
A ex-ministra do planejamento do governo Lula e pré-candidata ao Senado Federal por São Paulo, Simone Tebet, falou ao DCMTV sobre os desafios do pleito eleitoral, sua admiração por Lula, sobre o fim da Escala 6×1, sobre o enfrentamento à extrema-direita e a disputa para o Senado. Confira trechos da entrevista:
2026 É MAIS DESAFIADOR
Esse ano é mais desafiador que 2022 e estas serão as eleições mais importantes das nossas vidas desde a redemocratização, não só para elegermos ou não um democrata para termos segurança do funcionamento pleno das instituições, mas temos também a grande responsabilidade de recompor o Congresso Nacional esse ano.
Dois terços do Senado serão renovados. E o Senado que é a grande Casa revisora da República, que dá a palavra final muitas vezes em rompantes antidemocráticos e retrocessos civilizatórios. E esse Senado foi tomado nas últimas eleições por um terço por parlamentares radicais, reacionários, gente de pauta sectária e extremados. Esses que vão ficar agora são em grande parte da extrema-direita, se perdermos a maioria desses dois terços entraremos em uma seara muito difícil nas nossas vidas, seja em pauta ambiental, de direitos humanos, liberdade de expressão e só por aí 2026 será o mais desafiador.
O que me deixa um pouco mais preocupada é que em 2022 eu já sabia onde estaria no segundo turno, pois tínhamos uma frente ampla que se deslocou pro lado certo da história – ainda que eu considere que de forma covarde o 4º [Ciro Gomes] e 5º lugar [Soraya Troniche] de forma absolutamente covarde tenham se omitido. Em 2026, não temos esse cenário: não há nenhum candidato que sinalize qualquer movimento para o campo progressista em um eventual segundo turno.
Andei rodando por São Paulo e por todo o Brasil e há um cansaço absoluto com esse formato do discurso de ódio e retrocessos, há esse perde-perde para a população e que para além desse discurso não colocam comida na mesa do povo. A minha expectativa é que esse grupo de eleitores independentes, possam através da verdade, de ser o diferencial para que a gente possa mostrar como é importante vencer o fascismo, o autoritarismo e o movimento antidemocrático que podem se acomodar no Brasil.
A minha futura candidatura ao Senado Federal não só é importante para eleição presidencial, afinal de contas, São Paulo tem 1|4 do eleitorado brasileiro, mas, se São Paulo vai bem, o Brasil vai bem.
Em clima de Copa do Mundo, falarei de um time de cinco nomes de excelência para São Paulo, que foi escalado pelo presidente Lula. São cinco lideranças que já foram candidatos à presidência da República, ou governadores de Estado ou Ministro de Estado ou até tudo isso junto e misturado. Falo de Fernando Haddad, Geraldo Alckmin, Marina Silva, Márcio França e eu, modestamente, me apresentando aqui do banco de reservas desse time e me somando a todos eles.
São cinco grandes vozes, cada um da sua área falando para o Brasil e para São Paulo sobre tudo que se precisa saber. Em meses você destrói uma nação que depois leva anos para construir e para isso precisamos melhorar nossa comunicação, que é um grande erro desse nosso governo, que tem feito coisas incríveis, mas precisa saber comunicar.
FLÁVIO BOLSONARO E A FOTO COM TRUMP
Minha opinião sincera é que aquela foto e nada é a mesma coisa. Não vai mudar tabuleiro nem ponteiro de pesquisa para lá ou para cá. Uma atitude desesperada de alguém que foi pego com a boca na botija do maior escândalo de corrupção envolvendo o mercado financeiro da história do Brasil.
Alguém que tem áudio, mensagem, confissão, mentira envolvida e que no mínimo tinha que estar no conselho de ética do Senado federal, não porque é presidenciável, mas sim porque é um senador da república e mentiu sobre uma questão séria sobre um dinheiro que é sim público, destinado para investimentos privados. Tem que ser investigado por evasão de divisas, lavagem de dinheiro e todos os crimes de ordem financeira.
A suspeita sobre o Flávio Bolsonaro é muito grande desde sua passagem pela Alerj, que vem das rachadinhas, compra de patrimônio e imóveis com possibilidade de lavagem de dinheiro com a franquia da loja de chocolates, enfim. Não se pode dar uma caneta na mão de alguém que tem tantas suspeitas sobre tantas denúncias.
IDH DO BRASIL
Fomos considerados pela ONU em IDH pela primeira vez com índices muito altos. Isso tem a ver muito com as políticas sociais e suor na política pública. Expectativa de vida, escola e diminuição de desigualdade social em aspecto de renda são os principais fatores. O que gera isso são coisas como o SUS, valorização do salário mínimo acima do índice de inflação, acesso à universidade, pleno emprego e programas como o pé-de-meia e isso prova que quando o governo se importa com as pessoas e não deixa ninguém para trás, a gente consegue mudar a vida de um país.
BOLSA-FAMÍLIA
Eu não quero polemizar sobre a fala do Luciano Huck, mas acho que ele foi extremamente equivocado. Isso remete à questão do tripé macroeconômico. Quando foi que o mercado passou a fazer parte dessa análise? O mercado foi aos poucos entrando como um quarto elemento no lugar do que deveria ser o setor econômico – setor produtivo, que vai da agricultura à indústria, comércio e serviços e esses perderam sua voz.
Não estou desmerecendo o mercado financeiro, ele tem seu papel, mas não pode ter ingerência na política conduzindo narrativas e pautas, especialmente de forma tão míope. Não existe fiscalismo sem alma, precisamos ter dinheiro para políticas públicas, eficiência da máquina pública e dos gastos públicos, mas não pode ser para enriquecer um que outro, é para usar a justiça fiscal com a finalidade de reinvestir onde precisa.
Não acho que devemos perder tempo tentando virar voto de gente da Faria Lima que não votaria em nós e sim focar em quem a gente pode virar esse voto, que tenha sensibilidade.
PRECONCEITO COM LULA
Há setores que ainda mantêm preconceito com o presidente Lula e nem param para ouvir o que ele tem para dizer. Isso é muito triste.
O presidente Lula me fez uma das maiores homenagens que eu tive na minha vida quando me pediu para vir para São Paulo. Eu falei: “Presidente, é um cavalo de pau que eu tenho que dar. Tem tantas pessoas aí. Acho que não sou eu, não sei se o meu papel é esse”. Questionei algumas coisas e disse: “Eu sou uma pessoa de centro”.
E ele respondeu: “Mas eu preciso dessa cara de centro falando com São Paulo”. Eu retruquei: “Eu tenho que mudar de partido, meu partido não vai aceitar. Tenho que mudar de domicílio eleitoral. É deixar minha família de novo”. Eu estava pronta para voltar para casa depois de quase 12 anos em Brasília, vivendo muito sozinha, muito isolada.
Então ele virou para mim e disse: “Simone, você tem uma coisa que poucos políticos têm e que a gente não encontra mais. Você tem caráter”. Isso me impactou muito, porque nunca ninguém tinha me dito isso dessa forma, embora eu ache que tenha mesmo. Acho que é algo que aprendi com meu pai. O presidente Lula é muito verdadeiro. As pessoas podem não concordar com a política econômica, podem até não votar nele, mas esse tipo de preconceito me incomoda muito.
Tudo isso para dizer que é muito difícil lidar com determinados setores. Martin Luther King tinha uma frase brilhante quando falou sobre o apartheid e as leis que impediam matar uma pessoa pela cor da pele. Ele disse: “A lei pode muito, mas ela não pode mudar o coração das pessoas”. Lamentavelmente, é isso que eu vejo.

CORRIDA AO SENADO DE SP
A pergunta que me fizeram era exatamente sobre a possibilidade de existirem três nomes do campo progressista para o Senado em São Paulo. Eu disse: “Olha, não há possibilidade de o campo progressista lançar três nomes para o Senado em São Paulo”. Eu, Marina [Silva] e Márcio [França] temos consciência de que o projeto maior é o país que nós queremos construir, não só para os próximos quatro anos, mas pelo menos para os próximos oito. A eleição de 2026 vai pavimentar as próximas décadas do Brasil.
A demora na definição da chapa atrapalha porque impede a gente de colocar o pé no chão. Eu já estou fazendo minha movimentação, porque esse compromisso já foi assumido com os partidos, mas precisamos saber quem será o companheiro ou companheira de chapa para começar a pré-campanha dentro do que a legislação permite.
A boa notícia é que, desde segunda-feira, as conversas começaram, ainda que nos bastidores. Já existe gente escalada para conversar. É um grupo muito experiente e competente. Nós temos não apenas a suplência em aberto, mas também a vaga de vice do ministro Haddad. Conversei com ele sobre isso e acredito que, nas próximas semanas, teremos uma definição.
A minha ligação com São Paulo é muito profunda. São Paulo sempre acolheu pessoas vindas de todos os lugares do Brasil e do mundo. Eu sou neta de imigrantes libaneses que vieram para o interior paulista. Meu marido é do interior de São Paulo. Eu estudei na PUC-SP e minhas filhas moram aqui há quase dez anos. Tenho uma ligação afetiva, econômica e profissional muito forte com o estado.
Eu lutei por quase 30 anos pela reforma tributária e sempre dialoguei com empresários do interior e da capital sobre a importância da indústria brasileira se tornar mais competitiva. Me sinto confortável em estar aqui, mas com humildade. O eleitor é soberano.
Quando perguntaram sobre a possibilidade de eu ser vice do Haddad, eu disse a ele exatamente o seguinte: “Meu compromisso primeiro é com o presidente Lula. Eu tenho que estar onde posso ajudar mais”. Acho que, para dialogar com setores de centro e centro-direita em São Paulo, eu preciso ser candidata ao Senado.
Dá para dialogar com parte do eleitorado bolsonarista, porque esse é o papel de quem governa para todos. Mas, neste momento, nós não podemos perder tempo com o núcleo mais radical, porque ele representa uma parcela pequena do eleitorado. Precisamos conversar com quem ainda aceita diálogo e está disposto a mudar de opinião.
ADMIRAÇÃO POR LULA
Eu já admirava o presidente Lula antes, mas conviver de perto com ele me fez compreender ainda mais sua dimensão humana. Meu pai deu posse ao presidente Lula no Congresso Nacional. Existe até uma história curiosa da caneta usada na posse. Meu pai acabou perdendo a caneta porque ela virou peça do acervo histórico nacional.
Tem uma fala do presidente Lula que me toca muito. Quando perguntaram se ele acreditava em Deus, ele respondeu que era impossível não acreditar, porque a própria vida dele era um milagre. Ele disse que era fruto do amor de uma mãe. Acho isso extremamente forte e tocante.
A PASSAGEM PELO MINISTÉRIO DO PLANEJAMENTO
Eu sempre defendi a necessidade de planejamento de longo prazo para o Brasil. Uma das minhas maiores frustrações no Ministério do Planejamento foi não conseguir avançar mais nisso, porque tivemos muita coisa urgente para reconstruir. Ainda assim, deixamos estruturado um projeto de planejamento de 25 anos para o país, inspirado em experiências internacionais como China e Índia.
Os juros altos afetam diretamente o planejamento estratégico da indústria, do comércio e da geração de empregos. Eu acho que o Banco Central demorou para começar a reduzir os juros. Nós temos gordura para queimar.
O FIM DA ESCALA 6X1
Sobre o fim da escala 6×1, eu fui uma das primeiras pessoas do governo a defender essa pauta. O Brasil não vai quebrar por causa disso, assim como não quebrou quando ampliou direitos trabalhistas no passado. O trabalhador descansado produz mais, adoece menos e convive melhor com a família.
Claro que alguns setores sentirão mais impacto, especialmente serviços e pequenos negócios. Nesses casos, o Estado precisa entrar com mecanismos de apoio durante a transição.
Existe também um desgaste social muito grande provocado pelo endividamento das famílias e pelo avanço das apostas online. As bets estão destruindo financeiramente muita gente. Isso afeta diretamente a percepção da população sobre o governo.
Comunicar tudo isso é um desafio enorme. Existe um conjunto de fatores políticos, econômicos e culturais que dificultam fazer os avanços do governo chegarem de forma clara para toda a população. Mesmo assim, nós vamos continuar trabalhando, dialogando e enfrentando a desinformação até 2026.