O Brasil está preparado para enfrentar o golpismo? Por Moisés Mendes

Atualizado em 16 de agosto de 2026 às 17:14
Presidente Lula acenando para apoiadores durante o primeiro ato de sua campanha à reeleição. Foto: Divulgação

A partir deste domingo, 16 de agosto, faltarão 70 dias para o segundo turno das eleições deste ano. Já no dia 26 de outubro, uma segunda-feira, começaremos a saber o que nos espera.

Vamos imaginar, pelo que indicam as pesquisas e pelo temor da maioria em relação à hipótese de retorno da família Bolsonaro ao poder, que Lula seja reeleito. Imaginemos que um dado considerado decisivo hoje, muito mais do que já foi, que é a composição do Senado, seja favorável a Lula e à democracia.

Imaginemos que a direita antilulista e a extrema direita não consigam controlar o Senado e que a composição da Câmara dos Deputados, se não ampliar as cadeiras das esquerdas, pelo menos não mostre expansão dos grupos do antilulismo. E que as eleições nos Estados nos tragam um cenário melhor do que o que temos hoje.

No 71º dia, a contar deste domingo, o Brasil nos dirá qual será o humor dos derrotados, o tom das manifestações públicas, os possíveis questionamentos dos resultados da eleição e a postura de Trump e da vizinhança, incluindo o fascista-vigarista Javier Milei.

Ninguém se esqueceu do que aconteceu dias depois do segundo turno de 2022, em 30 de outubro. Rodovias foram bloqueadas, torres de energia sofreram atentados, a sede da Polícia Federal em Brasília foi ameaçada de invasão, armaram um plano de atentado a bomba no aeroporto da capital, apenas uma semana antes da posse de Lula, e formaram acampamentos golpistas diante dos quartéis.

Do dia 30 de outubro de 2022 ao dia 8 de janeiro de 2023, foram 70 dias, o mesmo número de dias que nos separa do segundo turno hoje. Repita-se: no dia 8 de janeiro, mais de dois meses depois da eleição de Lula, invadiram Brasília, enquanto Bolsonaro já estava há oito dias escondido nos Estados Unidos.

Invasão de manifestantes bolsonaristas à Praça dos Três Poderes, em Brasília. Foto: Divulgação

Depois da eleição de Lula, continuaram tramando o golpe, o derrotado fugiu do país em um avião da FAB, os manés entenderam que poderiam seguir em frente, os prédios dos Três Poderes foram depredados e mais de 2 mil pessoas acabaram presas nos dias 8 e 9.

Treze dias depois da eleição de Lula, o general Braga Netto reuniu oficiais kids pretos em sua casa e acertou a participação de uma tropa de elite no plano que, entre outras missões, deveria matar Lula, Alckmin e Alexandre de Moraes. Cinco dias depois dessa reunião, disse a golpistas aglomerados no Alvorada que era preciso ter fé.

O que acontecerá daqui a 71 dias, como início de uma possível reação dos vencidos, como aconteceu entre o final de 2022 e o início de 2023? Não é uma dúvida qualquer. Não é uma pergunta retórica.

O que acontecerá no Brasil, a partir de 26 de outubro, com Lula vitorioso, com Bolsonaro em prisão domiciliar e ainda mais fragilizado politicamente, com Flávio sem mandato e com Eduardo foragido e diante da possibilidade de derrota de Trump nas eleições parlamentares americanas de 3 de novembro?

Vamos nos perguntar, sem fugir da mais inquietante de todas as interrogações: estaremos este ano mais preparados do que em 2022 e 2023 para enfrentar a reação dos derrotados da estrutura do bolsonarismo e mais a ira e a sabotagem da velha direita antilulista, da Globo e da Faria Lima?

Uma trama está sendo articulada pela extrema direita e deve ter, depois da eleição deste ano, surpresas e inovações que o fascismo vem testando a partir das ações de Trump pelo mundo.

O nosso déficit de cidadania de 2022 e 2023, que deixou quase tudo para que Lula e Alexandre de Moraes resolvessem, vai se repetir em 2026? A metade do Brasil que aposta em Lula pode estar pronta pra mais. A outra metade deles também. Faltam 70 dias.

Moisés Mendes
Moisés Mendes é jornalista em Porto Alegre, autor de “Todos querem ser Mujica” (Editora Diadorim) - https://www.blogdomoisesmendes.com.br/