No país esquizofrênico dos 500 mil mortos, o mercado vai bem. Por Denise Assis

Bolsa de Valores. Foto: Wikimedia Commons

No país dos 500 mil mortos, cerca de metade dos 50 milhões de brasileiros entre 15 e 29 anos, desiludidos com o desemprego e a falta de perspectiva, gostaria de ir embora, mostram dados da FGV Social (Folha, 21/06/21). A pandemia, com as aulas no modo remoto para quem tem internet e computador em casa, tirou de pelo menos 2,7 milhões de crianças não apenas a oportunidade de estudar, mas aquilo que há de mais básico: a comida, garantida pela merenda escolar, segundo estudo da UFG. (O Globo, 21/06/21).

Não por acaso, um ranking com países da OCDE mostra que a combinação de desemprego e inflação levou o Brasil à segunda posição numa escala de mal-estar entre 38 países. Só perde para Turquia, diz estudo Ibre/FGV. Também não por coincidência é cada vez maior o número de pessoas indo para as ruas protestar contra o governo Jair Bolsonaro.

No meio da desgraça, o mercado financeiro vai bem. Invertendo um pouquinho o que diria o general Emílio Garrastazu Médici no auge do “milagre brasileiro” forjado pela ditadura militar, o povo vai mal, mas a economia (agora o mercado) vai bem. O conjunto da obra do noticiário traz também, no mesmo dia, certa euforia com o aumento do saldo de investimentos estrangeiros na B3 (Estadão) e com o favorecimento de investimentos no Brasil provocados pela alta do petróleo (Valor Econômico).

O descolamento de setores como o financeiro e parte do agro da economia real que comanda a vida da ampla maioria do povo brasileiro sempre existiu, mas é cada vez maior. Mostra o aprofundamento das desigualdades, o retorno ao país da iniquidade máxima depois de alguns anos de ilusões. Um tempo em que se imaginava que a miséria extrema tinha ido embora para não mais voltar, que o país alcançava números considerados de pleno emprego, que os filhos dos pobres podiam entrar na faculdade e todo mundo viajava de avião.

Retrocedemos décadas, e as elites brasileiras que comemoram o PIB dos mais ricos e os negócios na bolsa com o discurso do “agora vai” mostram que não mudaram quase nada. Fizeram apenas um recuo estratégico antes de tudo voltar ao que era antes no país da esquizofrenia, que não percebeu ainda que é impossível alcançar o desenvolvimento econômico e civilizatório sem que todas as camadas participem e seus frutos sejam divididos.

Mas a roda da história, que às vezes se solta com os solavancos e leva a carroça a desviar do rumo temporariamente, sempre volta a girar. Até porque quem vota não é o mercado.