No Rio, Casa Nem é refúgio para LGBTs excluídos das famílias nas festas de fim de ano

Sarah/RFI

Publicado originalmente no RFI

No coração de Copacabana, na zona sul do Rio de Janeiro, a Casa Nem ocupou há alguns meses um velho prédio de sete andares. Cerca de 50 pessoas LGBTs e uma dezena de cachorros convivem neste lugar precário e sem agua.

“Sem a casa Nem, estaria morando na rua”, conta Luana Paixão, de 25 anos. Essa mulher transexual chegou há um mês, com a mão quebrada depois de ter sofrido uma violenta agressão transfóbica em Niterói (RJ). Ela diz ter encontrado na Casa Nem “uma nova família”, onde se sente acolhida. Sua família biológica não a aceita como ela é. “Conversei com o meu pai, a minha mãe, a minha avó… Mas ninguém em nenhum momento quis a minha presença no Natal”, lamenta Luana. “Isso foi muito doloroso.”

Funk, purpurina e nudez

De 24 a 27 de dezembro, a casa organiza o “Desnatal”, um evento para “desconstruir as convenções de um Natal cheio de regras e de hipocrisia”, resume Gustavo, homem transgênero de 37 anos, que mora na casa há quatro meses com a companheira. Para ele, Natal sempre foi um período difícil, onde precisava mentir para a própria família para se sentir aceito. “Todos os Natais da minha vida tive que ser a menininha perfeita da família, com vestidinho”, lembra Gustavo. “Hoje não. Hoje posso ser quem eu sou. Então isso é muito importante para a gente que é trans, que tem esta opressão dentro de casa”. Gustavo diz ter passado neste lugar de acolhimento no Rio o “melhor Natal da vida”.

Ao longo das quatro noites, a casa Nem vira um lugar em que todo mundo se libera, se fantasia e se transforma. Umas pessoas se cobrem de purpurinas, outras andam nuas, e todas dançam ao som do funk carioca.

No meio da festa, fica fácil esquecer que há alguns metros dali existem famílias conservadoras da elite econômica da cidade, com padrões heterossexuais. “Tudo o que você pode imaginar de não convencional para o Natal, tem aqui!”, brinca Gustavo.

Excluídos das famílias, LGBTs encontram acolhimento no final do ano na Casa Nem, em Copacabana.

A convivência com o bairro por vezes é complicada, relatam alguns moradores. Os vizinhos por vezes chamam a polícia para tentar retirar os moradores da ocupação. Na noite do dia 24 não foi diferente, policias foram ao prédio várias vezes durante a madrugada. Mesmo assim, a festa foi até as cinco da manhã.

De dia, todo mundo descansa. Alguns curam a ressaca na praia, outros organizam a limpeza e o almoço. Sara e Lucila, duas mulheres lésbicas de 26 e 24 anos, admitem que não é sempre fácil morar com outras cinquenta pessoas, e dividir as tarefas de limpeza nesse prédio. “Tem pessoas com que você acaba sendo amiga, outras não… Mas nunca passei Natal com tantas pessoas desconhecidas”, sorri Lucila. O casal mora num quarto com o filho de 7 anos. As paredes são cobertas por textos, poemas e imagens de Marielle Franco, mulher negra e lésbica, ex-vereadora do Rio, assassinada em 2018: “uma musa”, resume Sara.

Brasil, país transfóbico

Na primeira noite da festa, a Casa Nem acolheu cerca de 150 pessoas, além dos moradores do prédio. Felipe, homem gay cis, convidado pela própria Indianara, líder da Casa Nem, afirma ter achado uma nova família. “Aqui me sinto abraçado, me sinto em casa! A gente conversa de igual para igual. Aqui não é um espaço para excluir porque já tem muita exclusão la fora.”

No país que lidera o ranking mundial de assassinatos de transexuais e travestis, a Casa Nem virou símbolo de resistência. Muitas vezes é a única alternativa à rua. Mas a luta é constante no prédio, lembram os moradores que já foram expulsos de outras ocupações. “Pelo menos este Natal a gente passa com teto e colchão”, agradece Nicole, 22 anos, que saiu da rua pra vir morar aqui. “Mas e o próximo?”

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