“Nesse país está cada vez mais difícil ver ‘flores em você'”: Nasi, do Ira, fala ao DCM de seu novo documentário

Nasi, cantor do Ira

Acaba de estrear no festival de documentários Musicais In-edit o filme “Você Não Sabe Quem Eu Sou”, que retrata um dos mais controversos personagens do rock paulista, Nasi.

Retrata um momento bizarro de escândalo judicial, envolvendo sua banda Ira, a “macumba” e os familiares num imbroglio completo.

Roger Worms, colaborador do DCM, falou com ele.

DCM – Geralmente, cinebiografias estão associados a personagens mortos ou fora do mercado. Você está se despedindo a caminho de uma aposentadoria precoce? Como diria nosso velho amigo Barmack, “vais vestir o chinelão e o roupão felpudo? “

Nasi – Não está nos meus planos me aposentar. Pra falar a verdade, eu tinha planos pra me aposentar do palco aos 70 anos. Mas esse um ano e meio em que fiquei parado eu vi que enquanto tiver pernas pra caminhar e voz pra cantar eu vou seguir no palco porque é algo que vai além de uma questão profissional.

Acontece que essa biografia se aprofunda na questão da explosiva e escandalosa separação do Ira, com começo, meio e fim.  Quer dizer, é demonstrado todo final desse processo, que leva, inclusive, à volta da banda.

Agora temos de mostrar para nos mesmos e nosso publico que estamos vivos e produzindo. Tivemos  de encher o saco do Edgard Scandurra para termos novas canções e acender a velha chama.

Foi o dinheiro ou brigas por protagonismo que levaram o Ira acabar? Que exatamente aconteceu, muita droga e álcool? Descontrole total?

Eu acho que isso, o descontrole e a falta de, talvez, de uma liderança mais unida entre eu e Edgard. Sabíamos  que o Ira tinha que dar um tempo, não acabar.

E era um momento bom porque o Ira tinha acabado a turnê, talvez a de maior sucesso na nossa carreira, que foi a do Acústico MTV, todo mundo estava bem de dinheiro ou deveria estar. Pra passar um ano bem, pra cada um se dedicar à carreira solo, a vida pessoal. 

Acontece que aí, em vez de eu e Edgard, que sempre fomos os líderes da banda, sentarmos à mesa e decidirmos isso de maneira racional, começaram a entrar interesses de outros músicos da banda, mais especificamente do André Jung, de não parar, e do meu próprio irmão. E aí ficou o samba do crioulo doido. E esse crioulo doido, no caso, era eu. (Risadas)

Álcool e drogas, eu vou falar, o Ira nem estava nessa fase, faz tempo que é uma banda mais tranqüilinha. Eu parei de usar cocaína em 97, nunca recaí, em 2007, não fumava nem maconha.

Mas na banda, o que tem é isso: um fuma seu baseadinho, bebida, todos bebem, eu, com certeza, bebo mais que eles, mas não foi esse o problema, né? O problema foi desgaste da nossa relação pessoal, necessidade de férias, o Ira nunca foi uma banda que se deu o direito de ficar parada um ano, cada um cuidando de outras coisas.

Você foi traído por seu irmão e comparsas, ainda tem contas para acertar?

Sim, eu me senti traído pelo empresário, que ao mesmo tempo era meu irmão. Traído porque por trás estava sendo organizado que o Ira continuaria sem mim, mesmo quando a gente ja tinha acordado uma parada de um ano.

Veja só, eu já achava que deveria ter parado no final  de um ano e meio de tour acústico MTV. Depois me convenceram que nós deveríamos gravar mais um disco. Um dia o próprio Gaspa chega pra mim e fala: “Olha, Nasi , me pressionaram,  me colocaram contra a parede, falando que você ia parar, mas nós não”. Comecei a ficar furioso e o clima que já tava mais ou menos, piorou.

Mas tudo isso foi resolvido, com exceção do André, que hoje não cita meu nome e tudo bem, é um direito dele porque realmente quando o Ira voltou, eu e Edgard achamos que era hora de reformular a formação também. Mesmo porque o próprio Gaspa não queria voltar, ele tava com a vida dele encaminhada em outros objetivos e não queria entrar nessa vida de turnê novamente.

O Edgard estava muito envolvido com o filho Daniel na música, eu tinha o Johnny Boy e o Evaristo Pádua, que estava comigo há anos na minha carreira solo. Então, eu resolvi fazer de tudo isso, uma nova formação do Ira.

Como se sente vendo seus colegas de geração fazendo proselitismos facistoides?

Pois é, a gente tende a achar que todo músico músico de rock é de esquerda, né? Talvez a maioria seja, mas não necessariamente. O rock’n’roll tem uma fatia da sociedade como qualquer outra, em que existem pessoas que são de esquerda, artistas que são de centro, vamos dizer assim, e os que são de direita e os que são apolíticos.

Eu gosto de lembrar do Neil Young, que foi um dos dos roqueiros mais rebeldes e de discurso mais anti-sistêmico que tem, que apoiou o Ronald Reagan. Então, as coisas não são, assim, tão preto no branco.

Agora, algumas coisas, eu procuro sempre tratar assim: acredito que dentro de um convívio democrático, cada um é dono dos seus erros e dos seus acertos. Cada um é responsável por escrever a própria biografia. Então, desde que me tratem bem, e quiserem conversar na mesa de um bar as ideias mais loucas que tiverem, eu vou simplesmente me valer dos meus argumentos.

Eu não vou lacrar uma pessoa, não vou cancelar uma pessoa.    Nas vésperas do segundo turno de Haddad x Bolsonaro, eu fui convidado para participar de um show, com aquela temática anos 80, no Esporte Clube Pinheiros, um reduto, inclusive, bem conservador. Havia uma banda de apoio e os cantores como eu, Lobão e o Roger.

Lá no camarim, estava toda aquela euforia, o Roger e o Lobão ficaram brincando comigo, tipo,”Pô, Nasi, é o mito, é o mito, vem pra cá”. E eu dando risada, uma risada meio nervosa mesmo, mas falando para os caras: “Vocês estão loucos? Esse cara não dá, velho. Não é possível”. 

E cada um foi no seu momento para o palco e cantou. Eu me lembro de ir caminhando pro palco e as pessoas do clube tentando tirar fotos com a gente e gritando “mito, mito, mito”.

Hoje  o próprio Lobão não só mudou de opinião, mas se arrependeu profundamente e é um dos maiores críticos do Bolsonaro. Eu sei que muita gente agora não aceita,  ele ficou numa situação bem delicada, porque agora ele é atacado pela esquerda e pela direita, mas é o Lobão e ele tem o direito de de ser essa metamorfose ambulante.

Onde os ritos religiosos africanos se encaixam na sua história?

Bom, o meu envolvimento com religiões de matriz africana vem desde a minha infância. Minha mãe recebia um preto velho. E disso eu parti pros estudos.

Eu sou iniciado profundamente no culto de Ifá,que é a matriz do que no Brasil se transformou em umbanda e candomblés. Isso há pouco mais de doze anos. Fico recolhido a cada dois anos no sul da Nigéria.

Eu acho que as religiões de matriz africana, em especial o culto e a filosofia de orixá, talvez sejam a contribuição mais importante na alma brasileira, na fé brasileira. A gente não gosta muito de falar que é uma religião, mas que é uma filosofia porque ela não discrimina, ela aceita o ser humano do jeito que ela é, por isso que você vê o grande número de LGBTs dentro do culto, ninguém trata a sua opção, sua orientação sexual como um problema. Muito pelo contrário.

Não tem a Bíblia, nenhum Papa, não tem um Alcorão e por isso as palavras tiveram sentido num contexto do passado. Por que que eu digo hoje? Porque se você for ler o Velho Testamento, existem passagens violentíssimas de um Deus irado, de um Deus vingativo, de um Deus que mandava matar, de um Deus até racista e que hoje são usadas por pastores neopentecostais de uma de uma maneira absurdamente imoral.

Valeu a pena a construção ou a desconstrução desse personagem “Nasi”? Qual doeu mais?

Primeiro eu gostaria de dizer que eu acho um horror essa cultura de reality shows. Já me chamaram pra um ou outro, não pestanejei um segundo pra dizer não. A maior parte, 80% por cento das pessoas desses programas não tem nada a dizer, são vazias, ocas. Isso pra mim, é perder a minha vida o meu tempo de vida pra viver a vida dos outros.

Agora, essa questão do documentário é uma coisa acho que foi importante. Foi construído realmente durante muito tempo.  As primeiras gravações foram quando o Ira estava separado, no auge da briga, em 2009. E os últimos momentos foram na volta triunfal agora em 2014. Foram momentos em que eles foram lá vendo evoluções minhas dentro da banda. Então, não doeu muito, saca? Não foi uma coisa dolorida.

Nasi com o parceiro Edgard Scandurra na volta do Ira

Com esse desgoverno e as consequências nefastas para a cultura, você prefere estar “Longe de Tudo” ou prevê grandes “Dias de Luta“?

Prevejo grandes dias de luta. Porque eu quero sempre mais, e nesse país tá difícil ver “flores em você”. Eu acho que a gente vive um momento terrível no país, em que a cultura está sendo destruída. Não só por esse governo, mas pelos tempos que vivemos. Tempos estranhos. A gente falou lá atrás sobre os reality shows.

Quando era garoto, imaginava que com uma banda de rock, eu transformaria o mundo. Eu acho que vários artistas fizeram isso, bandas que eu adoro, como Clash e Beatles. Agora eu vejo o lixo que ė a música popular hoje, as coisas que são mais comerciais, que tocam na tevê, isso reflete o mundo decadente, reacionário, em processo de perda de civilização que nós vivemos.

No caso do Brasil, um governo que destrói a saúde pública, destrói a natureza, aos olhos do mundo, promove  um morticínio em massa com com uma política estúpida e desumana. Para as eleições de 2022 está começando a se criar um ambiente nos moldes da invasão do capitólio nos Estados Unidos, com desfecho pior e mais sangrento.

Nós estamos, estamos vendo um processo de rápida deterioração. Por isso eu digo, citando mais uma música do Ira: “Pegue essa arma”. No bom sentido! E vamos nos preparar para dias de luta.

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