Nicolelis sobre polilaminina: “Sem estudo clínico completo eu não acredito em nada”

Atualizado em 23 de fevereiro de 2026 às 19:27
Miguel Nicolelis

Miguel Nicolelis, um dos neurocientistas mais respeitados do mundo, falou ao DCMTV nesta segunda-feira (23) sobre a pesquisa a respeito da polilaminina, coordenada pela cientista Tatiana Sampaio, que pode reverter lesões graves na medula espinhal, condição que causa paraplegia ou tetraplegia.

Tatiana, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), virou notícia ao divulgar a descoberta da molécula, que se tornou esperança para reverter paralisias por lesão na medula. A revelação da bióloga é resultado de 30 anos de pesquisa e envolve uma versão recriada em laboratório da laminina, proteína produzida naturalmente pelo corpo e que ajuda os neurônios a se conectarem.

A cientista tem discutido os avanços e os desafios dessa nova fronteira da medicina após resultados promissores e autorização da Anvisa para testes clínicos. Fenômeno nas redes sociais, ela afirmou que “a verdadeira celebridade é a ciência. É a esperança. É cada vida transformada. Ser reconhecida dessa forma reforça que estamos no caminho certo, levando conhecimento, inovação e propósito além dos laboratórios, alcançando corações”.

Os testes clínicos estão em fase inicial, e a eficácia do tratamento depende da conclusão de todas as etapas exigidas pelos órgãos reguladores. A cientista afirma que a substância não deve ser vista como solução isolada, mas como parte de um conjunto de abordagens terapêuticas associadas à reabilitação.

“Sem estudo clínico eu não acredito em nada”, disse Nicolelis ao DCMTV. “Sem grupo-controle, sem fazer análise estatística com grandes grupos, sem injetar salina em um grupo e o tal do outro negócio no outro e ver no que dá… Eu estudo isso há 50 anos.”

“Lesão medular aguda tem uma taxa altíssima de recuperação espontânea, sem você fazer nada. Então você não pode dizer absolutamente nada sobre um tratamento sem fazer um estudo clínico completo. Eu não abro minha boca até ver os dados publicados de um estudo dessa maneira.”

Em 2019, Nicolelis publicou na revista “Scientific Reports” um estudo liderado por sua equipe que demonstrou avanços na reabilitação de pacientes com paraplegia crônica. A pesquisa mostrou que dois pacientes conseguiram caminhar com segurança sustentando cerca de 70% do próprio peso corporal, acumulando 4.580 passos ao longo de várias sessões de treinamento.

A cientista Tatiana Sampaio. Imagem: reprodução

A pesquisa integrou o Walk Again Project (Projeto Andar de Novo), consórcio internacional sem fins lucrativos dedicado à recuperação de pessoas com lesões medulares. Um dos pacientes tinha 40 anos e havia sofrido a lesão quatro anos e meio antes do experimento; o outro, de 32 anos, convivia com a lesão havia uma década. O trabalho de Nicolelis já havia ganhado projeção internacional em 2014, quando um jovem paraplégico utilizou tecnologia desenvolvida por sua equipe para dar um chute simbólico na bola na abertura da Copa do Mundo no Brasil.

Ao DCMTV, o neurocientista também comentou o financiamento público de pesquisas. “Quanto ao dinheiro para as universidades: é óbvio que o sistema universitário brasileiro precisa de investimento muito maior do que recebe, porque é um dos maiores do mundo e é a única fonte de produção de ciência de ponta do país. E, se nós não investimos nisso, vamos investir no quê?”, questionou.

“Se não investirmos na saúde pública, não investirmos na educação pública, nós vamos deixar o Brasil continuar sendo um fazendão, vendendo commodities. Então, é óbvio que esse é um investimento estratégico que precisa ser tratado como tal. Ele não é, infelizmente.”

“Ciência, educação e saúde pública deveriam ser parte de um plano estratégico nacional. Um plano de Estado, não um plano de governo. Mas isso é sonhar. Eu já tentei sonhar sobre o Brasil durante muito tempo. Neste instante, eu joguei a toalha, porque é muito difícil”, prosseguiu.

De acordo com Vitor Lima, consultor de assuntos médicos da indústria farmacêutica, a descoberta e o desenvolvimento da polilaminina são apontados como demonstração da importância e da qualidade das universidades brasileiras.

“Os resultados iniciais obtidos até o momento são considerados promissores, embora seja ressaltada a necessidade de que pesquisas mais robustas sejam conduzidas para que os achados preliminares possam ser devidamente validados”, disse.

A Academia Brasileira de Neurologia (ABN) divulgou nota afirmando que não há estudos publicados que comprovem a segurança e a eficácia da polilaminina no tratamento de lesão medular em humanos. A entidade, que reúne mais de 5 mil neurologistas no país, destacou que qualquer nova terapia precisa cumprir etapas formais de pesquisa clínica, passando pelas fases 1, 2 e 3, antes de ser liberada para prescrição médica.

A ABN ressaltou que o uso de tratamentos experimentais deve ocorrer exclusivamente dentro de ensaios clínicos conduzidos com rigor metodológico e aprovados por comitês de ética, conforme as normas vigentes no Brasil.

Thiago Suman
Jornalista com atuação em rádio, TV, impresso e online. É correspondente do Daily Mail, da Inglaterra, apresentador do DCMTV e professor de filosofia e sociologia, além de roteirista de cinema e compositor musical premiado em festivais no Brasil e no mundo