“Negro é incômodo em Santa Catarina”: o que está por trás da morte do haitiano Fetiere Sterlin

Fetiere Sterlin
Fetiere Sterlin

 

Fetiere Sterlin, 33 anos, precisava do emprego que o Haiti não oferecia. Chegou ao Brasil pelo Acre, em 2011, através de uma rede de coiotes. Morou em Rio Branco e São Paulo antes de ir para Navegantes, cidade de 72 mil habitantes no litoral de Santa Catarina, onde foi assassinado na noite de sábado (dia 17).

O corpo ainda não foi sepultado, mas seu assassino já está solto. O adolescente de 17 anos que confessou a autoria do crime ficou detido por quatro horas e foi liberado por ausência de vagas no Centro de Atendimento Socioeducativo Provisório. O corpo de Fetiere ficou retido 90 horas no Instituto Médico Legal (IML), por questões burocráticas e falta de vontade.

E precisou aguardar mais 36 horas para descongelar, o que somou 126 horas de angústia para sua esposa Vanessa Pantoja. Nascida em Belém do Pará, ela teve que comprovar a união estável e aguardar a liberação da embaixada haitiana. Os custos do velório foram pagos com o seguro de vida do imigrante, que não deixou mais nada para filha de oito anos que aguardava o reencontro com o pai.

O plano do casal era poupar dinheiro para ir morar nos Estados Unidos em 2016, onde alguns familiares dele vivem há mais de uma década. Seus parentes contavam que a vida lá é melhor. Vanessa levaria sua filha, Fetiere a dele. As meninas têm a mesma idade. As semelhanças entre o casal não são poucas. Ambos tiveram que abandonar a terra natal para buscar trabalho e sofreram discriminação por essa escolha. “Não são apenas os haitianos que sofrem. Quem vem do Norte e do Nordeste também. Negro é tratado com desdém, como um incômodo pelo povo daqui”, disse Vanessa.

Fetiere, a esposa e quatro amigos caminhavam pela rua Adolfo Koeler, quando foram surpreendidos pelos xingamentos de três garotos que passavam de bicicleta. “Macici”, um deles disse. Palavra que em criolo francês significa gay. “Macici é você”, respondeu o haitiano. E ouviu “se eu sou macici, tu será morto”. Imaginando que seria mais uma ofensa entre tantas eles prosseguiram com a conversa. Até que dez garotos voltaram munidos de paus, pedras, pás e facas. Eles o golpearam aos gritos de “morre, crioulo” e “vai embora para tua terra”.

A violência contra Fetiere não foi aleatória. Claude Gustavo, outro haitiano, recebeu cinco tiros em janeiro do ano passado, sobreviveu e foi embora. João Edson Fagundes, diretor da Associação dos Haitianos de Navegantes, conta que agressões contra os imigrantes são corriqueiras.

“É a banalidade do mal, compreendes? Alguém disseminou a ideia que eles vieram para roubar empregos dos brasileiros, isso virou uma verdade na consciência coletiva da cidade e criou uma rede de ódio”, afirma Fagundes.

Mas apesar da alta qualificação – a maioria domina cinco línguas (francês, criolo, português, espanhol e inglês) – eles assumem subempregos e são explorados pelo mercado do sul do país. “Dos 700 haitianos de Navegantes, 30% tem carteira assinada, os outros não recebem benefícios, trabalham mais e ganham menos que os catarinenses sem reclamar”, disse Fagundes.

O histórico de racismo de Santa Catarina não se resume às mortes e explorações. Está entranhado no cotidiano. No ano passado, por exemplo, o estado foi o único que não elegeu nenhum negro no país. Já o jornal The Sun, segundo de maior circulação no Reino Unido, publicou que Florianópolis é a cidade com mais pessoas bonitas do mundo. Os jornais estaduais estamparam o assunto nas manchetes, com diversas fotos, nenhuma de um negro, até porque apenas 2,9% da população se declarou afrodescendente no Censo.

A presidente Dilma Rousseff e o ministro da Justiça José Eduardo Cardozo lamentaram a morte de Fetiere e ofereceram auxílio da Polícia Federal. Mas não foi necessário, o delegado Rodrigo Coronha deteve cinco suspeitos que confessaram o crime. Eles responderão pelo crime de homicídio por motivo torpe, que engloba ódio, racismo e xenofobia. O adolescente poderá ser reencaminhado ao Centro de Atendimento nesta tarde.

 

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