Nísia Trindade será a ciência no Congresso; negacionismo de Nise Yamagushi foi barrado

Atualizado em 2 de novembro de 2026 às 8:25
Nísia trindade, ex-ministra da Saúde. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

O Rio de Janeiro elegeu Nísia Trindade (PT) deputada federal, a bem da saúde, da ciência, da pesquisa. A bem do SUS. A sanitarista da Fiocruz incorporou a defesa das evidências científicas durante a pandemia contra o negacionismo bolaonarista. Com a eleição de Lula em 2022, foi convidada para comandar o Ministério da Saúde, tornando-se a primeira mulher a assumir a pasta na História do Brasil. Sua gestão priorizou a reconstrução do Programa Nacional de Imunizações, parcialmente destruído por Jair Bolsonaro, o fortalecimento da atenção básica e a recuperação da estrutura do Sistema Único de Saúde. Foi defenestrada por ser osso duro de roer na liberação de emendas parlamentares. É uma grande brasileira.

Sim, a composição do Congresso Nacional a partir de janeiro de 2027 é perturbadora. Lá predominará, ao menos numericamente, a face reacionária da sociedade brasileira. A eleição de Nísia Trindade constitui uma lufada de bom senso, assim como a não-eleição de Nise Yamagushi (PL) por São Paulo. São antípodas.

O Pai da Medicina ficaria estarrecido com o comportamento de Yamagushi, que, em vez de proferir o Juramento de Hipócrates, deveria jurar-se hipócrita. Bolsonarista empedernida e negacionista de evidências sanitárias, atuou para dar um falso lustro científico às mentiras criminosas do presidente da República durante a pandemia. A CPI da Covid, cujo relatório foi engavetado pelo pusilânime procurador-geral Augusto Aras, indiciou-a por epidemia com resultado de morte, infrações contra medidas sanitárias preventivas e participação na disseminação de tratamento precoce sem comprovação científica.

Nise Yamaguchi foi uma das vozes mais estridentes a defender o uso de hidroxicloroquina e outros medicamentos sem eficácia comprovada contra a Covid-19, posição que sustentou mesmo após estudos internacionais descartarem o benefício clínico dos mesmos. A médica, que posteriormente seria demitida do Hospital Albert Einstein, também questionou a necessidade de vacinação em massa e medidas rígidas de distanciamento social. Integrou o chamado “gabinete paralelo” de aconselhamento do Ministério da Saúde, suprassumo da negação da ciência.

A bolsonarista Nise Yamaguchi. Foto: reprodução

Embora tenha sido amplamente criticada por entidades de especialidades médicas, como as Sociedades de Infectologia e Imunologia, e por universidades públicas por disseminar desinformação, ela não teve o seu registro profissional cassado. O Conselho Federal de Medicina manteve, na época, uma postura de defesa da “autonomia do médico” para prescrever tratamentos.

Nise Yamaguchi manteve o apoio de um nicho específico de profissionais de saúde e de grupos políticos conservadores ligados ao bolsonarismo. Contudo, nos ambientes de produção científica formal, congressos médicos de grande porte e instituições acadêmicas de ponta, suas teses sobre a pandemia foram completamente descartadas, e sua reputação como pesquisadora foi soterrada pela verdade. Sua ausência no Parlamento deve ser comemorada.

A ciência que ganha com a presença de Nísia Trindade e a ausência de Nise Yamagushi no Parlamento, perde com a ausência de Ricardo Galvão (Rede), que não se elegeu deputado federal. O cientista engrandeceria a Câmara, como o fez quando cumpriu mandato, alçado da suplência, em 2025 e 2026.

Galvão personificou a abnegação e a coragem da ciência brasileira ao confrontar o então presidente Jair Bolsonaro, quando estava à frente do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, o Inpe. Bolsonaro contestou publicamente os dados oficiais do sistema Deter, que apontavam um crescimento alarmante no desmatamento da Amazônia. Em resposta, Galvão defendeu vigorosamente o rigor científico e a integridade da instituição, rebatendo as acusações de que os números seriam “mentirosos” ou estariam a serviço de ONGs estrangeiras.

Por manter postura firme e se recusar a adulterar ou omitir os dados, Galvão foi exonerado do cargo por Bolsonaro. O episódio o transformou globalmente em um símbolo da resistência científica contra o negacionismo climático. No mesmo ano, a prestigiada revista científica britânica Nature o elegeu como uma das dez pessoas mais importantes do mundo para a ciência. Faria uma boa dobradinha com Nísia Trindade no Parlamento.

Paulo Henrique Arantes
Jornalista há quase quatro décadas, é autor do livro "O que a Vida quer é Memória - O Brasil de Lula no Mundo de Trump” (Editora Autografia). Editor da newsletter "Noticiário Comentado" (paulohenriquearantes.substack.com).