No JN, Bonner e Renata deram uma plataforma de tiro a Bolsonaro. Por Raymundo Gomes

Bolsonaro no Jornal Nacional

POR RAYMUNDO GOMES

“Parece uma plataforma de tiro de artilharia”, disse Jair Bolsonaro ao entrar no estúdio da Globo.

William Bonner o “tranquilizou”, como se isso fosse necessário. Mas o que o apresentador do Jornal Nacional não sabia é que os alvos do fogo pesado seriam ele mesmo e a colega Renata Vasconcellos.

Que Jair Bolsonaro tenha jantado os mal preparados apresentadores da bancada do Jornal Nacional, na entrevista desta terça, é péssimo sinal para o jornalismo.

A culpa, porém, é da Globo e da pusilanimidade conivente da grande mídia brasileira.

Depois de anos sem denunciar o extremismo fascista, obcecado com o “lulodilmismo” e o PT, Bonner e Renata ficaram vários momentos em resposta diante de Bolsonaro.

Ouviram-se frases surpreendentes da boca dos apresentadores do Jornal Nacional. Bonner chegou a falar que “a PEC dos Domésticos dignificou a profissão de milhões de trabalhadores brasileiros”, constatação que o JN jamais fez nos últimos cinco anos.

Nervosa, Renata acusou Bolsonaro de “relacionar pedofilia com homossexualismo”, obrigando Bonner a corrigi-la de imediato (“A palavra é homossexualidade. Renata foi literal na transmissão do que o senhor disse”).

Bonner disse que “nas favelas brasileiras a imensa maioria dos moradores é de gente honesta, trabalhadora”, afirmação que em si embute preconceito (é preciso realmente afirmar isso?).

Diante de temas tão previsíveis, Bolsonaro tinha as respostas na ponta da língua. Contra-atacou explorando os telhados de vidro da Globo.

Insinuou que a emissora não assina a carteira de trabalho dos entrevistadores, que recebem como pessoa jurídica (PJ). A “pejotização” é um fato.

Tirou sarro do divórcio de Bonner e até do assalto à casa do jornalista, em 2005.

Apontou a incoerência da Globo, ao atacá-lo por defender que as mulheres ganhem menos que os homens – o mau exemplo estava ali, na frente dele: Bonner recebe mais que Renata Vasconcellos.

A apresentadora devolveu que jamais aceitaria receber menos para cumprir a mesma função. Não convenceu.

Por fim, Bolsonaro sacou da manga o apoio da Globo à ditadura, num trecho da entrevista que seria cômico, se não fosse trágico:

— Fico com o que Roberto Marinho disse em 7 de outubro de 84…”, começou JB.

— O senhor vai repetir…, respondeu Bonner com ar desolado.

— Vou repetir aqui. Roberto Marinho foi ditador ou democrata?

— Candidato… nós aqui trouxemos para a mesa o candidato. Já houve editorial sobre isso, mas nós vamos encerrar agora por causa do tempo.

Ao final do JN, Bonner leu mais uma vez o já famoso editorial que Miriam Leitão tartamudeou na Globo News, em que a emissora justifica seu injustificável posicionamento.

Bolsonaro teve momentos ruins, e não foram poucos. Ficou evidente o caráter homofóbico e misógino de suas “ideias”. Provavelmente a entrevista não fará com que ele ganhe ou perca nenhum eleitor. Cada um sairá vendo o que quis ver.

Mas ficou evidente que a fórmula de abordar os candidatos explorando “pegadinhas” e derrapadas em frases antigas, usada nas eleições anteriores, envelheceu.

Na véspera, Ciro Gomes já havia se saído muito bem evitando as cascas de banana estendidas pela dupla, que estava bem mais exaltada.

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