Nunca antes na história deste país a vergonha do Brasil foi tão mundial. Por Alexandra Lucas Coelho

Jair Bolsonaro (Foto: Nelson Almeida, AFP)

Publicado originalmente no Sapo

O governo Bolsonaro é um show de horror & disparate, da ONU ao G20, da cocaína ao ambiente, de Moro à prisão cada vez mais política de Lula da Silva.

1. Quando vou dormir, estamos nos 39 quilos de coca num avião da comitiva do presidente. Ao acordar já há novos episódios: 1) governo Bolsonaro ordena a diplomatas que vetem o termo “género” nas resoluções internacionais; 2) relatório da ONU sobre direitos humanos e ambiente lista Bolsonaro no topo dos líderes-fracasso 3) Merkel diz que política ambiental do Brasil é dramática, e quer tratar disso com Bolsonaro no G20 4) Bolsonaro responde que não aceita lições do G20 e pode dar lições de ambiente à Alemanha.

Assim para resumir o que apanhei no telefone enquanto bebia café. Entretanto, entrou esta mensagem: “Epa, isto é terrível mesmo. Os diplomatas do Brasil quase em lágrimas com as instruções que recebem.” Desabafo de uma pessoa amiga, não-brasileira, que trabalha num epicentro da diplomacia internacional.

Tudo na semana em que mais uma vez a justiça (?) brasileira decidiu não soltar Lula, apesar das revelações do “Intercept” — a que agora se aliou a “Folha de S. Paulo” — continuarem a confirmar a que ponto a prisão de Lula é política, Moro é um criminoso, e a eleição de Bolsonaro foi manipulada.

2. O avião (de apoio à viagem presidencial; Bolsonaro seguiu noutro) ia a caminho de Tóquio para a cimeira do G20. Fez escala em Sevilha onde os 39 quilos de coca foram detectados. Quem os levava era um sargento da Força Aérea. Que argumentista inventaria um militar a transportar 39 quilos de coca num avião ligado ao presidente que vai para a cúpula dos líderes mundiais? Este governo é uma mistura de delírio com infâmia e crime, não dá para fechar a boca de espanto. Ao mesmo tempo, Moro não hesitava em tuitar, ufano, sobre a sua reunião anti-droga nos EUA. Rir? Chorar?

E o seu compincha da Educação, também pelo Twitter: “No passado o avião presidencial já transportou drogas em maior quantidade. Alguém sabe o peso do Lula ou da Dilma?” Sim, Abraham Weintraub, ministro brasileiro da Educação escreveu isto a propósito dos 39 quilos de coca apreendidos. À hora a que escrevo ia a caminho dos 50 mil likes.

Falta um rating da canalhagem governamental mundial, para botar estes espécimes no lixo.

3. Voltando aos episódios seguintes da vergonha Bolsonaro. A nível doméstico, o governo já decretara guerra à “ideologia de género”, como os bolsominions chamam ao facto, académico, científico, largamente aceite em democracia, de género e sexo biológico não serem a mesma coisa. Agora, Brasília ordena aos seus diplomatas que mintam mundo fora: que declarem que género e sexo biológico são o mesmo, que combatam qualquer menção a género, mais, que vetem resoluções com essa palavra. Um retrocesso extremo, a juntar-se a todos os que têm sido encarados pelos diplomatas brasileiros desde que este governo tomou posse, com total desrespeito por tratados internacionais: das alterações climáticas ao porte de armas, da tortura aos direitos das mulheres e LGBT, passando pela política de emigração, com Bolsonaro a privilegiar, unilateralmente, ausência de vistos para cidadãos dos Estados Unidos, Canadá, Japão e Austrália. E só não transferiu a embaixada de Telavive para Jerusalém porque os ruralistas o pressionaram, com medo de perderem dinheiro nos negócios com os árabes.

4. Agora à frente do Itamaraty, ou seja das Relações Exteriores, o que o ministro Ernesto Araújo está a promover é “diplomacia teológica”, resume o brasileiro Jamil Chade, correspondente veterano em Genebra. Para entender a dimensão desta cambalhota brasileira nos palcos internacionais, vale a pena ler na íntegra o relato que Chade publicou ontem na “Folha de S. Paulo”: “Num ato que deixou delegações estrangeiras perplexas, diplomatas brasileiros começaram a implementar nesta quinta-feira instruções do Itamaraty de vetar qualquer referência ao termo ‘gênero’ em resoluções da ONU. (…) a nova posição do Brasil abriu um debate inédito com europeus, que insistiram que não iriam retirar o termo ‘gênero’ do texto. A posição do chanceler Ernesto Araújo, ironicamente, foi apoiada por governos como os da Rússia, Paquistão e Arábia Saudita (…). Enquanto o Brasil falava, delegações estrangeiras literalmente abriam a boca de surpresa, se olhavam de forma assustada e combinavam reacções imediatas, enquanto outros suspiravam para lamentar a nova posição nacional. (…) mais de 14 referências ao termo ‘gênero’ foram vetados durante os encontros pelo governo brasileiro até agora. O número deve crescer, já que nem todos os trechos ainda foram alvo de negociações.”

5. Há dez anos, na cimeira dos mais poderosos, Obama disse de Lula: “Esse é o cara.” Agora é Bozo que está no G20. Os relatos das suas primeiras actividades em Osaka são patéticos. Em vez de encontros preparatórios, reuniões, etc, Bolsonaro passeou, tirou fotografias com japoneses e foi a uma churrascaria, com os seus assessores. “Isolado”, escreveram os repórteres. Imagino toda a gente no G20 a fugir dele. Isto, enquanto a economia no Brasil afunda, sem que Bolsonaro aparentemente aproveite a visita para contactos locais. E se o Brasil tem uma importante comunidade de origem japonesa. “As projeções oficias de expansão do Produto Interno Bruto (PIB) se aproximam cada vez mais da recessão: 0,8% para 2019, de acordo com estimativa do Banco Central”, resumiu a “Folha”.

6. Há o risco de os direitos humanos não sobreviverem, de haver um “apartheid climático” e no topo das lideranças fracassadas estão Bolsonaro, Trump e os chineses, alerta Philip Alston, relator especial da ONU. O relatório será apresentado hoje em Genebra. Por “apartheid climático”, entenda-se uma era em que os ricos pagarão para escapar a calor e fome. E o impacto do aquecimento global, diz Alston, afectará não apenas direitos básicos para centenas de milhões de pessoas como democracia e estado de direito. A crítica deste relator é transversal, passa pelos países, pelas ONG’s e pela ONU, mas à cabeça cita a responsabilidade de Bolsonaro, os seus planos trágicos para a Amazônia, a sua atitude para com as terras indígenas.

7. É isto que parte do mundo ouvirá oficialmente hoje, enquanto as cúpulas dos 20 poderosos estão em Osaka. Angela Merkel já disse que quer ter uma “conversa clara” com Bozo sobre o desamatamento da Amazônia, e criticou a sua política ambiental. Bozo respondeu que não recebe lições do G20, que a Alemanha tem muito a aprender com ele, e abandonou a conferência de imprensa, irritado.

8. A aprovação do governo brasileiro está em 32 por cento. A mais baixa até agora. Mas. Ainda. Trinta e dois por cento. Uma parte disto será irrecuperável, nada a fazer. E a outra parte, de que está à espera para acordar? Nunca antes na história deste país, como diria Lula. E por falar em Lula: se não for libertado, se as revelações do “Intercept” caírem em saco roto, o futuro próximo julgará os envolvidos, em casa e para o mundo.

 

O jornalismo do DCM precisa de você para continuar marcando ponto na vida nacional. Faça doação para o site. Sua colaboração é fundamental para seguirmos combatendo o bom combate com a independência que você conhece. A partir de R$ 10, você pode fazer a diferença. Muito Obrigado!