No hospital, Raoni diz ao neto: “quero melhorar para continuar lutando pelos povos indígenas e pela floresta Amazônica”

Cacique Raoni Metuktire durante um fórum, em Nova York, no dia 22 de setembro de 2019 — Foto: John Lamparski/AFP

PUBLICADO NO AMAZÔNIA REAL

POR MARCIO CAMILO

Um dos maiores líderes indígenas do mundo, o chefe Raoni Metuktire, de 90 anos, do povo Kayapo, está internado no hospital particular Dois Pinheiros, no município de Sinop, ao norte do Mato Grosso, em tratamento de uma hemorragia digestiva. Na manhã deste domingo (19), o boletim médico do hospital informou que Raoni foi submetido a uma transfusão de sangue para estabilizar hemorragia. O quadro de saúde dele é estável.

Em entrevista por telefone à agência Amazônia Real, o sobrinho-neto de Raoni, Patxon Metuktire, disse “que o líder indígena quer ficar forte novamente”.

Paxton é acompanhante de Raoni no hospital. Ele disse que o avô está motivado e sua vontade é continuar com o trabalho de defesa dos direitos indígenas e ambientais. “Ele disse: ‘quero melhorar para continuar lutando pelos povos indígenas e pela floresta Amazônica’,” contou o neto.

Patxon Metuktire explicou como o avô ficou doente. Segundo ele, inicialmente, a família suspeitou que Raoni estaria com depressão por causa da morte por infarto de sua esposa Bekwykà Metuktire, no último dia 23 de junho. No mesmo mês, o chefe perdeu o amigo de infância e companheiro de luta, Paulinho Paiakan, outra liderança histórica do povo Kayapo, que morreu em decorrência da Covid-19.

“Realmente ele ficou muito triste com a morte da vovó, mas nesse mesmo período ele começou a ter uma diarreia com sangue. E os pajés que estavam cuidando dele recomendaram para ele que não comesse carne, por exemplo. Na nossa cultura, quando estamos enfermos, acreditamos que os espíritos das coisas que comemos podem nos fazer mal. Desde então, ele [Raoni] parou de comer peixe, como o pintado e o tucunaré”, explicou Patxon.

Raoni Metuktire começou a apresentar sintomas de desidratação há oito dias e foi transferido de sua aldeia Piaruçu, no Território Indígena Capoto-Jarina, em Mato Grosso, para um hospital do município de Colíder (MT), no último dia 16 (quinta-feira). “Em função de sua idade, seu estado de saúde inspira cuidados e, até o presente momento, não foi possível determinar a causa que resultou em severa anemia”, informou o Instituto Raoni.

Com o quadro agravado pelos sintomas gastrointestinais – falta de apetite, náusea, vômito e diarreia -, além de apresentar fraqueza, Raoni foi submetido ao teste para Covid-19 e resultado foi negativo. Neste sábado (18), ele foi transferido de avião para o hospital do município de Sinop, também no Mato Grosso, que possui estrutura melhor.

O que diz o médico

Cacique Raoni Metuktire durante visita ao Senado Federal, em Brasília
(Foto: Geraldo Magela/Agência Senado)

No primeiro boletim divulgado já no dia 18 pelo hospital Dois Pinheiros, o médico Douglas Yanai, um dos diretores da unidade particular, disse que Raoni “apresentava pressão baixa, setenta por quarenta e depois de uma hora recebendo cuidados apresentou sinais de melhora com a pressão arterial chegando a cento e dez por setenta e melhora do quadro geral”.

O médico explicou, em nota, os procedimentos realizados no chefe Kayapó. “Nós fizemos uma reposição hidroeletrolítica associada a mais alguns cuidados e isso ajudou a trazer um pouco mais de conforto ao paciente. Suspeitamos de uma úlcera gástrica. Aparentemente, sofreu algum sangramento, mas só vamos ter certeza depois de exames que devem ser feitos a partir de amanhã [neste domingo]”, disse Yanai.

Neste domingo (19), em nova nota do hospital, o médico Douglas Yani disse que o cacique foi submetido a transfusão de sangue. “Aparentemente ele tem úlcera. Precisamos saber mais sobre o funcionamento de outros órgãos também, uma vez que ele apresentou sangramento. Essa evidência foi encontrada nas fezes. É algo que foi estabilizado com uma transfusão de sangue, contudo merece atenção para que não aconteça novamente”.

Douglas Yani explicou que que a pressão arterial de Raoni ficou alterada, mas logo se estabilizou. “Ele se levantou para ir ao banheiro, foi rápido demais e isso pode ter influenciado a alteração na pressão arterial, algo que impacta em uma pessoa doente e na idade dele, em especial. Mas nada que comprometa. Já está melhor e aguardamos a confirmação dessa melhora para seguir com os procedimentos”.

Um líder mundial

Cacique Raoni durante o Encontro Mebengokrê no Xingu em janeiro de 2020
(Foto: Mídia Ninja)

Raoni Metuktire nasceu por volta de 1930 e teve seu primeiro contato com o mundo ocidental em 1954. Ele ganhou destaque internacional nos anos 1980, como líder da campanha global “Save de Rainforest” ao lado do músico britânico Sting pela demarcação do território Kayapo, mas sua luta pela proteção de sua terra remonta desde a década de 50. Junto com Sting, Raoni visitou 17 países de abril a junho de 1989.

“A campanha de sucesso deu-lhe a oportunidade de aumentar a consciência em todo o mundo sobre o desmatamento. Foram criadas doze fundações florestas tropicais para angariar fundos para a criação de uma reserva que protege a Bacia do Rio Xingu Superior e Médio, nos estados Brasileiros Pará e Mato Grosso”, diz o comunicado do Instituto Raoni. A mobilização de Raoni teve uma segunda luta, desta vez contra a hidrelétrica de Belo Monte, que impactaria o rio Xingu.

No novo século, Raoni nunca deixou de participar de mobilizações, ficando apenas menos visibilizado. Mas nos últimos anos, ele voltou a ficar em evidência com seu retorno em viagens internacionais pedindo apoio de autoridades e artistas à proteção dos povos indígenas.

Em agosto de 2020, o líder foi indicado ao prêmio Nobel da Paz pela Fundação Darcy Ribeiro (Fundar), por sua luta histórica pela preservação da Amazônia. A candidatura foi formalizada junto ao comitê do prêmio, em Oslo, na Noruega, e contou com apoio de ambientalistas e das principais lideranças indígenas do país, levando o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) a hostiliza-lo publicando em diferentes momentos, inclusivo na ONU.

Desde 2019, voltou a viajar pelo mundo pedindo proteção à floresta e aos povos originários do Brasil. Se encontrou como o Papa Francisco, no Vaticano, participou do Festival de Cinema de Cannes, na França, e se reuniu com o presidente francês, Macron, pedindo apoio à causa indígena brasileira.

Em janeiro de 2020, Raoni conseguiu aglutinar na aldeia onde mora, na TI Capoto Jarina (MT), cerca de 600 lideranças indígenas de 45 povos, num movimento que já entrou para história denominado de “Manifesto do Piaraçu das lideranças indígenas e caciques do Brasil”.

O documento denuncia que há um projeto político em curso do governo, de genocídio, etnocídio e ecocídio.

“O atual presidente da República está ameaçando os nossos direitos, a nossa saúde, o nosso território. O governo atual está com plano de liberar a extração de minério e pecuária em nossos territórios. […] O governo atual está nos atacando, querendo tirar a terra de nossas mãos. Nós não aceitamos garimpo, mineração, agronegócio e arrendamento de nossas Terras, não aceitamos madeireiros, pescadores ilegais, hidrelétricas e outros empreendimentos, como a Ferrogrão, que venham nos impactar de forma direta e irreversível”, aponta o manifesto assinado pelas lideranças.

 A repercussão e solidariedade  

O líder Raoni no Encontro Xingu, em janeiro de 2020
(Foto de Todd Southgate – Cobertura Colaborativa)

A internação do Raoni preocupou autoridades pelo mundo. Nas últimas horas, segundo o sobrinho-neto Patxon Metuktire, ele recebeu mensagens de apoio do presidente da França, Emmanuel Macron. Raoni e Macron estreitaram os laços após a excursão que o cacique fez pela Europa, em maio do ano passado, para denunciar o aumento do desflorestamento no Brasil depois da eleição do presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

Segundo Patxon, o seu tio prometeu continuar a luta. “Ele disse: ‘Vamos voltar à ativa. Diga a todos eles que em breve estaremos juntos novamente’”, disse o sobrinho-neto sobre as mensagens que o cacique recebeu das autoridades mundiais.

A internação do chefe mais antigo dos Kayapó teve grande repercussão também nas redes sociais, com admiradores, aliados da causa indígena e outras lideranças comentando a notícia, torcendo pela sua recuperação. A notícia também foi publicada em veículos de outros países, como Alemanha, França e Honduras.

Em nota, a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) postou uma mensagem acompanhada de uma foto do líder indígena na qual desejava “pronta recuperação ao cacique Raoni Metuktire, líder do povo Kayapó, referência e símbolo de luta e resistência dos povos indígenas do Brasil e reconhecido mundialmente pela sua dedicação ao Bem Viver do planeta!”

Marivelton Baré, presidente da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn) desejou, em sua conta no twitter, que o “cacique Raoni possa ter uma boa recuperação logo e que tupana o ajude”.

Também houve repercussão de parlamentares da Câmara dos Deputados. “O Cacique Raoni é um símbolo mundial de sabedoria e da ancestralidade os nossos povos e comunidades tradicionais. Reverencio Raoni e desejo pronta recuperação”, escreveu a deputada federal Áurea Carolina (PSOL-MG).

O deputado federal Alessandro Molon (PSB-RJ) também desejou “pronta recuperação” do cacique. “Precisamos desse guerreiro bem pra continuarmos a defender juntos os povos indígenas. Força, Cacique Raoni!!! Um forte abraço de todos nós!”, escreveu.

A jornalista da TV Globo, Sonia Bridi, também prestou solidariedade ao líder indígena. “Cacique Raoni, um gigante na defesa da Amazônia, está internado”, disse.

A conta oficial do Boi Bumbá Caprichoso, de Parintins, também postou nota de solidariedade e boas vibrações a Raoni. Escreveu a agremiação do Festival Folclórico de Parintins:

“O Boi Caprichoso se une aos povos indígenas do Brasil pedindo forças e orações pela vida do cacique Raoni Metuktire, líder da etnia Kayapó. Cacique Raoni é uma das maiores lideranças indígenas do país e reconhecido internacionalmente pela sua dedicação, luta e proteção”.

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