
Nos dias que antecederam a operação dos Estados Unidos que resultou na captura de Nicolás Maduro, uma intensa e discreta corrida diplomática se desenrolou em várias capitais do mundo para tentar encontrar uma saída segura para o presidente venezuelano, diz o Washinton Post.
Uma dessas tentativas envolveu uma reunião de véspera de Natal no Vaticano, até então não divulgada publicamente, entre o cardeal Pietro Parolin, número dois do papa e mediador diplomático de longa data, e o embaixador dos EUA junto à Santa Sé, Brian Burch. O encontro fazia parte de uma série de esforços — que incluíram representantes do Vaticano, Rússia, Qatar, Turquia e outros — para evitar um conflito maior e oferecer um caminho de saída a Maduro antes do sequestro perpetrado pelo governo mafioso de Donald Trump.
De acordo com documentos obtidos pelo Post, Parolin questionou se os planos dos EUA se limitariam a combater narcotraficantes ou se realmente buscavam uma mudança de regime no país. O cardeal reconheceu que Maduro precisava sair do poder, mas pediu aos americanos que oferecessem uma alternativa, sugerindo uma possível concessão de asilo na Rússia, que teria garantido segurança ao líder venezuelano — inclusive com a possibilidade de ele “desfrutar de seu dinheiro” longe do cargo.
Parolin também teria tentado em vão contatar o secretário de Estado americano, Marco Rubio, nos dias anteriores, na tentativa de ganhar tempo e evitar derramamento de sangue e maiores instabilidades na Venezuela. Apesar desses esforços diplomáticos, a oferta de asilo e outras negociações não avançaram. Uma semana depois daquela reunião no Vaticano, forças especiais dos Estados Unidos invadiram Caracas, mataram cerca de 75 pessoas no ataque e capturaram Maduro e sua esposa, que foram levados para Nova York para enfrentar acusações de tráfico de drogas.
Essa tentativa no Vaticano foi apenas uma das negociações fracassadas para encontrar um refúgio seguro para Maduro antes da operação dos EUA.
No fim de novembro, intermediários não oficiais tentaram preencher o vácuo diplomático em torno da crise venezuelana. Entre eles estava o empresário brasileiro Joesley Batista, dono da JBS, que viajou a Caracas em uma missão para persuadir Nicolás Maduro a deixar o poder e aceitar uma saída negociada antes da intervenção militar dos Estados Unidos.
Segundo fontes familiarizadas com o encontro, uma das propostas apresentadas por Batista incluía a renúncia e a possibilidade de exílio em países como a Turquia, com garantias de que ele não seria extraditado para os Estados Unidos. Essas alternativas de asilo estavam sendo consideradas pela administração Trump pelo menos desde novembro, em meio a discussões sobre como evitar uma escalada do conflito.
Durante as tratativas, a oferta de exílio foi acompanhada de outros termos considerados estratégicos para os EUA, como o acesso a minerais críticos e petróleo venezuelanos, e um rompimento com Cuba, aliada tradicional de Caracas.
Embora Batista tenha apresentado essas propostas, ele não estava oficialmente mandatado pelo governo americano, mas seus relatos foram considerados pela Casa Branca, de acordo com um alto funcionário.
Maduro e sua esposa teriam rejeitado veementemente essas negociações, encerrando a possibilidade de uma transição pacífica, segundo as fontes. Rubio afirmou, em uma aparição com o presidente Trump em Mar‑a‑Lago, que o líder venezuelano teve múltiplas oportunidades de evitar o conflito e recusou “ofertas muito, muito generosas”, optando por agir de forma imprudente.
Além disso, a vice‑presidente Delcy Rodríguez estava ciente de que, conforme a constituição venezuelana, ela assumiria de forma interina se Maduro deixasse o cargo, mas fontes indicaram que o tema a deixou desconfortável. No fim das contas, ela não teria tido influência decisiva sobre a questão.