O Baile da Ilha Fiscal da Abril: “festança” enquanto funcionários demitidos não recebem indenização. Por Miguel Enriquez

Festa da Veja SP 30 dias após a demissão de 800 pessoas

POR MIGUEL ENRIQUEZ

No dia 9 de novembro de 1889, a Corte Imperial brasileira promoveu uma grande e luxuosa festa para 4 500 convidados, no Rio de Janeiro, para celebrar as bodas de prata da princesa Isabel e de seu marido, o Conde D’Eu, além de homenagear os oficiais do navio chileno “Almirante Cochrane”, ancorado há duas semanas, na Baía de Guanabara.

Cercado de luxo e abastecido com iguarias e bebidas finas, o evento  passou para a História como o Baile da Ilha Fiscal, o último do gênero patrocinado pelo imperador Dom Pedro II.

Seis dias depois, um golpe de estado, comandado pelo Marechal Deodoro da Fonseca, decretava o fim do Império, proclamando a República.

Na última quinta feira, 20 de setembro, o império em ruínas do grupo Abril, celebrou um arremedo a posteriori do Baile da Ilha Fiscal.

Trinta dias após recorrer a um pedido de recuperação judicial, precedido do fechamento de 11 publicações e da demissão de mais de 800 funcionários, a empresa da família Civita não teve o menor pudor em comemorar em grande estilo o lançamento da edição Comer & Beber 2018, da Veja São Paulo, na Casa Charlô, no bairro do Itaim Bibi, na capital paulista.

Como se nada tivesse ocorrido, como se o grupo ainda vivesse em seus momentos de fastígio e sem a menor consideração pelas centenas de colegas colocados recentemente no olho da rua, a comemoração foi escancarada no site.

A coisa também aconteceu nas edições regionais que ainda não fecharam, como Rio e Brasília.

No Facebook, o diretor da revista, o jornalista Raul Lores, comemorou. 

“A grande festa gastronômica da Cidade! Comer e Beber da Vejinha 2018. Festança”, postou Lores, que aparece sorridente abraçado ao mestre de cerimônias Zeca Camargo e a demais convidados em fotos e vídeo.

No dia 14 passado, mais de 300 funcionários demitidos haviam realizado uma concentração de protesto em frente ao parque gráfico da Abril, na Marginal do Tietê.

Aos gritos de “paga Civita” e “Gianca, cadê o meu dinheiro”, numa referência a Giancarlo Civita, herdeiro e presidente afastado do grupo, eles exprimiam sua indignação quanto ao tratamento recebido dos ex-patrões.

Indignação, diga-se, compartilhada pelos remanescentes das publicações da Abril, que participaram de uma manifestação de solidariedade no térreo da nova sede do grupo, no bairro do Morumbi.

Em particular, uma das causas da indignação foi a decisão da casa de não efetuar o pagamento da multa de 40% do FGTS devidos em caso de demissão e de incluir as verbas rescisórias no processo de recuperação judicial, o que joga para as calendas o recebimento do que lhes é devido.

Aos 800 demitidos em agosto, se somam cerca de 700 exonerados em dezembro do ano passado, que tiveram parcelados em 10 prestações mensais o recebimento de suas indenizações, que também caíram na vala comum da recuperação judicial.

Ao todo, a empresa deve aos desempregados, contingente que inclui jornalistas, gráficos, publicitários e funcionários administrativos, entre outras categorias, estimados R$ 128 milhões, o equivalente a 8% da dívida submetida à recuperação judicial.

“Queremos que eles comprem nossos créditos e assumam nosso lugar na lista de credores”, afirmou uma das líderes do protesto, a jornalista Patrícia Zaidan. “Nós não somos credores, somos trabalhadores.”

Os ex-funcionários, muitos deles com mais de 20 anos de serviços prestados ao grupo, não se conformam com a indiferença dos Civitas quanto à sua sorte.

Para eles, Giancarlo e seus irmãos Victor e Roberto poderiam tranquilamente bancar a dívida trabalhista, que representa pouco mais de 1% de sua fortuna, avaliada em R$ 10 bilhões pela revista Forbes.

“Os caras têm bilhões, estão entre os mais ricos do Brasil”, disse outro manifestante, Bruno Favoretto, ex-editor da revista Viagem e Turismo, com 12 anos de casa. “Quer dizer, o lucro é deles, mas o prejuízo não. É legal ser rico assim no país.”

Festa da Veja São Paulo após a demissão de 800 pessoas (FOTOS Romero Cruz/Veja SP)
Zeca Camargo

 

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