No caso do Jacaré Banguela, o que espanta é ver empresas em parceria com o humor racista. Por Marcos Sacramento

O post racista do youtuber Jacaré Banguela

Em menos de um mês, mais um humorista é traído pelos próprios princípios e dispara um post racista. O sem-graça da vez é Rodrigo Fernandes, que assim como Júlio Cocielo, autor do outro comentário nojento, só fui conhecer após o episódio de hoje, no qual ele fez um comentário preconceituoso a respeito do ator Jaden Smith.

Fernandes comparou o rapaz, que posava em uma foto ao lado do pai Will Smith, a um flanelinha. “Tenho quase certeza que o filho do Will Smith me pediu dinheiro ontem na esquina da rua Haddock Lobo dizendo que tava olhando meu carro”, escreveu no Twitter.

Diante da repercussão negativa, Fernandes deletou o post. Mas nem o comentário de um amigo negro lembrando que a mensagem reforçava a “associação da imagem do preto como pária e influencia um conjunto de violências”, foi capaz convencê-lo de que estava errado.

“Bem, o que eu fiz tá feito e apagado. Agora o julgamento é com vocês. Discordo de algumas opiniões, mas o espaço está aberto e o debate sempre será livre”, escreveu o humorista após o post canalha.

Como no caso do Cocielo, logo surgiram prints antigos de Fernandes, um mais racista que o outro. “Piadinhas” como a que transcrevo abaixo:

“Prefiro ser negro do que estudar para o ENEM, as chances de eu entrar pra uma faculdade são maiores”.

Embora o fato seja revoltante, não causa espanto a quem tem noções mínimas da realidade. Fernandes, assim como Cocielo, só teve o azar de jogar no Twitter o que ele falaria em uma roda de amigos. O que assombra é o potencial comercial dos dois engraçadinhos, que têm ao redor empresas dispostas lucrar às custas da audiência proporcionada pelo humor mais mequetrefe.

Criador do blog Jacaré Banguela, Fernandes afirmou faturar cerca de 30 mil reais por mês, conforme disse em 2015 à rádio Jovem Pan. Acumula 530 mil seguidores no Twitter, mais de 900 mil no Facebook, 122 mil no Instagram e 538 mil inscritos no canal do Youtube.

São números inversamente proporcionais à coragem de Fernandes, incapaz de manter no ar o comentário que escreveu. Um desses números dá a dimensão das cifras que circulam em torno do humorista: a venda da Amazing Pixel, dona do Jacaré Banguela, para a empresa Snack ficou em torno de 12 milhões de reais, segundo matéria do Meio & Mensagem.

Só resta esperar o desenrolar do caso para ver se as empresas tomarão alguma medida semelhante à dos parceiros comerciais de Cocielo, que cancelaram os contratos após o episódio racista.

Seguidores ele está perdendo, como constatou nesta tarde a Coluna do Fraga, do R7. Só os próximos dias responderão se a pancada financeira será forte ou não. Caso tenha prejuízo, Rodrigo Fernandes poderá, pelo menos, tirar onda dos talentos premonitórios.

Isso porque a apresentação do primeiro episódio de uma websérie escrita traz o seguinte texto:

“Rodrigo é uma webcelebridade muito famosa há mais de 10 anos e descobre da maneira mais dolorida que os tempos estão mudando”.

Pode saber, Rodrigo, que há muita gente empenhada em fazer sua profecia se concretizar.

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