No país de Paulo Guedes, China inventa covid e filho de porteiro não pode estudar. Por Eduardo Maretti

Foto: Evaristo Sa/AFP

Originalmente publicado em REDE BRASIL ATUAL

Por Eduardo Maretti

O ministro da Economia, Paulo Guedes, tem se superado. Não como condutor da economia do Brasil, que, entre 2010 e 2014, era a sétima do mundo. As projeções do Fundo Monetário Internacional (FMI) indicam que o país de Paulo Guedes chegará ao fim de 2021 em 13° no ranking. Guedes tem se destacado, até internacionalmente, por suas declarações que ultrapassam a lógica e a razoabilidade, e demonstram total falta de empatia e sensibilidade em relação à tragédia sanitária que aflige a nação. “O chinês inventou o vírus, e a vacina dele (CoronaVac) é menos efetiva que a do americano”, afirmou o ministro esta semana.

A declaração se deu no mesmo momento em que a pandemia de coronavírus chegou a 400 mil mortos, e em que governadores e lideranças tentam desesperadamente espaços diplomáticos e econômicos em busca de vacinas contra a covid-19. Como numa sucessão de atos pensados, deliberados, Paulo Guedes não parou por aí. Aparentemente sem saber que era gravado, como no episódio da China, disse – em reunião do Conselho de Saúde Suplementar – que “houve excessos no Fies (Fundo de Financiamento ao Estudante do Ensino Superior)”. Isso porque o porteiro de seu prédio, segundo seu relato, teria conquistado vaga em universidade, mesmo tendo nota zero no vestibular.

Se a política econômica do governo de Jair Bolsonaro é voltada à destruição do Estado, em termos de diplomacia Paulo Guedes parece ter ocupado o espaço deixado pelo ex-ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, cujas ações e intervenções levaram o país a ser classificado como “pária” do mundo, termo utilizado por diversos analistas.

“Decadência orçamentária

“O desserviço que o ministro da economia tem feito ao futuro do Brasil está constatado em números. Está acabando com a educação, a ciência e a tecnologia, universidades, bolsas. É uma decadência orçamentária. Não tem orçamento para nada, mas para emenda parlamentar tem”, diz Thomas Heye, professor do Instituto de Estudos Estratégicos da Universidade Federal Fluminense (UFF).

O presidente Jair Bolsonaro sancionou na quinta-feira da semana passada o Orçamento de 2021. Nele, foi vetado um montante de R$ 19,767 bilhões, dos quais R$ 1,2 bilhão para a educação. Pior do que isso, como parte de uma política deliberadamente perversa, com o país de Bolsonaro e Paulo Guedes acumulando centenas de milhares de cidadãos mortos, foram vetados R$ 2,228 bilhões em despesas do Ministério da Saúde. “As manifestações de repulsa ao povo por parte de Paulo Guedes são reiteradas”, observa Heye.

O próprio ministro se encarrega de deixar clara sua repulsa. Como ao criticar a empregada doméstica que podia ir à Disney. Nesta mesma semana, com média de 3 mil mortes por dia causadas pela covid, Guedes voltou a atacar o Estado brasileiros que, segundo ele, “quebrou”. “Todo mundo vai procurar serviço público, e não há capacidade instalada no setor público para isso. Vai ser impossível”, afirmou, na terça-feira (27). “Todo mundo quer viver 100 anos, 120, 130 (anos)”, continuou. Em outras palavras, a tese do ministro da Economia parece querer dizer que a morte é culpa dos próprios mortos, que congestionam o sistema porque envelheceram, ou pegaram covid. De acordo com ele, “não há capacidade de investimento para que o Estado consiga acompanhar” a crescente procura por atendimento médico.

Como diz o professor Thomas Heye, os critérios para cortes não existem mais. Ele cita o exemplo de seu programa de pós-graduação na UFF. “Tiraram três bolsas de estudo para mestrando. O argumento é de que o IDH de Niterói é muito alto e, por isso, não precisa de bolsa. É um absurdo. É o aluno que precisa de bolsa. O aluno não é o município de Niterói!”, protesta.

Enquanto isso, nos Estados Unidos

Paradigma do capitalismo moderno e do mercado, os Estados Unidos hoje apontam para um novo projeto de Estado, que seja promotor do crescimento, o que enterra o ideário seguido por Guedes. Nesta quinta (29), o presidente Joe Biden, em discurso histórico no Congresso, que em janeiro foi invadido por uma horda de criminosos ultradireitistas trumpistas – anunciou um ambicioso plano de reconstrução do país.

Comparável, pelo menos como proposta, ao New Deal, elaborado para salvar o país após o crash da Bolsa de Nova York, em 1929, o projeto prevê 4 trilhões de dólares em investimentos públicos. Além disso, por exemplo, o ensino público e gratuito seria ampliado, incluindo dois anos de universidade. “É hora de as corporações americanas e o 1% mais rico dos americanos pagarem sua parte justa. Apenas paguem sua parte justa”, disse Biden, ao defender a taxação de grandes fortunas.

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