Nikolas Ferreira, Ana Paula Renault e o confronto que o BBB não esperava. Por Nathalí

Atualizado em 17 de janeiro de 2026 às 11:42
Ana Paula Renault e Nikolas Ferreira. Foto: reprodução

O BBB 2026 começou e declaramos aberta a temporada do “não sei, não assisto BBB” — com textos críticos sobre o reality show, daqueles que você ama ou odeia.

Pois bem: hoje, a “crítica social lacradora” olha para Ana Paula Renault, veterana do jogo, eliminada em sua primeira participação no programa, em 2016, mas ainda assim uma personagem icônica, é mais lembrada do que muitos dos vencedores.

Eu, viciada em BBB desde criança — ok, pode me cancelar — lembro perfeitamente da primeira eliminação dela e do quanto a considerei injusta. Naquela mesma edição, um estuprador (posteriormente condenado) confessou em rede nacional que oferecia álcool a menores de idade para facilitar o que ele não chamava de estupro, mas nós e a Justiça brasileira, sim. Foi confrontado por ela. E quem saiu do programa foi ela.

O nome da alma sebosa é Laércio, condenado a 12 anos de prisão por estupro de vulnerável e armazenamento de material pornográfico envolvendo crianças e adolescentes.

Imagine: há apenas dez anos, um homem confessava na televisão que cometia crimes contra menores, e a mulher que o denunciava era tratada como histérica, exagerada, problemática. O pior é saber que essa inversão moral continua perigosamente possível.

Quer dizer: a diva jamais se calou.

Voltou a viralizar, inclusive, o vídeo que ela gravou do deputado Nikolas Ferreira, confrontando-o dentro de um avião.

“Nikolas, eu te indaguei se você vai continuar cometendo crimes no plenário”, disse ela, referindo-se aos ataques transfóbicos do deputado mega decoroso, conhecido também por performar com peruca loira no plenário.

O medíocre, como era previsível, fez questão de lembrar que ela era “ex-BBB” (e também cidadã, até onde eu sei). Ao que ela respondeu, com precisão:
“Eu não estou falando do BBB, estou falando da sua quebra de decoro parlamentar.”
E completou:
“Você expôs uma menina de 14 anos!”, referindo-se à adolescente trans exposta nas redes sociais do agora réu.

Hablou, né?

Não por acaso, Ana Paula já virou alvo de hate da extrema direita — o que, convenhamos, funciona quase como um certificado informal de coerência.

Uma mulher que denuncia e confronta, sobretudo se for progressista, é prato cheio para a perseguição de bolsonarista red pill que tem verdadeira obsessão em calar mulheres.

Em se tratando de Ana Paula Renault, creio eu: não vai ser assim tão fácil.

Ela foi injustiçada na primeira edição por confrontar um estuprador. Agora, tentam construir novamente um cenário de hostilidade em torno dela, seja por seu posicionamento político, seja por ter ousado questionar o intocável Nikolas Ferreira.

Um dos participantes do reality chegou a perguntar seu posicionamento político. Ela respondeu:
“Não vai colher maduro aqui, porque eu não suporto malandro.”

Toma, distraído.

Dez anos depois de uma mulher ser punida por dizer em voz alta aquilo que a Justiça confirmaria mais tarde, o Brasil tem a chance simbólica de fazer diferente: apoiar uma jogadora necessária, que não negocia silêncio, que não suaviza a violência, que não se intimida diante de homens protegidos por cargos, seguidores ou narrativas convenientes. Ana Paula não é só entretenimento; ela é incômodo político em forma de presença.

Parece que temos uma favorita.

Nathalí Macedo
Nathalí Macedo, escritora baiana com 15 anos de experiência e 3 livros publicados: As mulheres que possuo (2014), Ser adulta e outras banalidades (2017) e A tragédia política como entretenimento (2023). Doutora em crítica cultural. Escreve, pinta e borda.