O apoio de Chico Xavier à ditadura militar que poucos perceberam. Por Saddam Hayek

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Originalmente publicado em FAXINA ESPIRITUAL

Por Saddam Hayek

ESCOLA SUPERIOR DE GUERRA – O QUE FOI QUE UM “MÉDIUM”, TIDO COMO “SÍMBOLO DA PAZ”, FOI FAZER NUMA ENTIDADE COM UM NOME BELICOSO, PARA RECEBER PRÊMIOS POR TER APOIADO A DITADURA MILITAR?

Oficialmente, o “médium” Francisco Cândido Xavier é conhecido como um “símbolo máximo da paz, da fraternidade, da bondade e da caridade”, e, perto dos 20 anos de falecimento, a serem lembrados em 2022, ele é alvo de tentativas de reabilitação nas redes sociais.

Apesar da imagem “bondosa”, a trajetória de Chico Xavier, como é conhecido, é marcada por aspectos bastante sombrios que, num país menos ingênuo, colocaria em xeque-mate essa reputação tão agradável a muita gente que, dotada de fascinação obsessiva (prática condenada pelo Espiritismo original de Allan Kardec), blinda o “médium”, passando pano até mesmo nos seus piores erros.

Desde Parnaso de Além-Túmulo, o estranho livro poético de 1932, até o envolvimento com fraudes da ilusionista Otília Diogo, Chico Xavier oferece dúvidas até mesmo quanto à mediunidade que o tornou bastante famoso e adorado por muitos. Uma observação mais cautelosa identificará, sem muita dificuldade, que os “mortos” que, supostamente, se manifestavam através de Xavier, apresentavam problemas graves em aspectos pessoais que só mesmo uma mente deslumbrada e ingênua deixaria de identificar fraudes grosseiras nessas atividades.

No que se refere às “cartas mediúnicas” que Chico Xavier alegava virem de pessoas comuns falecidas, uma moda nos anos 1970 e 1980, há acusações de “leitura fria”. Entende-se como leitura fria o uso de informações e da interpretação psicológica de gestos e maneiras de falar que oferecem subsídios para os homens da terra inventarem da própria mente as mensagens “mediúnicas”, a partir do (mau) exemplo de Chico Xavier, inserindo neles as informações e interpretações que seus assistentes colhiam nas consultas que o meio “espírita” denomina “auxílios fraternos”.

Um sobrinho de Chico Xavier que era obrigado a seguir as atividades do tio, Amauri Xavier Pena, foi morto em circunstâncias misteriosas em 1961 depois que, três anos antes, resolveu denunciar as fraudes do tio. Segundo relatou a revista Manchete, de 09 de agosto de 1958, Amaury sofreu ameaças de morte do “meio espírita”, através de envenenamento. Suspeita-se que, internado em um sanatório, o sobrinho de Chico Xavier teria sofrido, também, maus tratos.

O repentino falecimento de Amauri se deu depois de ampla campanha ofensiva, vinda de um meio, o “movimento espírita”, supostamente incapaz de manifestar ódio sequer ao pior inimigo. Sem a menor fundamentação, Amauri foi acusado de alcoólatra, ladrão, falsificador de dinheiro – acusação que, recentemente, fez o policial Derek Chauvin, nos EUA, assassinar covardemente o negro George Floyd – e contra ele eram disparados comentários agressivos de palestrantes “espíritas” de Minas Gerais e do resto do Brasil.

A essas alturas Chico Xavier estava envolvido em fraudes não só literárias – conhecidas hoje pelo neologismo de psicografakes ou “fakes do bem” –  , mas também assinando atestados de fraudes de suposta materialização, que, estranhamente, eram registradas por máquinas fotográficas de péssima qualidade e que só registravam fotos em preto e branco.

Outro aspecto estranho é o envolvimento de Chico Xavier em supostas psicofonias, por esta pretensa habilidade não ser muito lembrada por seus seguidores, apenas por Arnaldo Rocha, o ingênuo viúvo de Irma de Castro Rocha, a jovem Meimei, que se deixou seduzir pelas mensagens fake que o “médium” atribuiu à falecida esposa.

As pretensas psicofonias, que teriam constituído de práticas de mímica, com o “médium” dublando uma voz em off trazida por algum locutor ou locutora escondidos que falavam pelo microfone, foram feitas em meados da década de 1950, sem muita repercussão.

CHICO XAVIER FOI DENUNCIADO POR “FOGO AMIGO”

Já as fraudes de materialização foram feitas – que envolveu um suposto “espírito Emmanuel” se “manifestando” em torno de uma maquete inspirada no Cristo Redentor mas com a cabeça do “mentor” do “médium” em fotocópia impressa – , em primeiro momento, também em meados dos anos 1950, e, depois, com Otília Diogo, entre 1963 e 1965, o que custou a amizade de Chico Xavier com o discípulo Valdo Vieira (que saiu de Uberaba para, em Foz do Iguaçu, ciar uma seita gnosticista chamada Conscienciologia e Projeciologia).

Otília foi desmascarada, mas aliados de Chico Xavier arrumaram um jeito para livrá-lo da acusação de cumplicidade, apesar de fotos posteriormente divulgadas, de Nedyr Mendes da Rocha, mostrarem um entusiasmo fora do normal, registrando um comunicativo Chico Xavier que parecia estar por dentro de todos os truques da farsante. As fotos de Nedyr são um “fogo amigo” contra o “médium”, ou seja, era uma denúncia de fraude contra Chico Xavier trazida, por acidente, por pessoa aliada a ele.

Em relação às fraudes literárias, o que Amauri não viveu para denunciar com detalhes acabou aparecendo, por acaso, através de outro “fogo amigo”, a amiga de suposta médium Suely Caldas Schubert que, no livro Testemunhos de Chico Xavier, de 1981, divulgou cartas que mostram o “médium” consentindo nas “modificações literárias” que comprovavam as fraudes literárias, se oferecendo até para colaborar com as mesmas.

Essa prática criminosa, que envolve falsidade ideológica – só o uso do nome Humberto de Campos quase pôs o “médium” na cadeia; ele teve que fazer assédio moral a Humberto de Campos Filho, herdeiro do escritor maranhense, num “evento espírita” de 1957, para abafar processos judiciais recorrentes de uma sentença  judicial desfavorável à família do acadêmico – , não media escrúpulos em modificar os livros mesmo depois de lançados. Só Parnaso de Além-Túmulo sofreu drásticas alterações no seu conteúdo em cinco vezes, num período de 23 anos.

Embora o pretexto seja tornar as supostas mensagens espirituais mais “acessíveis” ao público, a ideia subliminar é forjar a “superioridade” da “Federação Espírita Brasileira” sobre os supostos benfeitores espirituais, que não bastassem terem a falsa autoria atribuída, eram mesmo assim desqualificados como “mensageiros”, como se fosse preciso “traduzir” um Humberto de Campos ou uma Meimei para serem “viáveis” de publicação ou republicação.

Para sentir o teor patético dessas modificações editoriais, uma carta de Chico Xavier a Antônio Wantuil de Freitas – presidente da FEB e considerado o “descobridor” do “médium” – , datada de 03 de maio de 1947 e publicada no citado livro de Suely Schubert, mostrava o incômodo do “médium” com um verso que estava escrito “Sorrindo…Sorrindo…” e que ele queria mudar para “Sorrindo… Cantando…”. Ou seja, uma coisa sem a menor importância.

Recentemente, a historiadora Ana Lorym Soares, no livro O livro como missão: A publicação de textos psicografados no Brasil dos anos 1940 a 1960, tinha em mãos detalhes dessas modificações editoriais que, no passado, Amauri Xavier Pena não viveu para detalhar. Mas como se passa mais pano em Chico Xavier do que em mobília de velho casarão abandonado, Ana Lorym não percebeu a denúncia que tinha em mãos, e acreditou na falácia da “viabilização das mensagens espirituais”.

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APOIO À DITADURA, AO AI-5 E CONDECORAÇÃO DA ESCOLA SUPERIOR DE GUERRA, O “CÉREBRO” DO REGIME DITATORIAL

Muitos imaginam que Chico Xavier, através das narrativas que prevalecem hoje, que o fazem mais próximo de um personagem de contos de fadas, é uma figura progressista e moderna, apesar de sua aparência antiquada que, no auge de sua carreira, foi marcada pelo uso de ternos velhos e fora de moda, além do eventual uso de uma peruca que o fazia parecer mais antiquado ainda.

Essa atribuição chega ao ponto de atribuir ao “médium” a reputação de “dono do futuro”, através das supostas profecias da “data-limite”, uma prática rejeitada severamente por Allan Kardec em O Livro dos Médiuns, no qual há o aviso de que, em suma, diz que “qualquer tentativa de prever o futuro estabelecendo datas fixas para os acontecimentos é sinal de mistificação e de influência de espíritos inferiores e zombeteiros, que apelam para o profetismo para intimidar e dominar as pessoas”.

O que poucos conseguem admitir é que Chico Xavier foi um dos religiosos mais conservadores da história do Brasil. A exemplo de Madre Teresa de Calcutá, ele sempre foi adepto da Teologia do Sofrimento, corrente que levava às últimas consequências o obscurantismo católico meieval. A propósito, o mito de “bondade e caridade” de Chico Xavier foi claramente inspirado no que o jornalista inglês Malcolm Muggeridge fez em prol de Madre Teresa, um pretenso mito “filantrópico” feito em moldes bastante conservadores.

O conservadorismo de Chico Xavier possui amostras ligeiras num texto publicado pelo blog Charlatanismo Espírita. Ele se baseia numa ilusão de que, suportando as piores desgraças em silêncio e “sem queixumes” (palavras do “médium”), o sofrimento desapareceria, dando lugar às “bênçãos divinas”. É um receituário surpreendentemente conservador, e que no entanto não aparece entre os memes de Chico Xavier que circulam nas redes sociais.

O que chama a atenção é o seu apoio à ditadura militar, um fato subestimado por seus seguidores e simpatizantes. E esse apoio foi explícito, convicto, certeiro e ostensivo demais para ser tratado como um fato sem importância ou um “acidente de percurso”.

Para esta última hipótese, existe a ilusão, marcada pela paixão obsessiva aos “médiuns”, que alega que eles só “decidem por si mesmos” em coisas agradáveis a seus seguidores. Quando se tratam de erros ou demais aspectos desagradáveis, alega-se que os “médiuns” estão “obsediados”, o que é um grande absurdo, pois eles, como humanos, também podem adotar posturas reacionárias e cometer erros preocupantes que não podem ser alvo de complacência alguma.

No programa Pinga Fogo, da TV Tupi de São Paulo, em duas edições em 1971, Chico Xavier manifestou tamanha defesa à ditadura militar que ele desferiu ataques aos comunistas, ao proletariado, aos camponeses e aos sem-teto, além de reafirmar seu repúdio à figura política de João Goulart, deposto depois que uma manifestação no Vale do Anhangabaú, em São Paulo, em 1964 – que, segundo o historiador Jorge Ferreira, foi organizado por católicos conservadores e apoiado pelo “espiritismo kardecista” (eufemismo para o “espiritismo” de Chico Xavier) – , pediu um golpe militar para “livrar o Brasil da ameaça comunista”. Dá pena ver pessoas que se consideram “de esquerda” hoje manifestarem apreço a Chico Xavier e até classificá-lo como “marxista”. O “médium” iria detestar.

Chico Xavier, diante de uma audiência gigantesca, tanto a plateia que lotava o estúdio da TV Tupi quanto aqueles que assistiam o programa pela TV, defendia a ditadura militar e o AI-5, a repressiva ferramenta do regime ditatorial que permitiu a violência de órgãos como o DOI-CODI. Segundo Chico Xavier, o AI-5 era “necessário para combater o caos existente no Brasil”. “Caos” é um eufemismo que a direita define como os protestos populares contra os abusos do poder político e econômico.

Segundo Chico Xavier, o ideal era que os brasileiros “orassem em favor dos militares”, que estavam fazendo do Brasil “um reino de amor do futuro”. Ou seja, um “reino de amor” construído sob rios de sangue de muitos inocentes. Por associação, podemos dizer que, entre os que eram apoiados por Chico Xavier neste apelo, estavam o delegado Sérgio Paranhos Fleury e o temível coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, exaltado por Jair Bolsonaro. O sadismo de Ustra era tanto que ele, além de agredir, com próprios punho e voz (dada a fazer ironias violentas), os presos políticos, ele chamava crianças para assistir às sessões de tortura.

Mas o que chama mais ainda a atenção é que, em 1972, um ano após o Pinga Fogo, Chico Xavier recebeu um convite da Escola Superior de Guerra para fazer palestras e receber um título honorário. E o “médium” aceitou comparecer a esse evento, sendo efusivamente homenageado e retribuindo solenemente às homenagens recebidas.

A cerimônia, que dá fortes indícios de que Chico Xavier teria colaborado com a ditadura militar – lembremos que não é impossível uma personalidade religiosa manifestar apoio a regimes opressivos – foi abafado por uma tese sem pé nem cabeça: a de que o “médium” teria “apoiado a ditadura militar” para salvar a própria pele e proteger o “movimento espírita”. O apoio, segundo um dos acadêmicos complacentes, Ronaldo Terra, seria “fruto da santidade do médium”, uma teoria que este autor não teve condições de explicar de maneira lógica e esclarecedora.

Afinal, a homenagem da Escola Superior de Guerra, “cérebro” da ditadura militar – ainda na crise de Jânio Quadros em 1961, a “Sorbonne”, como era conhecida a instituição, já expusera sua teoria sobre golpes militares e governos ditatoriais, teses aplicadas três anos depois – , a um ídolo religioso, sugerem que há uma relação de reciprocidade entre “médium” e ditadura, porque ninguém é homenageado à força nem comparece a homenagens a contragosto.

Em primeiro lugar, Chico Xavier deveria sentir horror à palavra “guerra”, se o que seu mito representa fosse verdade. Só isso poderia tê-lo feito recusar as homenagens. Só que não. E, para quem acha que Chico Xavier era humanista, um recado: um humanista verdadeiro nunca prestaria qualquer apoio a opressores, mesmo que seja como forma de sobrevivência. É preferível, para um humanista, se sacrificar em prol dos oprimidos. O próprio Jesus Cristo é exemplo disso. E, se um humanista quisesse salvar a própria pele, não apoiaria a ditadura, ele iria para o exílio. Chico Xavier ficou no Brasil.

Chico Xavier também demonstrou ser aliado do coronelismo que detinha o poder no Triângulo Mineiro, região onde fica cidades como Uberaba, onde o “médium” viveu suas últimas décadas, e Uberlândia. A obra doutrinária do “médium” defendia aspectos que se identificam com a precarização do trabalho, inclusive o trabalho exaustivo. Há também indícios de racismo e machismo em Chico Xavier, como se pode observar no link do Charlatanismo Espírita descrito aqui.

A complacência das pessoas ignora que Chico Xavier é um reacionário por conta de suas raízes sociais, de sua formação familiar e religiosa e mesmo nas ideias que ele, por gosto, defendeu até o fim da vida. Não há indícios de que Chico Xavier se arrependeu do apoio à ditadura militar e ele nem apoiou campanhas de redemocratização. Ele apenas acreditava que a ditadura acabou por “vontade de Deus”.

Chico Xavier também foi um dos anti-petistas de primeira hora, manifestando horror em ver o Brasil ser presidido por Luís Inácio Lula da Silva, pelos mesmos argumentos da atriz Regina Duarte. O “médium” apoiou Fernando Collor em 1989 e, nos últimos anos de vida, demonstrou entusiasmo pela figura de Aécio Neves, ao ser visitado pelo tucano mineiro.

O conservadorismo de Chico Xavier salta aos olhos. Supor uma imagem “progressista” de Chico Xavier é como comprar briga com a realidade. Os esquerdistas que apreciam o “médium” precisam explicar o tempo todo suas posições, cheias de aspectos contraditórios. Em compensação, os direitistas, inclusive bolsonaristas, se sentem mais tranquilos em apoiar Chico Xavier, não precisando dar explicação alguma, porque a identificação com ele se demonstra clara e óbvia. O “médium” foi uma das maiores figuras do conservadorismo religioso do Brasil. Cabe a uma parcela de seguidores sair do mundo da fantasia e admitirem isso.

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