‘Entrevista com Escritores Mortos’ 21: Charles Dickens

O assassinato de Thomas Becket na Catedral de Canterbury

Em sua História da Inglaterra para Crianças, Dickens guarda um capítulo especial para o episódio de Henrique II e Thomas Becket, melhores amigos na juventude e inimigos mortais na vida adulta. Morto há 842 anos Becket é considerado um santo e mártir pela Igreja Católica e Anglicana. Para falar desse assunto Dickens é nosso convidado para a série Conversas com Escritores Mortos.

Charlie, o senhor escreveu sobre o reinado de todos os reis ingleses desde Guilherme I até Jaime II. Tais textos estão presentes na sua História da Inglaterra, e uma das histórias mais interessantes é a de Henrique II. O senhor poderia contá-la para nós?

Henrique II, da Casa Plantageneta, tornou-se rei aos vinte e um anos de idade, coroado em Winchester. Ele havia se casado há pouco tempo com Eleanor, a duquesa da Aquitânia. Seu reinado começou muito bem. O rei tinha inúmeras posses e, levando-se em conta o que era dele e o que era de Eleanor, sua esposa, era senhor de um terço da França. Ele era um jovem vigoroso, habilidoso e intrépido, que imediatamente tomou medidas para remover alguns dos males que atingiram forte e brutalmente a Inglaterra durante a longa guerra civil entre Estevão e Matilda.

Que males?

Durante o último reinado, o clero “adoecera”. Entre os clérigos, havia todo tipo de criminais – assassinos, ladrões e vagabundos; e o pior era que os bons padres não entregavam os maus para a justiça quando estes cometiam crimes, mas insistiam em abrigá-los e defendê-los.

Quais foram as medidas tomadas por Henrique?

Em primeiro lugar, ele sabia que a Inglaterra não teria paz enquanto essa sofrível situação se estendesse, e resolveu reduzir o poder do clero. A oportunidade perfeita surgiu com a morte do Arcebispo de Canterbury. “Eu vou”, pensou o rei, “apontar como Arcebispo um amigo confiável, e ele me ajudará a render os padres insubordinados e a lidar com eles”.

Que amigo?

Vou lhe contar uma pequena história. Um mercador de Londres, chamado Gilbert Becket, foi fazer uma peregrinação na Terra Santa, e foi tomado como prisioneiro por um nobre sarraceno. Esse nobre tinha uma bela filha, que se apaixonou pelo mercador e disse que se tornaria cristã para desposá-lo. Gilbert conseguiu escapar, e logo esqueceu a dama sarracena. Ela, que estava bem mais apaixonada do que ele, fugiu de casa e embarcou para a Inglaterra, sabendo falar duas palavras em inglês: “Londres” e “Gilbert”. Pois bem, de alguma maneira a dama sarracena conseguiu encontrar seu amado. Ele, um homem bom e íntegro, enterneceu-se com a constância da moça e se casou com ela. Esse mercador e sua dama sarracena tiveram um filho, Thomas Becket, que tornou-se favorito do rei.

Ele foi a escolha para Arcebispo, então?

Exatamente. Henrique II pensou que, sendo Thomas Becket seu amigo, seria a escolha mais adequada, pois poderia ajudá-lo a corrigir o que havia de errado na Igreja.

Como era a personalidade de Thomas Becket?

Becket era um homem orgulhoso que amava a popularidade. Ele já era famoso pela pompa com a qual conduzia sua vida, suas riquezas, suas lâminas de ouro e de prata, seus cavalos e seus criados. Ele não poderia ser mais ostensivo do que era, de modo que cansou-se desse tipo de fama (que é realmente medíocre) e decidiu que seu nome deveria ser celebrado por outra coisa; renegou seus seguidores milionários, passou a se alimentar de comida inferior, a beber água amarga, a usar uma linhagem suja, a açoitar suas costas para se punir e a levar os pés de treze miseráveis todos os dias.

Qual foi o motivo dessa mudança?

Tédio, talvez. Ou quem sabe Thomas Becket tivesse um ressentimento secreto contra o rei – até onde eu sei, Henrique pode tê-lo ofendido. É uma coisa bastante comum para os reis, príncipes e o restante da realeza, testar de modo bem severo o temperamento de seus favoritos.

A mudança de comportamento de seu favorito enfureceu o rei Henrique?

De fato, e sua fúria aumentou drasticamente quando o novo Arcebispo reivindicou várias propriedades dos nobres como propriedade da Igreja. Pefiu também que o rei, pelo mesmo motivo, cedesse o Castelo de Rochester e a própria cidade de Rochester. Posteriormente, o rei ordenou que os clérigos criminosos fossem julgados na mesma corte que os criminosos comuns. O Arcebispo, no entanto, recusou. Para piorar a situação, Henrique II decidiu coroar, insensatamente, seu herdeiro, Henrique. Becket foi contrário à coroação, afirmando que é imprudente anunciar um novo rei e não conceder-lhe poder, porque o antigo ainda reina.

Imagino que Henrique tenha contra-atacado. Que medidas foram usadas para conter o Arcebispo?

Henrique o convocou para uma assembleia em Northampton, sob acusação de alta traição. Becket foi aconselhado a abandonar seu cargo e a rixa com o rei. Pouco antes da assembleia, passou dois dias inteiros na cama, com febre. Compareceu apesar disso, carregando uma cruz de madeira na mão direita. O rei foi embora imediatamente e teve mais um de seus ataques de raiva. Todos os nobres o seguiram, mas Becket não se movimentou. Seu julgamento precedeu sem sua presença e, por fim, o Conde de Leicester apareceu para ler sua sentença. Becket recusou-se a ouvi-la, negando o poder da corte e indo embora.

E a briga continuou…

Sim. O rei confiscou todas as posses do Arcebispo e baniu todos os servos e conhecidos de Thomas Becket, cerca de quatrocentas pessoas. Becket, por sua vez, foi protegido pelo Papa e pelo rei da França, que lhe deram, como moradia, uma abadia. Estimulado por esse suporte, Becket, em um festival, subiu no púlpito, entre a multidão, e amaldiçoou e excomungou publicamente todos os que apoiaram a Constituição de Clarendon, que limitava os poderes do clero. Mencionou os nomes de vários nobres ingleses. O rei compreendeu a mensagem indireta.

Imagino que tenha tido mais uma de suas crises.

Conta-se que ficou tão furioso que rasgou suas roupas e se jogou no chão como um louco.

E qual o desfecho da história?

Louco de raiva com as afrontas de seu antigo favorito e atual inimigo, na presença de quatro de seus cavaleiros o rei exclamou: “Malditos sejam todos os falsos escudeiros que tenho sustentado. Eles me deixaram por muito tempo exposto à insolência desse clérigo e não fizeram nada a fim de livrar-me dele!” Os cavalheiros, é claro, entenderam aquilo como uma ordem e mataram Becket em uma catedral.

Como o rei reagiu?

Henrique II ficou mortificado. Ele era temperamental, mas não cruel. Além disso, era um homem muito inteligente, e logou notou que, como todos estavam chamando Thomas Becket de mártir, a cristandade ficaria chocada com o crime e o papa poderia voltar-se contra ele. Conseguiu aplacá-lo ao ordenar que os quatro assassinos fossem expulsos da Inglaterra. As consequências não o atingiram em larga escala, mas deixaram-no fortemente abalado.