No Dia dos Namorados, Estadão vira piada com declaração de amor a Temer, culpando os brasileiros pela impopularidade dele

Fernão Mesquita, herdeiro do Estadão, mostra sua lucidez e sua finesse

No Dia dos Namorados, o Estadão publicou um editorial declarando seu amor a Michel Temer que virou piada imediata.

Em resumo, a popularidade nula (3% no Datafolha está na margem de erro) de Michel, uma das últimas fontes garantidas de recursos do jornal graças à publicidade oficial, é fruto do “mau humor” da patuleia.

Reproduzimos os trechos menos constrangedores:

Não há nada pior para a democracia do que um estado permanente de desconfiança. Quando os cidadãos vão muito além do saudável ceticismo em relação ao poder e, de maneira irrefletida, passam a não acreditar mais nas instituições nem nos pactos constitucionais, tem-se uma situação em que tudo o que emana das estruturas que regulam a vida social, política e econômica do País torna-se objeto de descrença, quando não de hostilidade.

Em situações desse tipo, a realidade é sumariamente ignorada, muitas vezes de forma deliberada, prevalecendo uma percepção distorcida e confusa sobre a conjuntura nacional, reforçada por um tremendo mau humor em relação ao establishment político e econômico. A versão segundo a qual nada que venha do governo, do Congresso ou da Justiça tem valor começa perigosamente a se impor. 

Tome-se o exemplo das recentes pesquisas de opinião que qualificam Michel Temer como o mais impopular presidente da história do País e expressam profundo pessimismo a respeito da economia. Em nenhum dos dois casos a percepção se sustenta nos fatos. Por nenhum parâmetro racional se pode considerar o presidente Temer pior, por exemplo, do que sua antecessora, Dilma Rousseff, que praticamente arruinou a economia nacional e foi defenestrada da Presidência, entre outras razões, por ser incapaz de se relacionar com o Congresso.

Temer, ao contrário, restabeleceu o diálogo com deputados e senadores e, a partir dessa base, essencialmente democrática, criou as condições necessárias para reorganizar as contas públicas e encaminhar uma importante agenda de reformas. Tudo isso, aliado à escolha de uma competente equipe econômica, controlou a inflação, que sob Dilma havia desembestado, tirou o País da recessão e devolveu ao setor produtivo a capacidade de crescer e gerar empregos. (…)

Junta-se a isso a impressão, igualmente sem respaldo na realidade, de que a situação econômica do País está muito pior agora – na pesquisa do Datafolha, 72% dos entrevistados deram essa opinião, 20 pontos porcentuais acima do verificado em abril. Nenhum dado do cotidiano econômico dos brasileiros apresentou, nesse intervalo, deterioração que justificasse tamanho aumento de ceticismo. (…)

É possível que esses eleitores sejam tão ou mais céticos do que aqueles que declaram voto nos inimigos da democracia; mas também é plausível que eles estejam apenas esperando que algum candidato consiga convencê-los de que, a despeito das aparências, é possível resolver os imensos problemas nacionais por meio do diálogo político – e dentro das regras da democracia.