
Trabalhar remotamente enquanto viaja pelo Brasil ou pelo mundo virou projeto de vida para muitos profissionais após a pandemia. No entanto, relatos de ex-nômades digitais mostram que solidão, cansaço mental e instabilidade financeira estão entre os principais motivos de desistência. Com informações do Estadão.
Foi o que aconteceu com Letícia Pirolo, advogada de 30 anos, que passou um ano viajando pela costa brasileira ao lado do cachorro Manjericão. Enquanto comandava seu escritório de advocacia de forma remota, viveu em cidades como Natal, Recife, Chapada Diamantina e Lençóis Maranhenses. O plano seguinte era sair do país, mas ela decidiu interromper a experiência.
“Eu imaginava que ia viver assim pelo resto da vida”, afirma. A decisão veio após a soma de perrengues, solidão e excesso de decisões exigidas pelo nomadismo digital.
Nomadismo ganhou força com o trabalho remoto
O modelo cresceu após a pandemia, impulsionado pela expansão do home office. Segundo pesquisa da The Nomadic Club, liberdade geográfica e flexibilidade aparecem como os principais atrativos para quem adota o estilo de vida por mais tempo.
No caso de Letícia, a mudança aconteceu após a morte do pai. Em 2021, deixou Curitiba sem data para voltar. Para escolher os destinos, estabeleceu critérios claros: imóveis pet friendly, boa internet, cadeira adequada para trabalhar e localização central.
Ela permanecia pouco mais de um mês em cada cidade. Trabalhava cerca de oito horas por dia e fazia passeios após o expediente. Aos fins de semana, visitava cidades próximas. “Não tem a pressa como em viagens comuns”, relata.
Cansaço mental e pressão financeira pesaram
Com o tempo, o custo de vida passou a pesar. Durante a alta temporada, Letícia enfrentou preços elevados e chegou a gastar, em média, R$ 10 mil por mês com moradia, alimentação, transporte e lazer.
Além disso, perdeu o encantamento com destinos considerados paradisíacos. A necessidade constante de decidir sobre moradia, passagens, voos e logística aumentou o estresse. “Ficou penoso. Não conseguia mais descansar. Ser nômade é quase um segundo emprego”, diz.
A sobrecarga também afetou o trabalho. “Comecei a trabalhar em horários esquisitos”, relata. Às vésperas de completar um ano no estilo de vida, decidiu abandonar o nomadismo.

Romantização contribui para frustração
Segundo Fernando Kanarski, consultor e fundador da The Nomadic Club, o nomadismo exige mudanças frequentes e decisões diárias, que vão desde onde morar até como lidar com imprevistos de transporte e custos.
Ele avalia que parte da frustração está ligada à forma como o estilo de vida é apresentado nas redes sociais, muitas vezes associado a um “sonho”. Para Kanarski, a dificuldade de manter equilíbrio entre saúde física, saúde mental e finanças leva muitos a desistirem.
“O nomadismo potencializa esses problemas”, afirma. Pesquisa da comunidade aponta saúde e instabilidade financeira como as principais razões para a renúncia, seguidas pela saudade da família e dos amigos.
Solidão aparece como fator recorrente
Kanarski afirma que o estilo de vida envolve longos períodos de solidão. “Quem não gosta de ficar sozinho não aguenta”, diz. Em vídeos de Letícia nas redes sociais, ex-nômades relatam experiências semelhantes, citando exaustão, dificuldade financeira e a busca constante por hospedagem.
A escritora e fotógrafa Laís Schulz também abandonou o nomadismo após dois anos. Em vídeo publicado no YouTube, ela conta que desistiu para cuidar da saúde mental. “Ser nômade não é estar de férias”, afirma.
Durante alguns períodos, conseguia conhecer os destinos apenas aos fins de semana devido à carga de trabalho. A falta de rotina e estrutura pesou, especialmente durante uma temporada no Camboja, onde entrou em depressão e decidiu interromper a viagem pela Ásia.
Vontade de criar vínculos influencia decisão
Laís relata que cansou de reconstruir a vida a cada novo destino. “Senti falta de sair na rua e encontrar pessoas que me conhecessem”, diz. O desejo de criar vínculos e permanecer mais tempo em um lugar motivou a mudança.
A empresária Kely Coutinho, de 45 anos, viveu como nômade por sete anos, entre 2018 e 2025, passando por mais de 30 países. Com gastos que chegaram a R$ 10 mil mensais em alguns destinos, decidiu desacelerar.
Após um ano em Buenos Aires, retornou ao Brasil e fixou residência em João Pessoa. “Hoje quero segurança, estabilidade, um lar fixo e vínculos afetivos mais sólidos”, afirma.
Estilo de vida tem prazo para muitos
Para Fernando Kanarski, viver como nômade tem início, meio e fim. Ele planeja seguir no modelo por mais três anos, após mais de uma década viajando. Letícia Pirolo não descarta retomar a experiência no futuro, mas com maior reserva financeira e estadias mais longas.
Laís Schulz também afirma não se arrepender. Atualmente, busca um formato que permita conhecer novas culturas com mais conforto e estabilidade. “Existe um meio-termo que ainda estou tentando descobrir”, diz.
Perfil do nômade brasileiro
Antes de adotar o nomadismo digital, Kanarski recomenda avaliar a tolerância à solidão e definir qual ritmo combina com cada pessoa. No aspecto financeiro, a orientação é ter reserva para ao menos seis meses de despesas.
No Brasil, há forte presença de profissionais de tecnologia, marketing e empreendedores, geralmente com mais de 25 anos e alta qualificação. No exterior, predominam profissionais de TI e empresários.
No livro “Clube dos Nômades Digitais”, lançado em 2025, Kanarski define o nômade como alguém que viaja com frequência, adota um estilo de vida minimalista e não possui endereço fixo.
Trabalho remoto não garante nomadismo
Apesar da expansão do home office, o nomadismo segue como uma parcela pequena desse universo. Dados do IBGE indicam que cerca de 6,6 milhões de brasileiros trabalham remotamente, mas muitas empresas ainda exigem residência fixa.
Além disso, o avanço do modelo híbrido reduz a viabilidade do estilo de vida. Estudo do Insper, divulgado em 2025, mostra que o trabalho híbrido continua predominante no Brasil, mesmo após anúncios de retorno ao presencial por grandes empresas.