O assassinato de Henry Borel e o mito do amor materno. Por Sara Vivacqua

Henry Borel e a mãe Monique Medeiros

Henry Borel pediu socorro.

Ele falou para sua mãe, dentro da compreensão e gramática que cabem a uma criança de 4 anos, o que estava acontecendo em casa.

Falou por diversas vezes, a várias pessoas.

A sua imagem final, enviada pela baba à mãe, refuta dúvidas e é gráfica: ele, visívelmente machucado nas pernas e cabeça, apavorado e encolhido no colo da babá segurando a sua mão.

Imóvel.

A barbárie cometida contra ele nao é compreensível sequer a nós, como seria para ele?

Henry tinha acabado de ser trancado no quarto e espancado ao som de desenho animado na televisão no volume máximo.

Um crime distópico, semelhante a uma cena de “Laranja Mecânica” em que delinquentes juvenis invadem uma casa e torturam pessoas ao som de “Cantando na chuva“.

Dr. Jairinho, horas depois de assassinar o garoto, é entregado pela vaidade no espelho do elevador, onde deixa transparecer um sorriso de satisfação e orgulho.

Deve ter se sentido como num ritual de passagem de moço a homem na cultura miliciana do Rio. Dr Jairinho, filho do “Coronel” Jairo, miliciano e torturador de jornalistas, agora torturador por mérito próprio.

A mãe, Monique Medeiros, encontrava-se num shopping enquanto a babá enviou mensagens relatando os abusos.

Ela se mostra mais motivada em criar um flagrante com câmaras ocultas para confrontar Jairinho num próximo espancamento do que salvar o filho.

Ou talvez apenas fingisse indignação, pois no seu projeto de ascensão social, o que lhe ocorria era oferecer uma compensação ao filho pelo dano sofrido: “Eu mando um über para ele ir agora na brinquedoteca”.

O caso bárbaro do menino Henry, do menino Bernardo, da menina Isabella Nardoni e tantos outros é muito mais de ordem social que legal.

Para o direito, Monique não é cúmplice, é autora.

Homicídio por omissão por ser garante do filho. Omitir nao é mera negligência, é uma escolha ativa, e a lei pune da mesma forma que a comissão.

À polícia, tentou proteger o algoz de Henry no depoimento. Postou uma selfie na delegacia em que aparece sorridente, com os pés sobre uma cadeira, ao lado de um homem.

Mas é melhor punir os culpados ou salvar as crianças?

Monique era a mãe, o miliciano um desconhecido que abusou da criança por meses com o total conhecimento dela.

O amor de mãe é um mito que precisa sair da esfera do tabu e abrir um debate que ainda é pobre no Brasil. As escolas, os pais e nós como sociedade deveríamos estar mais preparados para acolher os pequenos.

Amar não é criar e satisfazer necessidades. Henry estaria vivo se soubéssemos ouvi-lo, apenas isso.

Escutar as crianças, quem elas são, o que têm a dizer, e a partir do seu próprio mundo e própria voz e ajuda-las a encontrar um lugar no mundo não é tarefa apenas dos pais, mas de um país.

Monique Medeiros em selfie tirada na delegacia em dia de depoimento. Foto foi achada pela polícia no celular dela

O jornalismo do DCM precisa de você para continuar marcando ponto na vida nacional. Faça doação para o site. Sua colaboração é fundamental para seguirmos combatendo o bom combate com a independência que você conhece. A partir de R$ 10, você pode fazer a diferença. Muito Obrigado!