Ninguém acreditou tanto em mim

Nightawks, de Hopper

Enfim te vejo. Enfim repousa em ti o meu olhar cansado. Esses versos de Bandeira me ocorrem quando entro na velha cidade em que vivi alguns verões na adolescência. Rodo em meu carro pelas ruas em que caminhei garoto. Não fui eu que levei o carro. Foi o carro que me levou. Alguns lugares marcam a vida de um homem por diversas razões. Aquela cidade selou minha passagem para a vida adulta. Ali terminou a minha era da inocência. Foi nela que as mulheres passaram a despertar um interesse bem mais concreto e menos platônico em mim. Lembro uma visita, a primeira em minha vida, ao que nós meninos chamávamos afetuosamente de zona.

Na minha lembrança a cidade estava sempre ensolarada. E assim sempre será. Paro em frente da casa dos meus tios, onde ficava hospedado. É numa esquina de um bairro de classe média. Nenhuma das pessoas que tanto amei está lá, mas ainda assim fico tocado. Olho para a casa com uma espécie de desespero mudo como se por um milagre aquele mundo perdido pudesse se refazer. Primeiro morreu meu tio, depois minha tia. Outra tia, agregada, uma solteirona adoravelmente rabugenta, também morreu. Meus dois primos deixaram a cidade, cada qual para um canto. Mas de alguma forma naquela casa de esquina a família desfeita está viva e unida. O piano em redor do qual todos se juntavam ainda toca.

Naquela casa tive uma sublime lição de fé. Eu tinha tomado um porre, o primeiro de minha vida. Tinha 16 anos, a noite quente convidava um garoto virgem de álcool a tomar um copo de batida, e depois outro, e mais outro. Convidava, não: ordenava. Ao deitar, no quarto imaculado da casa de minha tia, o mundo girou alucinadamente. Não havia nada que eu pudesse fazer senão vomitar. Foi um tumulto num lar sereno. Aleguei depois que tinha me dado mal com alguns amendoins. Meu tio comentou com minha tia, longe de mim, mas não o suficiente para que eu não ouvisse: “Isso tem cheiro de cachaça.” Meu tio conhecia o assunto.

Somente a tia solteirona acreditou. Durante anos, depois, sempre que me via esticar a mão para um amendoim, ela me lembrava de que não me fazia bem. Minha tia solteirona. Minha amada tia solteirona. A gente coleciona coadjuvantes ao longo da vida. São raros os protagonistas. Minha amada tia solteirona foi protagonista em minha vida. Foi ela que me ensinou a jogar baralho, uma virtude que cultivo desde então. Primeiro o buraco, logo e sempre o pôquer.

Mas ela me ensinou sobretudo o significado da fé. A fé só é fé mesmo quando é cega e desafia a lógica. Ela acreditou no sobrinho bêbado a despeito do cheiro de cachaça facilmente identificado por meu tio. Minha amada tia rabugenta. Estou ali, na frente da casa, tantos anos depois. E me ocorre que poucas vezes em toda a minha vida alguém acreditou tanto em mim como ela, a amada tia solteirona. Se eu pudesse recompor aquele mundo perdido, acho que a primeira coisa que faria seria pedir colo a ela. Eu mesmo não acreditei em mim como ela. Minha amada tia solteirona apostou em mim por amor. Simplesmente por amor.

Tia Tetê, eis o nome, para mim tão poético quanto os versos de Bandeira.