Notícia é tudo que seja ruim para o PT

Cena de Newsroom, série americana
Cena de Newsroom, série americana

Inspirado no conto Teoria do Medalhão, de Machado de Assis.

“E então, meu filho. Você já está no último semestre de seu curso de Jornalismo. É hora de conversarmos sobre a sua carreira. Quero dizer, as coisas práticas que vão fazer diferença numa redação.”

Cláudio, o pai, tinha 55 anos. Trabalhara vinte anos nos principais jornais e revistas do Brasil. Depois, para ganhar dinheiro, abriu uma empresa de assessoria de imprensa.

Acumulou uma considerável experiência no jornalismo.

“A primeira coisa que você deve entender é o que é notícia.”

Fred, o filho, riu sozinho.

“Isso é fácil, pai. Notícia é notícia. Uma coisa nova que os leitores querem saber.”

Cláudio balançou a cabeça, em negação.

“Isso era antigamente, filho. Agora, notícia é outra coisa.”

Fred fez cara de interrogação e curiosidade.

“Notícia, agora, é tudo que seja ruim para o PT.”

O pai tirou do bolso um bloco e uma caneta.

“Anota aí, porque isso é o mais importante. Notícia é tudo que seja ruim para o PT. Claro que esta é uma categoria abrangente. Se o fato for negativo para o Lula e a Dilma, também é notícia.”

Fred tomou nota.

“Mas papai. Existe o limite da verdade aí, não é?”

“Filho. Verdade é uma coisa relativa. Mentiras úteis sobre o Lula, por exemplo, dão mais prestígio numa redação do que verdades inconvenientes sobre o Aécio.”

“Mentiras?”, perguntou Fred. “Mas não demitem você quando você publica uma mentira?”

“Isso é coisa do passado, filho. Uma boa mentira pode valer uma promoção. Seus chefes vão respeitar mais você se souberem que você não se detém diante de uma mentira para prejudicar o PT.”

Fred teve uma dúvida.

“E a Justiça, papai? Não vou ter problemas se mentir e me processarem?”

“Nenhum. Você não vai ter problema nenhum. A Justiça gosta do PT ainda menos que a imprensa. E você ainda vai poder dizer que está sendo perseguido. Que a liberdade de expressão está sendo ameaçada pelo bolivarianismo.”

Fred quis saber que livros seu pai recomendava. Na escola, um professor recomendou uma biografia de Julian Assange.

“Não, não”, disse Cláudio. “O Assange é o pior exemplo que você poderia ter. Ele combate os poderosos e procura a verdade. E o resultado é que está confinado há três anos num lugar em Londres em que não pode sequer tomar sol. Se puser o pé para fora, é preso.”

Fred queria saber mais algumas coisas da vida numa redação.

“Que eu faço se descubro um furo que incrimine os adversários do PT? Não me refiro a uma coisa à toa. Furão.”

O pai não hesitou.

“Você joga fora imediatamente. Importante: o chefe não pode nem saber que você tem informações comprometedoras sobre os adversários do PT. Isso pode acabar com a sua carreira.”

“Por que, papai?”

“Está escrito no seu bloco, lembra? Leia em voz alta, para fixar bem.”

Fred leu, os olhos no papel, ligeiramente titubeante como um locutor gago.

“Notícia é tudo aquilo que pode fazer mal para o PT.”

“De novo”, mandou o pai.

Fred repetiu a lei máxima do jornalismo brasileiro, agora com firmeza, convicção, como Bonner no Jornal Nacional.

Cláudio ficou satisfeito. Bateu carinhosamente nos ombros de Fred.

“Pronto, filho. Agora você está preparado para fazer carreira no jornalismo brasileiro.”