O blablablá demagógico no caso Kevin Espada

A discussão sobre a pena do Corinthians não está levando ao aprendizado que deveria.

kevin

Tenho lido e ouvido muita coisa acerca do acontecido com Kevin no jogo entre Corinthians e San Jose. Pouca coisa, no entanto, parece ser mais que blábláblá demagógico.

Hoje, por exemplo, ouvi no rádio mais uma falácia sobre a nossa suposta indulgência com os menores de idade – que deveriam ser tratados com mais dureza, sofrer pena como adulto. Isso me lembra aquelas pessoas que num passeio ao parque ficam nervosas com as crianças ao lado, como se nunca tivessem sido crianças.

A menoridade penal justamente serve para permitir que a criança seja criança. Que erre e que seja cuidada e não punida. Com dezessete anos, eu não sabia o que estava fazendo – e tive boa educação. Por quo o menino que diz ter atirado o sinalizador deveria saber? Claro, nada que eu fiz quando adolescente resultou em morte, mas ao mesmo tempo quem disse que por um segundo, por um centímetro, não poderia ter resultado? Tenho certeza que poderia.

Vejo também gente duvidando que tenha sido o menino. “Colocaram um laranja só porquê é menor”. Pode ser. Não afirmo que não. Mas é bom lembrar que absolutamente nenhuma lei divina impede que tenha sido ele. Que tal esperar as investigações antes de lançar teses em torno do suposto uso de laranja?

Criminalizar os “hooligans brasileiros”, seguir o exemplo da Inglaterra, que conseguiu tirá-los dos estádios, também tem sido muito falado. Justo. É o ideal mesmo.

Mas antes de qualquer coisa, vamos lembrar que agressão dentro ou fora do estádio é crime. Qualquer ato de violência é criminoso. Mas os atos de violência “moderada” não têm punição de fato no Brasil. Mas não é óbvio? Quando você tem cadeias superlotadas de assassinos, gângsteres, pedófilos, traficantes, como se pode pensar em prender um cara que deu um pé do ouvido no outro? Você acaba estabelecendo prioridades. Se houvesse uma vaga, quem você escolheria para colocar na cadeia: um traficante de drogas responsável por uma centena de mortes ou um torcedor nervosinho?

Então, para começar a falar em punição para torcedores, precisamos falar em fazer mais presídios e melhorar as condições da Polícia. Depois a gente começa a prender esses caras. A segurança nas ruas é mais importante que nos estádios.

Por fim, não sei dizer se acho a punição ao Corinthians justa ou não. Sei que acho egoísta essa história do advogado do clube tentar convencer que o time não tem nada com isso. O time realmente não é culpado, tal como os outros torcedores não são. Mas às vezes deixa de ser uma questão de justiça pura e simples, “um olho por um olho, um dente por um dente” e se torna uma questão moral. É dizer “eu me importo mais com a morte do menino do que com o jogo”.

O problema é que a gente se importa mais com o jogo.

O jornalismo do DCM precisa de você para continuar marcando ponto na vida nacional. Faça doação para o site. Sua colaboração é fundamental para seguirmos combatendo o bom combate com a independência que você conhece. A partir de R$ 10, você pode fazer a diferença. Muito Obrigado!

Compartilhar
Artigo anterior“A homossexualidade é uma bomba relógio na igreja”
Próximo artigoO vale tudo da imigração ilegal na Europa
Emir Ruivo é músico e produtor formado em Projeto Para Indústria Fonográfica na Point Blank London. Produziu algumas dezenas de álbuns e algumas centenas de singles. Com sua banda, Aurélios, possui dois álbuns lançados pela gravadora Atração. Seu último trabalho pode ser visto no seguinte endereço: http://www.youtube.com/watch?v=dFjmeJKiaWQ