O amor em tempos de corona. Por Nathali Macedo

Eliseu Neto e seu namorado, Ygor Higino. Foto: Reprodução

Outro dia, zapeando no Facebook, li o post de um amigo: “Tenho a estranha sensação de que nunca mais vou transar.”

Outro amigo me contou que seu “caso firme” (chamam de “caso firme” porque não bancam essa coisa chamada namoro, tão pesada para essa geração) está ilhado em São Paulo e faz pra mais de um mês que não se veem.

A carência já lhe dá bom dia antes do sol, os cinco dedos (bem lavados e esterilizados com álcool 70) são companheiros fiéis, e, assim como o resto do mundo, ele não sabe quando voltará a ver o caso firme, crush, ficante, seja lá como se queira – ou possa – chamar.

O isolamento social faz isso com a gente: se o caso firme não é tão firme assim, cada um na sua quarentena – álcool gel pouco, minha proteção primeiro. Na melhor das hipóteses, o caso firme vira parceiro de isolamento, e aí as coisas começam a ficar complicadas.

Parece ótima a ideia de viver uma lua de mel caseira sem intromissões, mesmo que ocasionada por uma pandemia? Os casais que estão vivendo essa experiência certamente não se apressariam tanto em concordar. Minha psicanalista, que felizmente parece ter sempre uma explicação pra tudo, diz que qualquer situação ou circunstância que não se dá pela via do desejo perde automaticamente a qualidade.

Trocando em miúdos, os casais que estão isolados do mundo, convivendo vinte e quatro horas por dia, não estão juntos e isolados porque querem, mas porque não têm escolha. Não é como se você decidisse passar um tempo num chalé charmoso sem wi-fi com o amor da sua vida.

Quando você se casa, aprende a dividir o espaço e compartilhar a rotina porque você escolheu, porque é isso que o casamento significa. Vocês constroem juntos uma vida em comum e cada um, da porta pra fora, tem também a sua própria vida, ao menos nos relacionamentos saudáveis.

Quando uma pandemia te obriga a escolher entre passar muito tempo vendo o seu amor vinte e quatro horas por dia ou passar muito tempo sem vê-lo nem por um instante, a coisa eventualmente foge ao controle (meu deus, que controle?!): ele descobre que você tem um humor instável e complexo quando em situações de pressão, você descobre que ele é viciado em jogos eletrônicos, e vocês precisam lidar com isso enquanto pensam em como e quando a humanidade será devastada por um vírus que já chegou à fase de mutação.

Até Freud surtaria.

E os casais separados da quarentena, estão livres desse tipo de estresse? Estão, mas têm que lidar com a carência, a solidão, a insegurança e a incerteza de que um dia voltem a ver seus casos – firmes ou não – ou simplesmente possam procurar um sexo casual no Tinder.

Como o meu amigo, têm a estranha sensação de que nunca mais vão transar, e de que o webnamoro – que os pré-adolescentes já usavam antes de ser modinha – é a única opção possível e pode permanecer assim durante algum tempo.

É o fim do sexo casual? É o fim da Era do desejo? É o fim do mundo?

Nenhuma dessas perguntas tem uma resposta no momento – aliás, o que é que tem uma resposta no momento? – mas vale acreditar, em um ato de gentileza para consigo mesmo, que até um isolamento social compulsório – com ou sem o seu amor ao lado – pode ter um lado bom, e que talvez esse período tão difícil nos possibilite renascer mais fortes, dando mais valor às pequenas liberdades cotidianas e, sobretudo, com mais disposição para o verdadeiro afeto.

Aguentem firme: existe amor depois da quarentena.

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