O Bonequinho Viu. Por Miguel Paiva

Originalmente publicado em JORNALISTAS PELA DEMOCRACIA

Por Miguel Paiva

É um filme longo, mas não um daqueles filmes cabeçudos apesar de já durar mais de 2 anos. A propaganda já prometia um filme de ação violento, com efeitos dúbios e atores da pior qualidade. Não houve propaganda enganosa para Governo Bolsonaro, uma película nacional produzida na esteira do desmonte do cenário cultural brasileiro. Pagou ingresso quem quis e acabamos tendo que aguentar este blockbuster precário enchendo nossos olhos e ouvidos de idiotices e cenas horrendas por este tempo todo.

O enredo, apesar de primário e previsível, consegue surpreender com cenas violentas e baratas. Os atores envolvidos são sempre os mesmos e parece que foram formados em artes marciais, jamais em artes cênicas. O diretor gosta disso e repete ad nauseum as cenas com esses intérpretes. Protagonistas mesmos são poucos. O personagem do presidente, alguns ministros e assessores. As mulheres têm papeis secundários, quase não aparecem em cenas importantes e são usadas como elenco de apoio para os protagonistas ofenderem e maltratarem seus personagens.

O filme peca em copiar cenas de outros filmes que já fizeram época como os que relatam o fascismo na Itália e o nazismo na Alemanha. Essas cenas reproduzem manifestações com tochas, desfiles de motocicletas, passeios a cavalo, estilos de penteados e bravatas típicas dos protagonistas daqueles filmes.

O público, cada dia menor, parece que gosta. Aplaude e grita em cena aberta, mas isso cada vez vem acontecendo menos. São espectadores fanáticos que se manifestam aos berros com gestos violentos em defesa de seus ídolos da tela.

As cópias já estão deixando a desejar. Estão sem cor, com o áudio desgastado e geram interrupções constantes nas projeções. Mas o público que acompanha parece não se importar. Está diminuindo, é fato, mas os produtores decidiram não cobrar mais ingresso para ver se mantém o público nos locais.

Em resumo, o filme é muito ruim, os atores péssimos, a fotografia lamentável, a trilha sonora da pior qualidade e a direção amadorística. O filme foi condenado pela OMS, pela ONU e por todas as entidades democráticas do mundo. Como somos contra a censura deixamos que o filme continue sendo exibido livremente. Que seja o próprio público a determinar o fim da sua carreira.

Filmes como este cairão no esquecimento como os filmes estrelados pelo ex-presidente americano Ronald Reagan quando era ator. Alguém lembra de algum? Pois é, ninguém lembrará deste filme também como uma forma de arte, mas sim como uma manifestação desesperada e violenta de fascismo que o tempo apagará

dos cartazes e manterá, porém, vivo na nosso lembrança democrática como o que não devemos assistir nem dar crédito.

Um dia, quem sabe, numa sessão da tarde da vida poderemos rever estas imagens e comentar, caramba, que tempos, que filme, que atores horrendos!

A arte há de resistir a estes atentados. Tenho certeza disso.