O alvo é Lula, o pretexto é o Banco Master. Por Edward Magro

Atualizado em 26 de janeiro de 2026 às 14:53
O presidente Lula. Foto: AFP

Ano eleitoral. Indicadores econômicos robustos, ambiente social marcado por confiança, institucionalidade recomposta e funcionamento regular das engrenagens do Estado, mesmo sob a pressão constante de um Congresso hostil aos interesses populares — o nosso deplorável “Congresso inimigo do povo”. Do outro lado, uma oposição errática, sem direção, dilacerada por disputas internas e desprovida de qualquer projeto consistente. À primeira vista, tudo conspiraria para uma reeleição relativamente tranquila do presidente.

À primeira vista.

Nada, contudo, está assegurado. Nada é simples. Os endinheirados do Brasil varonil não descansam. Movem-se na penumbra, incubando, com paciência e abundância de recursos, algum “Collor” de ocasião — figura reciclável, funcional ao velho projeto de interrupção democrática. Enquanto o títere não adquire forma definitiva, o método é o desgaste permanente. Alvejam-se Lula, o governo e, por extensão, a própria arquitetura institucional que, até aqui, tem operado como anteparo mínimo contra investidas autoritárias.

A ferramenta do momento atende pelo nome de Caso Master — ou, em linguagem técnica, a liquidação extrajudicial do Banco Master, decretada pelo Banco Central.

A cobertura jornalística do episódio exige leitura cautelosa, não pelo que revela, mas pelo que sistematicamente oculta. O terreno é nebuloso, de visibilidade curta e contornos imprecisos — exatamente por isso, propício a versões plantadas, vazamentos seletivos e a uma curiosa profusão de certezas sem lastro empírico. Sabe-se pouco. O que se sabe chega fragmentado, descontínuo, e ainda assim é tratado como se fosse amplo e conclusivo.

Nesse ambiente pantanoso, por onde circulam pastores pentecostais sempre recendendo a enxofre, operadores financeiros ainda nos cueiros e intermediários políticos de aparência artificial, a fabricação de fake news deixa de ser um desvio ocasional para assumir função estrutural.

Ela cumpre tarefas bem definidas: protege o centrão, pressiona o Supremo Tribunal Federal e produz o ruído necessário para converter um problema localizado em fator permanente de desgaste do governo.

Não é difícil perceber como esse mecanismo se organiza quando se observa o papel desempenhado pelos veículos hegemônicos, esses artesãos persistentes do fogo fátuo. O UOL, com notável desenvoltura, publicou que “Lula mostra irritação com Toffoli e chega a dizer a aliados que ministros deveriam deixar o STF”.

A informação contraria não apenas declarações públicas do presidente, mas um padrão de comportamento mantido ao longo de décadas. Lula, em mais de cinquenta anos de vida pública, sempre preservou distância institucional do Supremo. Trata-se de uma escolha conhecida, reiterada, facilmente verificável.

Ainda assim, o portal decidiu atribuir-lhe uma conduta que nunca lhe pertenceu. No Globo, esse espaço onde florescem unicórnios anticomunistas em plena luz do dia, o movimento avançou um passo. Publicou-se, sem qualquer pudor, que “investigadores veem situação de Toffoli como insustentável e alertam ministros do STF sobre agravamento das investigações do Caso Master”. Aqui, o tom já não é de sugestão, mas de alarme. O efeito pretendido é transparente. Produzir pânico, antecipar juízos e conduzir o leitor à impressão de que o Supremo estaria às portas de um colapso moral.

Nada disso seria possível sem um expediente recorrente, quase protocolar. Em ambos os casos, as fontes permanecem confortavelmente abrigadas no anonimato das reticências. São “fontes”. Apenas isso. Não falam, não se responsabilizam, não se expõem ao contraditório.

O jornalismo brasileiro definitivamente se rendeu ao malugasparianismo, que é um revival do eliogasparianismo da época da ditadura, só que de saias. A substituição da apuração pelo cochicho elegante, agora recoberto por verniz progressista, tem produzido textos que se apresentam como informação, mas funcionam, com eficiência notável, como recados cifrados ao poder.

Fachada do Banco Master. Foto: Maria Isabel Oliveira/Agência O Globo

O que realmente sabemos, aquilo que há de mais concreto, aponta em outra direção. O Banco Master surge reiteradamente associado a quadros políticos e religiosos alinhados ao bolsonarismo. Criado por bolsonaristas da Igreja da Lagoinha e administrado por bolsonaristas da Igreja da Lagoinha, o banco passou a figurar, em investigações e reportagens anteriores, como espaço de circulação financeira opaca.

Há indícios, ainda sob apuração, de que recursos oriundos de emendas parlamentares e do chamado orçamento secreto tenham sido ali “lavados” antes de seguir para destinos menos rastreáveis, em ilhas paradisíacas do Caribe. Depois do episódio Geddel, esconder dinheiro em malas deixou de ser prudente.

A modernidade exige discrição bancária, fintechs e soluções financeiras mais sofisticadas. Nada disso está provado em sentença judicial, embora apareça de forma recorrente em investigações da Polícia Federal. Ainda assim, os vínculos políticos bolsonaristas e religiosos bolsonaristas com a bolsonarista lavanderia financeira são públicos e documentados.

Se ainda houver dúvidas, basta observar a participação de governos estaduais no enredo do Master. Governadores bolsonaristas adquiriram volumes expressivos de títulos do Banco Master, classificados por analistas independentes como de alto risco. Em alguns casos, recursos de fundos previdenciários estaduais foram mobilizados nessas operações.

A justificativa oficial repetiu-se, quase como um refrão burocrático. Tratava-se de cobrir eventuais desequilíbrios financeiros e proteger o sistema. A coincidência ideológica e religiosa com o banqueiro, lembrando que também é oriundo da Igreja da Lagoinha, raramente mereceu destaque nas manchetes, talvez por excesso de coincidência.

Diante desse quadro, a ofensiva da mídia hegemônica deixa de ser surpreendente. É mais do mesmo. Tentou-se envolver a esposa do ministro Alexandre de Moraes; em seguida, passaram a circular histórias sobre irmãos de Dias Toffoli. Nenhuma delas resistiu ao confronto com fatos verificáveis.

Ainda assim, o procedimento se mantém. Plantam-se suspeitas, reiteram-se insinuações, fabrica-se um ambiente no qual todos parecem culpados, à exceção daqueles que efetivamente deveriam ser investigados.

Por outro lado, a mídia seguirá desempenhando seu papel histórico de proteção ao centrão, ator político que, não por acaso, zela com afinco pelos interesses econômicos das próprias empresas de comunicação. Para isso, aceita conspurcar biografias, amplificar caminhadas patéticas de deputados oriundos da Igreja da Lagoinha e oferecer cobertura diária às encenações do golpista encarcerado que pleiteia prisão domiciliar.

O desfecho é previsível. A sociedade se tensiona, o debate público se empobrece e o governo é empurrado para a defensiva. O caos, como se sabe, não governa, mas perturba profundamente quem governa.

A operação midiática em torno do caso Master tem um objetivo simples. Com uma única ação coordenada, livra-se o centrão de investigações incômodas e constrói-se o ambiente necessário para bloquear a reeleição de Lula. Nada disso exige conspirações elaboradas.

Basta a repetição disciplinada de versões frágeis, o uso sistemático de “fontes” invisíveis e a disposição permanente de confundir crítica legítima com campanha política disfarçada. Sem vigilância pública, o programa avança, as eleições se contaminam e a arquitetura institucional e social construída nos últimos anos corre sério risco de comprometimento.

O ilusionismo e a prestidigitação midiática vivem momento de notável vitalidade. Jornalistas de fontes ocultas seguirão desinformando, plantando fumaça para ocultar o essencial e espalhando caos com método e constância. É preciso atenção permanente, pois o preço da distração, neste caso, tende a ser alto demais.