Normalizando o fascismo: Bolsonaro dá sua Bic para repórter da Globo anotar o que ele manda. Por Kiko Nogueira

Bolsonaro durante transmissão ao vivo em barbearia

O esforço da Globo em normalizar Jair Bolsonaro passa, inevitavelmente, pelo constrangimento de seus empregados.

Depois da veterana Délis Ortiz presentear o sujeito com uma Bíblia numa coletiva, uma outra jornalista teve um bate papo descontraído com Jair.

A própria Jussara Soares contou no Twitter: “Pedi um café ao presidente @jairbolsonaro. E rendeu uma conversa inesperada de cerca de 15 min”.

“Proibida de entrar no gabinete com celular, precisei pegar emprestada a caneta Bic para registrar o que ele me disse: ‘Sou assim mesmo, não tem estratégia.’”

A reunião rendeu a manchete do site do Globo como se fosse um furo de reportagem.

Não é nada. Jussara desperdiçou seu tempo e o dos leitores.

Bolsonaro ganhou um palanque para explicar porque ele é indigno: na verdade, trata-se de um homem sincero, que fala o que dá na telha, como aquela sua tia que estraga o Natal. 

A repórter deixa o homem à vontade para dizer o que quer, sem ser minimamente incomodado.

Bolsonaro, ficamos sabendo, “tem um recado claro: ele não vai mudar”.

Um dia antes, Trump afirmou que tinha “zero estratégia” em seus ataques racistas à cidade de Baltimore, de maioria negra.

Ou seja, é o oposto do que seu Cascata e Cascatinha estão apregoando.

Jussara não pôde gravar o convescote, mas o pai de Carluxo emprestou-lhe a caneta.

Uau. Que simpatia.

O boquirroto vil de sempre discorreu sobre absolutamente as mesmas coisas que ele profere no Twitter a cada minuto.

Uma enxurrada de imbecilidades sobre índios, trabalho escravo, Adélio, a “Cancún brasileira” em Angra.

Qual a diferença desta vez?

A diferença é a Bic.

Ele é tão normal, tão, sei lá, comum, tão despachado, que cedeu a esferográfica para a moça — e a mandou anotar.

E assim ela o fez, como uma boa secretária.

No final das contas, Bolsonaro é gente como a gente.

Faz um coraçãozinho com as mãos agora. 

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