Num país que não discute a questão racial, Romário teve que avisar que é negro num debate. Por Marcos Sacramento

Marcia Tiburi e Romário no debate da Band (Foto: Reprodução

Um dos momentos mais comentados do debate na Band com os candidatos ao governo do Rio de Janeiro revela como o debate sobre questões raciais ainda engatinha no Brasil. Embora curto, o diálogo protagonizado por Márcia Tiburi e Romário foi revelador.

A filósofa e professora citou que não havia candidatos negros na disputa ao Palácio Guanabara. De bate-pronto, Romário retrucou:

“Queria só fazer uma correção para a candidata professora Márcia Tiburi. Eu sou o negro aqui desse debate”.

O episódio, que em um primeiro momento parece apenas assunto de anedotário, mostra um dos sintomas do mito da democracia racial difundido após a libertação dos negros escravizados.

Devido à variedade de traços físicos surgidos a partir da mestiçagem que ocorreu desde o primeiro momento em que europeus e africanos desembarcaram por aqui, houve a tendência em apagar a negritude, substituindo-a pela “morenice”, um conceito que funciona tanto como eufemismo para se referir aos negros quanto como estratégia de enfraquecimento das reivindicações por igualdade racial.

Basta a pessoa negra ter o tom de pele mais claro que o preto retinto, o cabelo tendendo para o liso e o nariz afilado para ser enquadrada na ampla classificação de “morena”. Mais que provocar gafes, a dificuldade de identificar quem é ou não negro oferece munição aos opositores das ações afirmativas, sob a justificativa de que não existe racismo no Brasil.  “Somos todos mestiços, morenos”, repetem os defensores desta falácia.

Por outro lado, abre espaço para os chamados “afroconvenientes”, que se aproveitam do impreciso conceito de “pardo” para obter vantagens em ações afirmativas como cotas em concursos. Um parêntese: de acordo com o IBGE, entende-se por negro o grupo composto por pretos e pardos.

O episódio do debate da Band é mais um exemplo de como o engodo da mestiçagem foi prejudicial para o avanço dos direitos dos negros brasileiros. É um conceito tão incrustado na sociedade que até uma intelectual progressista como Tiburi tropeçou nele, sendo incapaz de ver em Romário a imagem de um homem negro.

Se houvesse um campeonato mundial de igualdade racial, o Brasil hoje estaria na segunda divisão. Já foi pior, estaria na terceira uns dez anos atrás. Mas enquanto houver dificuldade em identificar ou afirmar a negritude, fica impossível subir para a primeira.

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