No julgamento de mais um recurso de Lula, TRF-4 deve se manter nos trilhos da infâmia. Por Joaquim de Carvalho

Julgamento de Lula no TRF-4

Daqui a pouco, 13h30, está previsto o julgamento do último recurso de Lula apresentado ao Tribunal Regional Federal da 4a. Região, no processo em que foi condenado a 12 anos e um mês por conta do triplex do Guarujá.

Nada vai mudar em relação à pena que lhe foi aplicada, embora, no processo, não haja nada que lembre remotamente prova de crime.

Mas, para Lula e sua defesa, a sessão tem muita importância — além de ajudar no recurso a cortes superiores, escancara as contradições do processo.

Os olhos de Lula estão voltados para o tribunal da história.

Antes de ser preso, o ex-presidente Lula deu uma longa entrevista que resultou no livro “A Verdade Vencerá”.

A obra, hoje na lista dos mais vendidos, tem um título que sintetiza a mensagem que o ex-presidente passa desde que foi condenado por Sergio Moro, no processo do triplex do Guarujá.

Em discursos, entrevistas, conversas públicas, Lula demonstra a esperança de ver desmascarada o que ele considera mentira.

“Se as pessoas tiverem caráter, as pessoas saberão pedir desculpas. Eu espero esse momento na minha história”, disse Lula.

É quase certo que ele nunca ouvirá um pedido de desculpas de quem está na linha de frente das acusações e da condenação — Moro, Dallagnol e Globo, por exemplo.

Mas o dia em que os mentirosos serão vistos moralmente nus diante da sociedade parece mais próximo agora.

Com gravações em vídeo, o MTST revelou ao mudo que o triplex atribuído por Moro a Lula é pouco mais que três apartamentos do Minha Casa, Minha Vida, um colocado sobre o outro.

Cadê a suntuosidade? Cadê o luxo?

Moro já sabia disso.

Ele colheu depoimentos e recebeu laudos da perícia que atestam a relativa modéstia do apartamento.

Em 18 de junho de 2017, em audiência conduzida por Moro, um procurador da república questionou o engenheiro Igor Ramos Pontes, gerente de contato da OAS, sobre o motivo da reforma no triplex.

“A justificativa foi que no apartamento seria feita uma melhoria com o objetivo de facilitar o interesse pela unidade, porque a unidade era muito simples, era uma unidade básica, enfim, e o objetivo era melhorar o apartamento para ver se de repente o ex-presidente se interessava em ficar”, disse.

O procurador insistiu: “O senhor pode só detalhar um pouco mais isso aí: ‘foi dito para ver se o ex-presidente se interessava em ficar?’”

Respondeu o funcionário: ”É, para melhorar a unidade, já que a unidade era uma unidade muito simples, com o objetivo de facilitar, digamos assim, o interesse dele pela unidade, ver se de repente facilitava, enfim, querer ficar com o apartamento”.

Moro também ouviu dos envolvidos na reforma e negociação para a venda do triplex que o imóvel nunca pertenceu a Lula ou a mulher.

A resposta não interessava à acusação, pois Lula já tinha sido apresentado ao Brasil, através do power point de Deltan Dallgnol, como chefe da quadrilha que roubou a Petrobras.

O engenheiro disse que acompanhou a visita que Lula fez ao imóvel, em fevereiro de 2014, e também outra em que Marisa Letícia voltou lá, com o filho Fábio.

O procurador tentou se agarrar a algo para sustentar a acusação.

“O senhor relatou duas visitas”, lembrou o representante do Ministério Público Federal.

“Posteriormente, em algum momento, foi dito que aquele imóvel era destinado ao ex-presidente Lula, a sua esposa Marisa Letícia?”, questionou.

Igor respondeu:

“Não, aí só as especulações de mídia, mas internamente não”, disse.

Especulações de mídia… O procurador deixou de fazer perguntas.

No mesmo dia, foi ouvida outra funcionária da OAS, também presente em uma visita, além de representantes da empresa que vendeu equipamentos para a reforma do triplex.

A Kitchens, fornecedora de móveis, tinha relacionamento comercial com a empreiteira, pois já havia montado apartamentos da OAS para exposição.

O procurador quis saber se era comum vender móveis “sob medida”. O funcionário esclareceu:

“A Kitchens só faz móveis sob medida”.

As fotos do triplex tiradas pela perícia mostram os móveis sob medida, e não há nada que lembre remotamente algo suntuoso.

O procurador quis saber se era comum o presidente do grupo OAS acompanhar a visita de um potencial comprador.

Um funcionário respondeu que não, mas acrescentou que também não era comum a empresa tentar vender imóvel a um ex-presidente da república.

O fato é que Lula, pelo depoimento e pelas provas dos autos, nunca foi dono do imóvel.

“Ele tinha as chaves?”, perguntou o advogado de Lula a uma mulher que acompanhou a reforma.

“Não, o apartamento nunca foi habitado”, respondeu ela.

Por esse triplex nunca habitado, Lula está hoje confinado em uma sala de 15 metros quadrados na Superintendência da Polícia Federal em Curitiba.

Na sentença de Moro, confirmada por Tribunal Regional Federal da 4a. Região, o que sustenta a condenação é a palavra de Leo Pinheiro e matérias do jornal O Globo.

Nada mais.

Depois de meses preso, Leo Pinheiro disse que Lula era o dono do apartamento — pela declaração, conseguiu reduzir a pena.

A palavra de um réu deve ser tomada com reserva pela Justiça, mas não na Lava Jato. Já as matérias de O Globo reproduzem boatos que circulam pelo Guarujá desde que Lula era presidente, a de que ele teria um apartamento ali.

Boatos que se incorporaram ao processo, através do depoimento de José Afonso Pinheiro, zelador do prédio.

“Sim, todos sabiam lá que o apartamento pertencia ao ex-presidente Lula. Inclusive, até os condôminos sabiam que era dele o apartamento. Sempre houve esse comentário lá. Antes da visita o pessoal já comentava que o apartamento era dele, disse ele, antes de ser demitido e se candidatar a vereador com o nome “Afonso Zelador do Triplex”.

Nessa audiência, protegido por Moro, ele disse a defesa de Lula era um “bando de lixo”.

Incrível é que, depois da condenação pelo TRF-4, em janeiro último, a revista Época, do grupo Globo, revisitou o zelador e, ao tratar da audiência, disse que o advogado de Lula é que tinha sido agressivo com o zelador. Veja o vídeo abaixo e tire suas conclusões.

Para Época, Afonso é um herói.

“Ele vigiava e cuidava do Condomínio Solaris e viu quando o ex-presidente Lula e Marisa foram visitar o apartamento 164-A. Foi demitido por contar o que sabia. Agora, reconstrói a vida e espera que a Justiça que puniu Lula também o sirva”, informa a reportagem assinada por Flávia Tavares.

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