidade. O PM estava de folga.

Artista plástico, NegoVila era rapper, skatista, grafiteiro e ajudava em produções de filmes de cinema e comerciais. Deixou uma filha de 9 anos.

Em entrevista à Ponte, Neg, 39, integrante do grupo de rap Família Madá e amigo de infância de NegoVila, lamentou o assassinato do artista. “Ele era o meu melhor amigo, nos conhecíamos desde os 11 anos. Ele me ensinou a andar de skate, o maluco era original, era um maluco daora de verdade. Era único. O NegoVila era tudo para a Vila Madalena. O Nego é amigo de todo mundo, sempre foi amado por todo mundo”.

Neg estava com NegoVila na noite do assassinato, mas foi embora no começo da madrugada. “O Nego morava aqui comigo, com outro amigo e a minha mãe. Naquele dia, fomos para o samba porque um amigo ia tocar um samba em um bar da rua Fradique Coutinho”.

“Eu tinha sofrido um acidente mais cedo, batido a cabeça, então não fiquei muito. Chamei ele para vir comigo quando vim embora, mas aí ele disse que ia ligar para a minha mãe para saber se ela queria alguma coisa. Fui embora e ele ficou lá”, lamentou Neg.

A Ponte conversou com uma das testemunhas que depôs na delegacia. A analista administrativa Luana Cruz de Campos, 37 anos, detalhou como NegoVila foi morto pelo PM. Ela contou que, antes da confusão, estava conversando com uma amiga no local.

“Eu fiquei de costas conversando com ela. Quando virei, a confusão tinha começado. Não vi o que aconteceu, mas a galera disse que o Nego foi defender um amigo. Quando vi a confusão, fui tentar tirar o Nego de lá, mas ele me afastou. Tinha várias pessoas no meio da confusão e aí ouvimos um tiro para o alto. A galera começou a correr e, logo depois, escutamos outro tiro. Fiquei procurando o Nego e foi aí que vi ele no chão”, contou Luana.

Nesse momento, a analista foi em direção ao músico e viu o PM apontando a arma para o peito dele. “Foi aí que me joguei em cima do Nego, pedindo por favor não para que ele não atirasse mais. O PM saiu do nosso lado e aí que o Nego me disse que foi baleado, fiquei do lado dele pedindo para ele não fechar o olho, até o socorro chegar”.

A assistente parlamentar Mariana Judica, 30 anos, também é uma das testemunhas do caso e conversou com a Ponte. Ela contou que o grupo tomava a saideira, “com muita alegria e tranquilidade”, quando uma discussão começou.

“Foi quando o Nego, por ser sempre tão protetor e ter o respeito de todos nós, que somos cria da sensibilidade e paz, pediu para que a briga parasse, pois ali era um lugar para confraternizarmos”, detalhou. “O PM nem estava participando da briga, deferiu um soco no rosto de Nego, sem motivo algum, e ele revidou. Naquele momento, todos entramos em uma briga generalizada”.

Mariana afirmou que o policial agiu de forma “despreparada” e “friamente”, atravessando a rua e atirando para o alto. “Quando ele atirou, todos saímos correndo. O Nego fico na frente dele, com os braços abertos, rendido e pedindo paz. Quando o Nego se afastou, tropeçou e caiu no chão, aí o PM fez o disparo da morte”.

Na delegacia, enquanto as testemunhas faziam o relato, contou Mariana, o PM Decco estava sem algemas “comendo e tomando refrigerante como se estivesse ali de vítima”.

Para Mariana, NegoVila Madalena era “pura cultura”. “Ele sempre nos mostrou que a cultura salvava vidas. Em todos os projetos culturais do nosso bairro tinha um pouco do Nego”.

Amigos e admiradores de NegoVila Madalena prometem não deixar a morte do artista ser esquecida e realizarão atos ao longo dos próximos dias cobrando justiça pelo artista, consideram um ícone cultural da região.

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