Nova Assembléia de SP é de extrema direita, mais urbana e sem o mandonismo tucano. Por José Cássio

“Esta noite encarnarei no seu cadáver”

Nunca a expressão “há males que vêm para o bem” se encaixou tão perfeitamente quanto para definir a nova Assembléia Legislativa que emerge das urnas em São Paulo.

O parlamento estadual, conhecido como “puxadinho do Geraldo” em função de sua manipulação pelo tucanato nos últimos 25 anos, sofreu um tsunami em sete de outubro e o que restou é a sua fragmentação em quatro grupos: PSDB e DEM; bancada conservadora (policiais e evangélicos); extrema direita (Janaína Pascoal e cia, representantes do Novo); e a oposição, com PT, PC do B e PSOL, que dobrou a sua bancada, passando de dois para quatro deputados.

Se à primeira vista o quadro é desolador por conta do crescimento visível do conservadorismo, de outro lado é possível comemorar a fim da hegemonia tucana, cuja bancada caiu de 22 para apenas oito deputados.

Há mais notícia importante para os eleitores do campo progressista.

A carolice do parlamento mais provinciano do país terá de conviver com duas novidades que chegam para tirar o pó dos móveis e sacudir as velhas cortinas: Érica Malunguinho, a primeira parlamentar trans de São Paulo, e Mônica Seixas, que se elegeu por meio de uma bancada ativista e cujo mandato será exercido por um colegiado de representantes.

Ainda não é possível cravar mas o comando da Casa pode mudar de mãos após 25 anos.

O condomínio PSDB-DEM tem tudo para ser desbancado desta vez.

A questão é por quem: Janaina Pascoal e seus mentecaptos?

Se eu tivesse um dólar furado não apostaria nesta hipótese.

Por mais que a gente seja sectário, um parlamento não se mede apenas por discursos moralistas. Antes é preciso ter experiência e conhecimento da máquina.

É sob essa ótica que se pode assegurar que Janaina, a despeito dos seus 2 milhões de sufrágios e dos 14 zumbis que carrega nas costas, tem poucas chances nesse momento.  

Antes dela vêm dois profissionais bons de tiro: delegado Olim e coronel Telhada, líderes das bancadas evangélica e da bala e que estão com apetite de leão para por a mão na caneta.

A esses dois grupos some-se a velha-guarda capitaneada por Campos Machado e Barros Munhoz com a conivência de PSDB e DEM.

Independentemente de qual dos três grupos vencer, o fato é que o mandonismo tucano como conhecíamos foi para o vinagre e o que vai despontar, para o bem ou para o mal, é o novo.

“Eu adoraria estar nesta legislatura”, lamenta o deputado João Paulo Rillo, dois mandatos nas costas mas que não conseguiu a reeleição pelo PSOL.

“O que vemos são mudanças que, a despeito do fortalecimento da extrema direita, demarcam claramente dois pontos de vista distintos diante da vida e principalmente apontam para a ocupação urbana da Casa, tradicionalmente conhecida por seu viés interiorano”.

A louca Janaína, que encarnou a pomba gira nas arcadas da São Francisco, e o pato saído da porta da Fiesp Mamãe Falei terão de dividir espaço com uma colega trans e com a rapaziada de periferia da bancada ativista do PSOL.

Há outros casos, que não vem ao caso detalhar, mas o fato é que a nova Legislatura tem ingredientes que nos fazem crer que os paulistanos podem olhar com mais atenção para a Casa – e esse já é um passo importante num parlamento que sempre passou despercebido pelos moradores da principal cidade do país.

Além do mais, cansados de guerra, Barros Munhoz, com sua barriga pornográfica, e Campos Machado, com sua indefectível peruca, já não causam mais como antigamente.

Olim e Telhada ainda têm alguma bala na agulha, mas terão de passar no teste da aceitação popular de Bolsonaro, o miliciano de estimação que começa trôpego e que pode dar com os burros n´água mais cedo do que muitos imaginam.

“Essas informações de fato dão esperança, o perfil é mais urbano mesmo, mas em compensação a Casa ficou ainda mais conservadora”, explica Carlos Giannazi, do PSOL, um dos mais experientes e autor da alcunha puxadinho do Geraldo.

Segundo o deputado, a pauta racista e homofóbica vai dar o tom.

“Eles vão tentar de todas as formas seguir o modelo de desmonte do Estado e a dúvida é saber se teremos força para conter”, diz Giannazi, lembrando que a oposição será de apenas 15 (basicamente as bancadas do PSOL, PC do B e PT) num universo de 94 deputados.

Se considerarmos a hipótese, nada improvável, dos moradores de São Paulo se apropriarem de seu parlamento, e acompanharem de perto os debates e decisões, fazendo pressão pelas causas justas, é possível dizer que no fim desse poço há um fiapo de luz.

Pior que está não fica, com certeza.

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