No Brasil de Fogaças e Bolsonaros não cabem Paollas. Por Nathalí Macedo

Paola Carosella e Henrique Fogaça. Foto: Divulgação/Band

O ano é 2021 e teorias conspiratórias sobre a COVID 19 não apenas ainda circulam livremente nas redes, como são endossadas e disseminadas por gente que influencia outros milhares – talvez milhões – de pessoas.

O chef de cozinha e cantor brasileiro Henrique Fogaça – jurado do MasterChef Brasil (saudades, Paolla) – questionou a pandemia em um vídeo em suas redes sociais.

“Quando começou [a doença] o que vocês acham? Que foi acidental? Que eles foram perceber depois de um tempo só que havia um milhão de pessoas rodando o mundo e a doença já se instalando e rondando. Ou você acha que foi proposital? Para simplesmente dominar o mercado econômico do mundo, começando pelos Estados Unidos e automaticamente refletindo para todo o mundo.”

Parece a sua tia-avó divorciada e viciada em rivotril, que acredita que o PT é um braço as FARC e que a CORONAVAC transformará as pessoas em jacarés, mas é só um tiozão hardcore metido a descolado que claramente (assim como a sua tia) não faz ideia do que está falando.

É impossível não se perguntar: de onde surgem as narrativas esdrúxulas de conspiração que somos obrigados a ler na internet – afinal, isso ainda é melhor do que ser cego?

Mamadeira de piroca, Frozen lésbica, marxismo cultural, plano chinês de dominação global, coronavírus é arma biológica, Jean Wyllys apoia a pedofilia e quer modificar a bíblia: a cada ano que passa, as Fake News são mais inacreditáveis, mas continuam sendo creditadas por gente como a sua tia-avó e o Fogaça.

Ao ser criticado pelos internautas – mas que outro resultado isso poderia ter? – o chef hardcore conspiracionista surtou: xingou os próprios seguidores de “troxa”, “vaca”, “burra”, “anta” e “feia”, sem esquecer, é claro, de chamar um dos críticos pra meia hora de porrada.

“Fala vaca… quer grama… tem um monte aí…” “Feia que nem o cão… deus é mais…”Fala troxa cego..” “Votei nulo, troxa…” foram algumas das respostas que Fogaça escreveu publicamente.

Um aluno de quinta-série certamente teria dado respostas mais maduras, ou quem sabe – ao menos se tiver sido agraciado com uma educação libertadora – sequer usaria a internet pra disseminar Fake News.

Enquanto isso, Paolla Cosarella – talvez o último fio de sensatez no time de jurados no Master Chef – anuncia que não será mais integrante do elenco de jurados do programa, por escolha própria, para dedicar-se aos próprios negócios.

A emissora, como todos nós, lamenta: o abismo entre Paollas e Fogaças é mais do que óbvio. De um lado a sensatez, de outro o absurdo; de um lado o pensamento coletivo, de outro o egoísmo instaurado; a lucidez de Paolla reinando sobre a estupidez de Fogaça e suas teorias conspiracionistas, ofensas infantis e injúrias preconceituosas.

As ofensas foram, aliás, apagadas, mas os prints não mentem. Talvez o Chef não esteja bem-informado sobre a geração do cancelamento: não adianta fazer merda e depois xingar os seguidores de feios e trouxas, sobretudo se você for uma pessoa pública – tá aí o Constantino que não nos deixa mentir e a própria Paolla, coitada, cancelada por muito menos quando defendeu que nuggets produzidos em impressoras 3d não são comida (é pecado defender o óbvio?).

Disseminar fake news é crime, e ser execrado pelos seguidores é a menor das consequências: o processo judicial vem.

Aliás, de processo judicial Fogaça entende: ele é pai de Olívia, portadora de uma síndrome rara em que ela não anda, não fala e se alimenta por sonda (o chef chegou a afirmar que os médicos não chegaram a um diagnóstico conclusivo sobre a menina). Em 2014, ele moveu ação judicial contra um internauta que ofendeu Olívia por conta de um episódio do MasterChef. 

Foi-se o tempo em que internet era terra sem lei: ofendeu, pagou.

Cancelamento, indenizações, linchamento virtual – você precisa estar disposto a encarar muitas coisas se quiser falar o que pensa sem filtros nas redes, como Fogaça bem mostrou ao internauta que ofendeu sua filha, mas parece ter esquecido ao ofender pessoas online e apagar em seguida como se ninguém tivesse visto.

Ofensa no dos outros é refresco.

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