Mulheres nuas unidas jamais serão vencidas

A egípcia que ficou célebre ao tirar a roupa se une ao Femen para protestar

Alya e o Fêmen, em Estocolmo

Há um teor de idiotice na bravura que não deve ser subestimado. Os heróis não se pautam exatamente pelo bom senso.

Por exemplo, a jovem blogueira egípcia de 21 anos que colocou sua nudez revolucionária na internet. Seu nome é Alya Maghda Elmahdy, e ela se define como uma “vegetariana secular, liberal e atéia”. Ela fez muito mais pela causa feminina no Islã com esse gesto audacioso, tresloucado do que os políticos ocidentais que hipocritamente querem banir a burca para “proteger” as mulheres islâmicas.

Você às vezes tem que arrombar uma porta para avançar porque abri-la simplesmente não dá. Foi o que Alya fez.

Alya retornou agora ao noticiário, na companhia do Femen, o grupo feminista ucraniano que, como ela, fez da nudez a principal arma de protesto. Em Estocolmo, num frio glacial, Alya e o Femen uniram forças, e corpos nus, para protestar contra a islamização do Egito pretendida pelo presidente Morsi.

Um pequeno cartaz que fingia ser o Corão tapou o sexo das jovens. Os revolucionários egípcios que derrubaram Mubarak imaginavam um futuro libertário, diferente do que estão vendo.

A nudez feminina como forma de protesto é controversa. Entendo, porém, que os pontos positivos superam os negativos. É uma forma de as mulheres recuperarem o controle dos objetivos comerciais masculinos da exposição de seus corpos. E a eficácia é garantida: as imagens sempre correm o mundo, como esta que ilustra o presente texto.

É claro que o debate está animado e dividido. Muita gente – sobretudo no Egito – condena o gesto como um ultraje à honra das mulheres e uma tentativa grosseira de aparecer. Mas não é pequeno o número de pessoas que aplaudem a bravura despida de Alya.

Obsceno é o que está acontecendo no Egito. A população se livrou do ditador Mubarak há quase dois anos. Primeiro foram os militares que não queriam sair de cena sem garantia de que sua riqueza — algumas das maiores fortunas no Egito são deles — seria preservada. A população saiu às ruas para protestar contra os militares usurpadores. Depois, veio Morsi com sua tentativa de ampliação dos poderes presidenciais e, além disso, seu desejo de fazer o país se reger não pela constituição laica, mas pela xária — o código muçulmano.

No Cairo, barracas podem ser vistas na já célebre Praça Tahrir. Nelas estão acampados manifestantes. Tendas se transformaram no símbolo supremo do inconformismo no mundo moderno, graças à inovação dos ativistas do movimento Ocupe Wall St. Uma jovem ouvida pela BBC numa tenda disse: “Não recuaremos dessa vez”.

Se dependesse de pessoas de bom senso como eu, o universo andaria em velocidade reduzida, admito.

É gente como a blogueira egípcia que faz a roda girar. George Bernard Shaw escreveu: “As pessoas sensatas se adaptam ao mundo. As pessoas insensatas tentam adaptar o mundo a elas. Por isso o progresso depende das pessoas insensatas.”

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