Nome de Flávio para a Saúde questiona dever do Estado de garantir saúde a todos

Atualizado em 20 de outubro de 2026 às 22:26
Cláudio Lottenberg Flávio Bolsonaro
O médico e presidente da Confederação Israelita do Brasil, Cláudio Lottenberg e o candidato a presidência Flávio Bolsonaro. Foto: Reprodução/Jean Carniel/Reuters

Escolhido por Flávio Bolsonaro (PL) para comandar o Ministério da Saúde caso vença a eleição, o médico Claudio Lottenberg aparece em um vídeo questionando o princípio constitucional que sustenta o SUS: a saúde como direito do cidadão e dever do Estado. O presidente da Confederação Israelita do Brasil (Conib) também tem no histórico a negação do genocídio contra o povo palestino em Gaza e a defesa da retirada do apoio brasileiro à ação apresentada pela África do Sul contra Israel na Corte Internacional de Justiça.

Na gravação, Lottenberg descreve o modelo de saúde como “extremamente desajustado” e relaciona esse diagnóstico ao seu fundamento constitucional. Em seguida, coloca em discussão a própria natureza da garantia: “Discutir a saúde enquanto direito ou discutir a saúde enquanto um bem?”. A pergunta atinge o princípio do acesso universal, que permite ao cidadão buscar atendimento independentemente de sua capacidade de pagamento.

O médico também associa a falta de autocuidado a um custo imposto aos demais. “Ou então nos darmos ao luxo de eventualmente não cuidar da nossa saúde e penalizar a sociedade pra que ela pague pelo nosso próprio pouco ou insignificante autocuidado?”, questiona. Ao formular o problema dessa maneira, desloca o foco da responsabilidade pública para o comportamento individual de quem necessita de assistência.

A Constituição estabelece, no artigo 196, que a saúde é direito de todos e dever do Estado, com acesso universal e igualitário às ações e aos serviços. O artigo 198 organiza a rede pública em um sistema único. Essa garantia não depende de um julgamento sobre o comportamento do paciente ou sobre quanto ele teria cuidado da própria saúde.

O histórico de Lottenberg inclui a defesa de uma condição para ampliar o financiamento da saúde. Em um debate na Fundação FHC, em agosto de 2019, quando presidia o UnitedHealth Group Brasil, afirmou: “Não colocaria nenhum recurso adicional na saúde sem antes evoluir na alocação correta do que já temos”. Na ocasião, sustentou que havia desperdício tanto no setor público quanto no privado e defendeu maior integração entre ambos.

Lottenberg já negou o genocídio palestino

Na presidência da Conib, Lottenberg adotou uma posição explícita em defesa de Israel. Em entrevista à Jovem Pan News registrada no site da entidade em 24 de julho de 2025, declarou: “Israel não comete genocídio à luz do direito internacional”. Alegou que não havia intenção comprovada de exterminar os palestinos e que o alvo militar israelense era o Hamas. Na mesma manifestação, atacou a política externa brasileira por suas críticas à ofensiva em Gaza.

A atuação antecede essa entrevista. Em janeiro de 2024, Lottenberg esteve entre os signatários de um manifesto que pediu a Lula a retirada do apoio à ação da África do Sul contra Israel. O documento classificava a acusação de genocídio como infundada e buscava mudar a posição brasileira diante do processo na Corte Internacional de Justiça.

Em setembro de 2025, uma comissão internacional independente de inquérito criada pelo Conselho de Direitos Humanos da ONU concluiu que Israel havia cometido genocídio contra os palestinos em Gaza. O colegiado identificou quatro dos cinco atos previstos na Convenção sobre Genocídio, incluindo mortes e a imposição de condições de vida destinadas à destruição do grupo. O governo israelense rejeitou as conclusões.

Gaza
Região da Faixa de Gaza, na Palestina ocupada. Foto: Ammar Awad/Reuters

A aproximação com o bolsonarismo também aparece na maneira como Lottenberg passou a tratar a pandemia. Em entrevista publicada em 9 de outubro, questionado sobre o negacionismo do governo Jair Bolsonaro, respondeu que preferia deixar o assunto como um “capítulo superado”. O médico afirmou, na mesma ocasião, que não abandonaria suas convicções nem as evidências científicas caso assumisse o ministério.

Anunciado por Flávio ainda em agosto, Lottenberg foi novamente citado pelo candidato no debate da Band de domingo (18), quando o senador prometeu levar o padrão do Hospital Albert Einstein ao SUS. Sua indicação coloca no centro da campanha as posições de quem poderá dirigir a política nacional de saúde — inclusive o questionamento de uma garantia constitucional que o futuro ministro teria a responsabilidade de assegurar.

Laura Jordão
Estudante de Sociologia e Política na Fundação Escola de Sociologia e Política; escrevo pelo Diário do Centro do Mundo!