Neymar pode não ter estuprado, mas a exposição da mulher nas redes mostra o tipo de agressor que ele é. Por Nathalí

Neymar (Imagem: reprodução)

Me preocupa a pressa midiática em condenar o jogador Neymar em um caso que claramente ainda não foi resolvido a contento.

Enquanto os fatos se desdobram surpreendentemente para os dois lados, já apressadamente se fala em estupro e descredibilização da palavra da vítima.

Calma lá.

Problematizar é preciso. Desconsiderar os fatos, não.

E o fato, nesse caso, é que ainda não se sabe se houve estupro. Laudos médicos apontaram a existência de hematomas, mas isso não confirma nada: o que se deve apurar, a fim de saber se houve ou não um crime de estupro, é a existência de consentimento – e, quanto a isso, nada nos dá ainda uma certeza.

E antes dessa certeza, todo juízo de valor é raso.

Quanto à existência ou não de estupro, a verdade ainda não foi alcançada: há apenas uma dança de versões que mudam o tempo inteiro, dos dois lados, e a condenação precipitada da famigerada pós-verdade.

De um lado, gente se apressando em colocar Neymar no balaio dos estupradores antes do fim da investigação.  De outro, gente se apressando em colocar a vítima no balaio das marias-chuteiras aproveitadoras.

E os fatos? Quem os considera?

O único fato do qual se pode falar com certeza, neste momento, é que um jogador de futebol rico e poderoso expôs a intimidade de uma mulher no tribunal mais cruel que existe: o tribunal das redes sociais, do qual, neste caso, acusadora e acusado são vítimas ao mesmo tempo, em diferentes níveis, é claro.

Na tentativa de adiantar fatos que ainda não foram esclarecidos, temos esquecido que a exposição da vítima nas redes – isso sim, fato inconteste – tem sido tratada com menos seriedade do que deveria.

Crimes cibernéticos não são qualquer coisa. Para o ordenamento jurídico, não há crimes e quase-crimes. Há crimes. Ponto.

Expor a intimidade de alguém sem sua permissão – mais ainda a partir de uma posição como a de Neymar – é um crime. Um crime que ele cometeu diante do Brasil inteiro, a olhos vistos, sem nenhuma preocupação.

Parte-se da premissa de que tudo bem expôr alguém desde que supostamente para se defender de uma acusação injusta. Não está tudo bem. A exposição do corpo e da intimidade dessa mulher – uma exposição impiedosa, tratada pela mídia sensacionalista como um inocente ato de autodefesa – é uma violação grave, que parte da premissa de que nossos corpos estão disponíveis para serem expostos, e nada a justifica.

Independente do desenrolar dos fatos quanto ao estupro, o mais grave nisso é tratar o corpo dessa mulher como mero veículo de argumentação. Agir como se a exposição dessa intimidade fosse justificável para que se alcance a verdade dos fatos. Como se fosse admissível que, na tentativa de provar que não cometeu um crime, alguém cometa outro crime.

Acaso tratasse mulheres com respeito, Neymar saberia que expô-las não é admissível em nenhuma circunstância. Sua defesa precipitada só prova que, para ele, é OK usar o corpo de uma mulher como parte de uma narrativa de defesa.

Provado ou não o estupro, o corpo dessa mulher já foi violado – uma violação pública e incontroversa.

Tem-se acreditado que a pressa em julgar se houve ou não estupro – julgamento esse que só cabe à investigação policial – é um ato político contra a violência sexual, quando, o justo nesse momento é que nos concentremos no que já foi provado: uma mulher foi exposta e isso é grave o suficiente.

Não podemos condenar Neymar por estupro. Fazê-lo é trair a coerência e trair a verdade. Podemos – e devemos – em vez disso, condená-lo por revenge porn, e pela crença de que mulheres não gozam do direito à privacidade.

Na pressa dos julgamentos precipitados, temos ignorado o óbvio: com estupro ou sem estupro, Neymar é um agressor e não deve ser tratado como vítima.

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