Nossa combalida democracia ficou por um fio. Por Afrânio Silva Jardim

Publicado originalmente na fanpage de Facebook do autor

POR AFRÂNIO SILVA JARDIM, professor de Direito da UERJ

Afrânio Silva Jardim. Foto: Divulgação/Facebook

PASSADA A “TEMPESTADE”, CONFESSO QUE EU ESTAVA ATORMENTADO. ACHO QUE A NOSSA COMBALIDA DEMOCRACIA FICOU “POR UM FIO”.

Não sou cientista político e nem sociólogo, mas a minha experiência e sensibilidade me fazem continuar a acreditar que a nossa abstrata e combalida democracia correu sério risco durante a paralisação (inicialmente, locaute) dos caminhoneiros.
Eles pediam a volta da ditadura militar !!! (não só eles …).

Sobre a minha compreensão do que seja uma real democracia, remeto o leitor para o novo texto que publiquei na minha coluna de terça-feira, no Site Empório do Direito.

Deu para perceber que as forças do poder público não estavam obedecendo às determinações do senhor Temer. Como disse em várias mensagens aqui postadas, todos estavam “fazendo corpo mole”, até porque suas entidades de classe manifestaram publicamente apoio a esta suspeita paralisação.

Por isto, embora possa ser mal interpretado, acho que, em futuro breve, os democratas deste país, de várias matizes ideológicas, terão de agradecer ao general Eduardo Dias Villas Boas pela manutenção de nossa ordem jurídica e política. Meu “palpite” é que ele, apesar de sua grave doença, está conseguindo “segurar” o seu público interno mais radical. Para bom entendedor, meia palavra basta …

Minha preocupação ficou ainda mais aumentada quando forças políticas e sociais da esquerda, se forma ingênua e inconsequente, se solidarizaram com este movimento orquestrado pela direita, ameaçando o surgimento de um caos social, com diversas e inoportunas greves por todo o país.

Desde o primeiro momento, denunciei que a paralisação dos caminhoneiros tinha um escopo espúrio: criar um caos na sociedade para inviabilizar as próximas eleições presidenciais. A direita não tem sequer um candidato viável. Por isso, apostava e pedia intervenção militar e tinha forte apoio em instituições armadas do Estado.

Desta forma, achamos que demos alguma, embora insignificante, contribuição para a manutenção do nosso precário Estado de Direito, juntamente com vocês, ou seja, a maioria dos 81 mil leitores desta página. Gritamos e denunciamos. Importante, também, a contribuição do excelente site Diário do Centro d Mundo – D.C.M.

Por tudo isso, achando que, malgrado alguns dissabores, repito que “está valendo a pena”, motivo pelo qual reproduzo recente texto que escrevi sobre esta nossa teimosia em prol da busca por justiça social, ainda que estejamos próximos de nosso ocaso. “Hasta la victoria, siempre” (Che).

Vejam o texto abaixo, verbalizado por J.Renato Briganti, a quem renovo meus sinceros agradecimentos.

Afranio Silva Jardim, professor de Direito da Uerj. Procurador de Justiça (aposentado) do Ministério Público do E.R.J. Mestre e Livre-Docente em Dirito Processual.

“APESAR DE TUDO, ACHO QUE VALEU E CONTINUARÁ VALENDO A PENA …

Às vezes, bate na gente um certo desânimo. Somos tentados a pensar que as coisas devem ser assim mesmo e que a nossa “luta” é inglória, que as nossas aspirações de justiça social contrariam a “natureza das coisas”.

Uma tarde chuvosa, longe dos amigos e dos familiares mais próximos, fomenta mesmo um certo pessimismo, uma certa nostalgia das “lutas” passadas e perdidas.

Por vezes, somos levados a fazer autocríticas. Somos levados a rever os acontecimentos do passado. Sentimos terrível saudade da nossa falecida filha Eliete, também uma “batalhadora” por justiça para os mais necessitados.

Ademais, bate um grande saudosismo daqueles dias de euforia, daqueles dias em que achávamos que a nossa geração iria transformar a nossa hipócrita sociedade.

Pode-se até chegar a uma terrível e dolorosa dúvida: será que a nossa vida valeu a pena?

Entretanto, “acordamos” e ficamos revigorados quando ouvimos as músicas de Leon Gieco, Victor Heredia, Pablo Milanés, Zé Geraldo e Chico Buarque, muitas delas cantadas pela saudosa Mercedes Sosa. Ficamos revigorados, ainda, quando nos lembramos do grande intelectual que foi Darci Ribeiro, cuja trajetória de vida pode ser sintetizada em seu pensamento abaixo:

“Fracassei em tudo o que tentei na vida.
Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui.
Tentei salvar os índios, não consegui.
Tentei fazer uma universidade séria e fracassei.
Tentei fazer o Brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei.
Mas os fracassos são minhas vitórias.
Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu.”

Evidentemente, assim como Darci Ribeiro, não me considero um derrotado. Pessoalmente até me considero um vencedor, graças a várias circunstâncias e situação econômica privilegiada.

Entretanto, nossos mais relevantes “valores” estão longe de serem concretizados e vivemos em uma sociedade de pessoas raivosas e preconceituosas, conservadoras, sem vontade de adquirir cultura, enfim, uma sociedade de pessoas “infantilizadas” e acríticas.

Nada obstante, por circunstâncias várias e que não cabem ser elencadas, espelhado no exemplo de Darci Ribeiro e tantos outros, termino esta breve reflexão, asseverando:

1 – Que não desanimo, embora a idade tenha diminuído em mim o açodamento juvenil. Não abro mão das minhas utopias, malgrado já não tenha tantas condições de correr em sua direção, (Galeano). Não aceito os “fatos consumados” e acho que podemos, algum dia, no futuro, subverter os fatos.

2 – Que jamais abandonarei a “luta por justiça social”, pois não consigo achar natural que as pessoas tenham tantos sofrimentos em razão de sua pobreza.

Termino, dizendo: quando virem o meu caixão sendo levado para a sepultura, tenham certeza de que ali vai um eterno inconformado, um inadaptado a este modelo de sociedade, um humanista rebelde.

Espero ter deixado cair uma semente por este nosso caminho de vida percorrido …

Enfim, espero também que meus netos encontrem esta semente e a façam germinar. Não estarei aqui, mas gostaria de ter provas disso enquanto ainda estou presente …

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