No Dia Nacional da Saúde, tributo a Oswaldo Cruz, cientista que enfrentou a ignorância do século passado

Oswaldo Cruz (Reprodução: Fiocruz)

PUBLICADO NO BRASIL DE FATO

POR CAROLINE OLIVEIRA

No dia 5 de agosto se comemora o Dia Nacional da Saúde em referência à data de nascimento de Oswaldo Cruz. A escolha não é à toa: a contribuição do médico sanitarista alcança a pesquisa e o desenvolvimento científicos como ferramentas para o cuidado da população, principalmente quando o assunto são as vacinas.

Na década de 1910, dentro do Instituto Soroterápico Federal Cruz – a atual Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) –, fundado por ele em 1900, o médico passa a implementar um modelo francês de produção de soros e vacinas.

Os produtos desenvolvidos pela equipe de Oswaldo Cruz levaram, à época, à erradicação de doenças, como a varíola, no Rio de Janeiro, e à diminuição de surtos, como de malária e febre amarela.

Ao mesmo tempo em que tinha a preocupação com a vacinação da população e a erradicação de doenças, Oswaldo Cruz também se preocupava em formar novos e bons cientistas para o futuro. Por isso, o Instituto que já desenvolvia e produzia vacinas, realizava pesquisas científicas de peso, também passa a ter atividades de ensino.

Segundo Ana Luce Girão, historiadora e pesquisadora da Casa de Oswaldo Cruz e da Fiocruz, o médico também tinha a preocupação de construir redes de médicos e pesquisadoras em prol do desenvolvimento científico no Brasil, a partir da troca de informações. Exemplo disso foi a descoberta de como combater a febre amarela, após troca de informações com médicos cubanos.

Girão explica que, como pouco se sabia sobre a doença na época, discutia-se a possibilidade de transmissão por meio da atmosfera. Foi quando Oswaldo Cruz tomou conhecimento da experiência cubana e acabou com os surtos da doença combatendo os focos de mosquitos.

Intercâmbio entre cientistas. Na foto, Carlos Chagas, que sucedeu a Oswaldo Cruz na direção do Instituto após sua morte, e outros pesquisadores recebem a visita de Albert Einstein, em 1925. / Casa de Oswaldo Cruz

Intercâmbio entre cientistas. Na foto, Carlos Chagas, que sucedeu a Oswaldo Cruz na direção do Instituto após sua morte, e outros pesquisadores recebem a visita de Albert Einstein, em 1925. / Casa de Oswaldo Cruz

Conhecer as necessidades da população

Além de suas preocupações com desenvolvimento científico, Oswaldo Cruz empenhava-se em conhecer as condições de saúde da população brasileira para poder elaborar políticas que atendessem a população na totalidade de seus problemas.

“Isso vem a partir de Oswaldo cruz, mas isso é reproduzido pelas gerações seguintes. A partir de um posicionamento do que é a importância da ciência, da pesquisa e do conhecimento dos problemas de saúde da sociedade brasileira, é possível redirecionar as pesquisas. Acho que essa é a grande obra de pensar a ciência”, afirma a pesquisadora.

Nesse sentido, é possível dizer que o Sistema Único de Saúde (SUS) também nasce dessa ideia: da necessidade de atender a população como um todo. “Não significa só a assistência médica, mas também a oferta de vacina, produção de medicamentos, Atenção Primária à Saúde.”

Movimento anticiência

Hoje, o legado de Oswaldo Cruz para ciência e saúde pública se fazem mais importantes diante do discurso anticiência difundido por integrantes e apoiadores do governo de Jair Bolsonaro e da pandemia de covid-19, defende Ana Luce Girão. “Tem, por um lado, uma série de cientistas trabalhando em rede para que se possa, o mais rápido possível uma vacina. Por outro lado, uma influência política que nega a importância da ciência”, afirma a pesquisadora.

Ela também destaca, com preocupação, o movimento contra vacinação que levou o Brasil a ter novamente casos de doenças como o sarampo e poliomielite, que já haviam sido erradicadas. “Voltou a ser um problema sanitário no Brasil justamente por causa desses grupos contra a vacina. O sarampo, que já era um problema resolvido, volta a acontecer no País”, lamenta Girão. “É um absurdo voltar a se preocupar com essas doenças de novo.”

Oswaldo Cruz ao lado de seu filho Bento e Burle de Figueiredo, em 1910 / Casa de Oswaldo Cruz

Biografia

Oswaldo Cruz nasceu em São Luís do Paraitinga, no interior de São Paulo. Formado pela Faculdade de Medicina do Rio de janeiro em 1892, seu interesse por microbiologia o levou a estudar o assunto, além de soroterapia e imunologia no Instituto Pasteur, em Paris, por dois anos. De volta ao Brasil, Cruz assumiu a direção técnica do Instituto Soroterápico Federal e depois chegou ao comando da Diretoria-Geral de Saúde Pública (DGSP), em 1903.

Nesta posição, os desafios começaram a se avolumar. O médico sanitarista teve que realizar uma campanha de combate às doenças da época, como febre amarela, peste bubônica e varíola.

Muitos brasileiros se lembram de Oswaldo Cruz por sua posição central na Revolta da Vacina, em novembro de 1904, no Rio de Janeiro. O cenário era de agravamento dos surtos de varíola, o que levou Cruz a tentar promover a vacinação em massa da população. Resultado: rebeliões populares estouraram e a obrigatoriedade da vacina foi suspensa. Quatro anos depois, com uma epidemia de varíola, a população procurou os postos de vacinação.

Além da vacinação, Cruz também adotou métodos como o isolamento de doentes, notificação compulsória de casos positivos, extermínio de mosquitos e ratos e desinfecção de áreas de focos. Em poucos meses à frente do DGSP, a incidência de peste bubônica diminuiu expressivamente.

Código Sanitário

Depois dos problemas enfrentados com as doenças da época, Oswaldo Cruz realizou uma expedição ao redor do mundo para estabelecer um código sanitário baseado em regras internacionais. Ele também reestruturou todos os órgãos de saúde e higiene do País e, em 1910, ajudou a combater a malária. O reconhecimento de todo o seu trabalho veio em 1907, quando recebeu a medalha de ouro no 14º Congresso Internacional de Higiene e Demografia de Berlim, na Alemanha.

Quando voltou ao Brasil, foi recebido como herói e o Instituto Soroterápico Federal passou a se chamar Instituto Oswaldo Cruz (IOC), para o qual o médico passou a se dedicar, deixando o comando da Diretoria-Geral de Saúde Pública. Anos depois, em 1913, foi eleito para a Academia Brasileira de Letras. Após dois anos, deixou o IOC por motivos de saúde e mudou-se para Petrópolis. Morreu em 1917, com somente 44 anos de idade em decorrência de complicações de insuficiência renal.

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