Novo Roda Viva ou Velha Veja?

A polêmica em torno do programa de entrevista da Cultura.

Roda Viva
Roda Viva

Não pertenço ao traço que prestigiou o primeiro Roda Viva com Augusto Nunes.

Não que eu tenha deixado de ver o programa por causa dele. Também não pertencia ao traço que via o Roda Viva com Mário Sérgio Conti, e nem com seus antecessores.

Para ser franco, as únicas vezes em que vi o Roda Viva foi quando participei,  na época em que o apresentador era um amigo, Jorge Escosteguy.

Eu era diretor da Exame, e Scot me convidava sempre que o entrevistado era da área de economia. Havia um cachê simbólico e um jantar gratuito depois do programa, e a logística era fácil para mim. Da Abril à Cultura eram cinco minutos de carro.

Três ou quatro vezes no programa e logo passei a ver aquilo como um peso, uma ocupação desagradável para uma noite de segunda. Eu tinha pouco mais de 30 anos, e São Paulo oferecia possibilidades mais excitantes que o Roda Viva.

Comecei a dar desculpas. Tinha sempre um compromisso inadiável. Para atenuar um eventual problema para Scot de falta de entrevistadores, enviava representantes. “Tenho um cara brilhante para representar a Exame”, eu dizia.

Quase sempre o “cara brilhante” que eu indicava era o único, na redação, que se dispunha alegremente a ir ao programa, o editor Nelson Blecher.

O Roda Viva jamais fez parte de minha vida, exceto pelo que contei acima, mas não tive como não ler um artigo sobre o programa que me chegou pelo twitter com altas recomendações.

Era um texto do jornalista Nelson de Sá, da Folha, sobre a estreia de Augusto Nunes no Roda Viva.

Ele notava que aquilo parecia uma reedição dos debates sobre o Mensalão com que a Veja brinda os leitores em seu site, aspas e breve pausa para risada.

Augusto, o ‘professor’ Villa e Miguel Reale Júnior (o primeiro convidado do novo Roda Viva) davam o ar de remake, notou Sá.

Só faltou Reinaldo Azevedo, completou.

Foi uma mera constatação. Mas bastou isso para um ataque feroz de Azevedo.

Ele inventou que Nelson de Sá quis bani-lo do Roda Viva. Isso jamais foi escrito no texto de Sá. Mas foi o pretexto para a capoeira verbal de Azevedo. Como não é propriamente um jornalista comprometido com fatos, vale tudo para Azevedo fazer seus pontos. Num texto destinado a santificar Thatcher, por exemplo, ele afirmou que ela morreu “pobre”. A pobreza de Thatcher inclui uma casa em Mayfair, o bairro mais caro de Londres, avaliada em 20 milhões de reais.

Uma leitura menos apaixonada dos dois textos, o de Sá e o de Azevedo, sugere exatamente o contrário: que Reinaldo Azevedo estava tentando cavar uns convites, na pele de mártir.

Deu certo.

Augusto Nunes se apressou em seu blog a dizer que Reinaldo Azevedo, seu “grande amigo”, será convidado diversas vezes.

Para entrevistar quem?

O Apedeuta? Lula, segundo se soube, era a primeira alternativa para a estreia de Augusto Nunes. Lula, o bebum de Rosemary, ou o presidente-retirante, como Nunes o chamou em seu blog.

Mas Lula, pelo visto, tinha outros planos para aquela noite de segunda. Dilma, a “Dois Neurônios”, segundo o blog de Nunes, era a segunda alternativa. Mas parece não ter se animado também a provar que é mais que dois neurônios.

Talvez não seja tão fácil assim a nova administração encontrar entrevistados no mundo da política que não sejam derivações de Serra e Malafaia.

Uma possibilidade a ser considerada é que Augusto Nunes dê um upgrade na presença de Reinaldo Azevedo e o promova de entrevistador a entrevistado.

Fica aqui a sugestão.

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