Nove fatos para entender a chacina israelense em Gaza. Por Luis Felipe Miguel

Atualizado em 27 de novembro de 2023 às 23:55
Bombardeios na Faixa de Gaza. Foto: Fadel Senna/AFP/CP

Nove fatos para entender a chacina israelense em Gaza:

1 – Israel é uma força colonial na Palestina

Quando começou a colonização judaica, a Palestina não era um território desocupado. A formação do Estado de Israel levou à expulsão de cerca de 750 mil palestinos, no processo conhecido como Nakba (a catástrofe). Os colonizadores tomaram suas terras e suas casas. Os palestinos se tornaram cidadãos de segunda categoria, desprovidos de direitos, condenados a ocupações subalternas e à privação material.

2 – Gaza é um grande campo de concentração

A partilha da Palestina, decidida em 1947, não foi aceita pelos árabes por motivo óbvio: a população não foi ouvida, em oposição aos princípios da própria ONU. A maior e melhor parte do território da Palestina era cedida a uma minoria de colonos. Logo Israel tomou também os territórios destinados aos palestinos. A Autoridade Palestina mantém um governo sem poder na Cisjordânia. Já a Faixa de Gaza é um enorme campo de concentração: Israel controla o fluxo de pessoas, de alimentos, de medicamentos, de água, de energia. E faz sucessivas incursões punitivas.

3 – Israel pratica uma política de “limpeza étnica” contra os palestinos

O objetivo de Israel é expulsar os não-judeus do território que controla, transformando a Palestina numa área etnicamente “pura”. O historiador israelense Ilan Pappé vai além e denomina a ação de seu país contra os habitantes da Faixa de Gaza de “genocídio incremental”. A deterioração constante das condições de vida levaria ao extermínio de todos os moradores. A operação militar em curso é uma aceleração deste processo.

4 – A doutrina militar israelense preconiza a matança de civis

As forças armadas de Israel operam seguindo a chamada “doutrina Dahiya”, que prevê a destruição de toda a infraestrutura civil, a fim de impedir que combatentes eventualmente se beneficiem dela. O nome vem do bairro de Beirute em que essa prática foi testada em 2006.

A doutrina militar, combinada com o ódio racista que é permanentemente alimentado nas tropas israelenses, faz com que os civis palestinos, incluindo tantas crianças, não sejam “danos colaterais”, mas alvos.

Homem corre em Gaza para socorrer criança em seu colo. Reprodução

5 – O ataque do Hamas não foi aquilo que Israel divulgou

O ataque de 7 de outubro chocou o mundo. Mas muitas das atrocidades atribuídas ao Hamas, como os famosos 40 “bebês decapitados”, já se provaram falsificações. Há evidências, reveladas pela própria imprensa israelense, de que muitas vítimas civis foram mortas pelas forças armadas de Israel, que atiravam e bombardeavam sem distinguir combatentes de não-combatentes. A “selvageria” do Hamas é central para a estratégia de desumanização dos palestinos e para a absolvição dos crimes de guerra de Israel – mas é, em grande medida, uma peça de propaganda.

6 – Antissionismo não é antissemitismo

A confusão entre os dois termos é deliberada, a fim de inibir críticas a Israel. Antissemitismo é o ódio dirigido ao povo judeu. Antissionismo é a oposição à colonização da Palestina, para a construção de um Estado por imigrantes de outras regiões do mundo. Há muitos judeus antissionistas, hoje empenhados na interrupção do morticínio em Gaza. O sionismo, aliás, durante muito tempo foi uma ideia marginal na comunidade judaica. Seus principais apoiadores eram políticos antissemitas que queriam expulsar os judeus da Europa.

7 – Israel é um Estado racista

Israel gosta de se apresentar como “a única democracia do Oriente Médio”, mas é um Estado racista governado por uma coalizão de extrema-direita. Os israelenses de origem árabe, que compõem 20% da população, são cidadãos de segunda categoria, segundo a legislação que define Israel como “Estado judeu”. O ódio contra os palestinos é ensinado nos livros escolares (como demonstrou a pesquisa da pedagoga israelense Nurit Peled-Elhanan) e um código penal específico permite, por exemplo, que crianças palestinas sejam punidas como se fossem adultos.

8 – Israel é uma peça do xadrez imperial estadunidense

Os Estados Unidos sustentam as políticas de Israel – seja vetando resoluções na ONU, seja com uma “ajuda militar” bilionária. Pesa aí o lobby sionista em Washington, cujo poder foi reconhecido até pelo insuspeito ex-presidente Jimmy Carter. Sobretudo, Israel funciona como base estadunidense no Oriente Médio, uma região estratégica devido às reservas de petróleo. E a ação israelense contra os palestinos serve de testes para armamentos dos EUA, incluídos aí alguns vetados pela lei internacional.

9 – O direito internacional condena Israel

Israel descumpre sucessivas resoluções das Nações Unidas, relativas aos direitos dos palestinos – e, desde que estourou o conflito, zomba das resoluções exigindo cessar-fogo e proteção aos civis.

O direito de guerra não permitiria o ataque indiscriminado a alvos civis mesmo que houvesse combatentes neles escondidos. O discurso israelense do “direito de defesa” ignora não só a proporcionalidade da resposta quanto o fato de que o Hamas não é um Estado – é um grupo armado num território controlado por Israel.

Participe de nosso canal no WhatsApp, clique neste link
Entre em nosso canal no Telegram, clique neste link