New York Times critica ataques dos EUA contra Venezuela: ‘ilegal e imprudente’

Atualizado em 3 de janeiro de 2026 às 17:54
Um homem segura uma faixa em frente à embaixada dos Estados Unidos em Londres que diz: ‘Tirem as mãos da Venezuela’ – Carlos Jasso – 3.jan.26/Reuters

Um editorial do The New York Times classificou como ilegal e imprudente o ataque ordenado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, contra a Venezuela, que resultou na captura de Nicolás Maduro. Para o jornal, a operação empurra Washington para uma crise internacional sem base legal válida ou justificativa consistente.

Segundo o texto, Trump vinha deslocando uma força militar expressiva para o Caribe nos últimos meses, incluindo porta-aviões, navios de guerra, aeronaves e cerca de 15 mil soldados. Inicialmente, essas forças foram usadas em ataques contra pequenas embarcações que o governo americano alegava estarem ligadas ao tráfico de drogas, ações que o jornal também considera ilegais.

O editorial ressalta que, embora Maduro seja amplamente criticado por práticas autoritárias, repressão política e violações de direitos humanos documentadas pela ONU, a tentativa de derrubar regimes pela força costuma agravar crises. O NYT cita os exemplos do Afeganistão, da Líbia e do Iraque como evidências de que intervenções militares frequentemente produzem instabilidade prolongada.

Para o jornal, Trump não apresentou explicação coerente para a ofensiva. A Constituição dos Estados Unidos exige autorização do Congresso para atos de guerra, o que não ocorreu. Sem esse aval, afirma o editorial, as ações do presidente violam a legislação americana.

Porta-aviões da Marinha dos Estados Unidos navega no Caribe em meio à mobilização militar americana relacionada à ofensiva contra a Venezuela.

A justificativa oficial de combate ao narcotráfico também é questionada. O texto afirma que a Venezuela não é um produtor relevante de fentanil e que grande parte da cocaína ligada ao país tem como destino a Europa, não os Estados Unidos. O jornal aponta ainda a contradição de Trump ter concedido perdão a um ex-presidente de Honduras condenado por envolvimento com o tráfico.

O editorial sugere que a motivação real esteja ligada à nova Estratégia de Segurança Nacional do governo Trump, que defende a aplicação reforçada da Doutrina Monroe para restaurar a preeminência americana na América Latina. Nesse contexto, a Venezuela teria se tornado o primeiro alvo de uma política descrita como imperialismo de nova roupagem.

Além das questões legais, o NYT argumenta que a ofensiva não atende aos interesses da segurança nacional dos EUA. O jornal alerta para o risco de escalada da violência interna na Venezuela, fortalecimento de grupos armados e aumento da instabilidade regional, com impactos nos mercados de energia e nos fluxos migratórios.

Por fim, o editorial afirma que a história recente demonstra os riscos da mudança de regime imposta militarmente. Para o NYT, o resultado mais provável da estratégia de Trump é mais sofrimento para os venezuelanos, maior instabilidade no hemisfério e danos duradouros à credibilidade e aos interesses internacionais dos Estados Unidos.