“O Brasil se tornou um país assustador”, diz a organizadora do protesto contra Moro em Portugal. Por Willy Delvalle

Maria Magdala

“Não se imaginava que a justiça brasileira fosse tão parcial, politizada e corrupta”, diz organizadora de protesto contra Moro em Portugal

Ela organizou uma manifestação contra a visita do ministro da Justiça Sérgio Moro em Portugal. Maria Magdala, 51 anos, faz questão de enfatizar que nem sempre foi uma militante ou uma ativista social.

Frente àqueles que, como o presidente da República, tentam desqualificar quem vai às ruas se manifestar contra ele, ela faz ênfase sua formação em administração de empresas na Fundação Getúlio Vargas e especialização em marketing pela Universidade Complutense de Madri.

Nordestina, ela migrou para Portugal há doze anos, onde usou o que aprendeu para fundar a ONG Comunidárias, voltada à defesa dos direitos de migrantes, como ela, que obteve a nacionalidade portuguesa.

Ela conta ao DCM a imagem que o Brasil ganhou depois da ascensão de Bolsonaro e dos ataques que sofreu de bolsonaristas. Denuncia os crimes de boca de urna cometidos por eles em Portugal.

Fala da petição que foi proposta para barrar a entrada de brasileiros fascistas no país, da mobilização dos portugueses contra Moro, da reação das autoridades, semelhanças e diferenças entre Bolsonaro e Salazar e das perspectivas políticas dos dois lados do Atlântico.

DCM – Você ajudou a organizar um protesto contra Sérgio Moro para recepcioná-lo em sua visita nas últimas semanas a Portugal. Como foi a mobilização?

Maria Magdala – Foi algo espontâneo, que foi surgindo com o diálogo no Facebook, mensagens de colegas que conhecíamos há muitos anos em Portugal, amigos portugueses. A iniciativa partiu de amigos de Portugal. A iniciativa veio de portugueses e é bom deixar isso muito claro. Nesse grupo, a única brasileira que estava na formação dos diálogos era eu. A polícia achou que era um manifesto brasileiro. Expliquei que era um manifesto com origem portuguesa, com mais de 60% de portugueses.

Como foi o protesto?

Foi incrível. Apesar da distância dessa universidade, em Estoril, Cascais, só tem acesso por carro. A conferência era num horário laboral. A distância do centro de Lisboa, dos transportes… Inclusive brasileiros que estavam aqui de passagem estiveram presentes. Muito corajosos. Foi um tipo de manifestação diferente das manifestações, sem desvalorizar a importância das outras manifestações. Teve um objeto muito claro, a conferência do Sergio Moro em Portugal, num evento que propagava os direitos humanos. Isso chocou uma grande parte dos organizadores. Vou falar por mim, pois é um grupo espontâneo e informal. O que afetou muito foi o fato de divulgarem dizendo que é uma política de direitos humanos. E que houve também uma conferência um dia antes, por teleconferência, de Guaidó. Eles não deixaram claro que era para a discussão de várias políticas, neoliberais, inclusive políticas ultraliberais. Falaram em humanidade, pessoas que trabalharam com a pobreza, artistas brasileiros… Isso foi o mais chocante. Causou uma surpresa muito grande. O policiamento era imenso, por conta das autoridades que estavam no evento.

O que chocou no fato de Moro falar em direitos humanos?

Porque, além de ele ser um colaborador direto do governo Bolsonaro, que afeta diretamente as várias questões dos direitos humanos. E recentemente foi anunciado o corte na educação. Numa visão dos direitos humanos, o corte na educação é um corte nos direitos humanos. Isso é chocante. Tirando a questão da forma como foi levada a Operação Lava Jato. Um dia antes, foi anunciada uma despesa – que eu não chamo de investimento – de 450 milhões de reais em pistolas. São provas claríssimas da violência, da ameaça, aos ataques aos direitos humanos. A gente sabe que o armamento está sendo incentivado das mais diversas formas no Brasil, é uma violência contra os vários direitos humanos. A homofobia, o conservadorismo, que violam os direitos humanos.

Por que vocês fizeram esse protesto?

Até então, Portugal estava sendo um porto seguro da presença do governo Bolsonaro na Europa. Foi o único país na Europa que o presidente tirou selfie com Bolsonaro. Nenhum dirigente europeu tirou selfie na posse do Bolsonaro. (Muitos) nem foram. E sempre divulgando a ideia de irmandade em Portugal. E sempre a mídia passando a noção de que toda a população portuguesa estava de acordo. Não existia nenhuma visibilidade da outra voz.

E a população portuguesa está de acordo?

Não. Existe uma resistência. Os portugueses têm um trauma também da sua história, de Salazar, do fascismo, de uma ala que viveu isso, que tem medo disso, que não quer ver se repetir no país o avanço desse fascismo. Essa é uma ala que está viva, que viveu o fascismo. Qualquer sinal, ela sente. O povo português não pensa na unanimidade. Já viveu e sabe muito bem o que é o fascismo.

Como repercutiram as manifestações pela educação e em favor de Bolsonaro em Portugal?

Em favor de Bolsonaro, não houve nenhuma repercussão em Portugal. Nenhum grupo de cinco pessoas foi ao Camões, como foi no impeachment da Dilma e em apoio a Bolsonaro antes das presidenciais. Houve grupos que foram lá (na época das eleições), meia dúzia de gente, para a Praça do Camões, se manifestar. Dessa vez, eu acompanhei pelas redes sociais e pela mídia local, e não vi nenhuma manifestação. Foi zero. Foi um silêncio profundo. Não houve manifestação favorável a ele. A contrária, pela educação, sim, houve manifestações locais, outra vez no Largo de Camões, e outras também pelo movimento Lula Livre, com críticas a todo esse processo do Bolsonaro, e contra o fascismo. Mas foi a primeira vez que uma manifestação disse “não” a um representante do Bolsonaro, disse “não” ao Sérgio Moro. Fomos muito fotografados. Ninguém acreditava que fôssemos falar o que falamos. Ficamos mais de quatro horas na porta. Todas as lideranças do país vendo. Da embaixada, vendo. Todo mundo vendo as frases e os gritos. Realmente teve um impacto muito grande.

E o que vocês disseram?

Na verdade a gente não disse. Apesar de existir uma carta aberta, em cinco dias, mostrando repúdio e fazendo boicote a esse evento, que arrecadou 3.200 assinaturas, não sabíamos que ia ter repercussão do manifesto. Não tínhamos expectativa de número de pessoas. A única coisa mais estruturada que existiu foi o do boicote. Na hora, não levamos nenhum discurso ou texto estruturado. Levamos vários cartazes e deixamos as pessoas novas, que viram a divulgação do evento, se aproximarem e se manifestarem da forma como elas quisessem. E foi uma grande surpresa. Pessoas que a gente nunca viu apareceram voluntariamente com cartazes: “Fora Moro”, “Moro fascista”, “Fascismo nem no Brasil nem em Portugal”. Apareceu muito “Lula livre”. Todos os questionando o fascismo. Todos os cartazes eram gritos de guerra, “cala-te”, “cala-te, pá (expressão portuguesa para ‘cara, cala a boca!’)”. Na verdade houve gritos, não discursos. Pessoas sem medo de mostrar sua cara e sua indignação.

Como você avalia a receptividade a Moro e ao governo Bolsonaro por parte do mundo político português?

Eu acho que foi uma surpresa pra ele. Tanto a Ministra da Justiça surpreendeu no debate. Ele não esperava a posição dela e da procuradora geral da República também. Essas duas mulheres, de uma forma ou de outra, surpreenderam. Surpreenderam a ele, não a Portugal. Foi a primeira recepção em que ele foi surpreendido, que não concordaram com a delação premiada. Ambas não mostraram satisfação em relação à delação premiada. Que em Portugal há outros mecanismos. Isto também foi inédito. Antes, já havia tido pressão. Eles foram avisados antes do evento que havia pressão nas redes sociais. Nós pedimos diálogo. Ninguém nos respondeu. Todos os convidados dessa palestra foram avisados que existiria um protesto. Todos foram perguntados, questionados sobre por que estariam numa palestra com Sergio Moro sobre direitos humanos. Eu tenho a impressão que isso já teve um efeito. Já deu um resultado.

Então a ministra da Justiça portuguesa e a procuradora geral da República portuguesa foram críticas a Sérgio Moro?

Houve uma crítica ali inédita. Parecia que tudo ia ser um paraíso, porque até então o discurso em Portugal é o da irmandade, da paz. Só por parte dos movimentos sociais é que existia uma outra vez. Nesse sentido, foi inédito. Uma TV como a TVI, da mídia convencional, grande, local, ter anunciado e reforçado o protesto, aquilo todo mundo viu. Quando eu cheguei em casa, tinha vários recados de pessoas que não estiveram no protesto me dizendo que me viram. Teve uma repercussão midiática muito forte. Ele (Moro) saiu da visão de santidade – existia uma visão dele aqui de homem honesto, íntegro – para o fascismo.

Qual é o espaço da extrema direita na política portuguesa?

Os candidatos de extrema direita não tiveram representação agora nas (eleições) legislativas europeias. O discurso predominante é que não existe extrema direita no país.

Mas existe uma direita forte, que ainda fala de Salazar, querendo ou não. Existe uma direita ligada às religiões. Apesar da constituição portuguesa estabelecer um Estado laico, a gente vê uma ligação enorme com as igrejas e não vê uma separação clara na questão do Estado laico. Existe uma direita forte que caminha para uma extrema direita. Mas existe esse estilo, muito ameno, que é o próprio estilo português de ser. Os portugueses se definem assim, como um povo mais ameno. Existe uma extrema direita que não tem o nome de extrema direita. Ela não usa a suástica porque ela tem uma outra linguagem de ser, nem paus, nem ferros. Ela se representa com vários valores extremamente tradicionais e conservadores das estruturas.

Por que Portugal é talvez o único país europeu que não conhece a chegada da extrema direita a uma instância de poder hoje em dia?

Puxa, que pergunta difícil! Muito difícil de ser respondida. Vale uma reflexão muito profunda. Eu acho que a resposta está naquela música do Chico Buarque, no encontro do Tejo com o Pororoca, que é o estilo uso de ser. Que até para o estupro há uma forma discreta de ser. Eu venho refletindo com alguns colegas que me perguntaram isso. Tenho um colega português jornalista, de 70 anos, que me perguntou: “por que você acha que o fascismo português foi um dos mais longos e sofisticados da história? Com quem Portugal aprendeu mecanismos sofisticados de tortura?” Não foi com os nazistas.

Os nazistas tinham a questão de esconder os corpos… Os mecanismos de delação estão presentes na sociedade portuguesa, porque o fascismo usou esses mecanismos, de criar traidores, a PIDE (polícia política portuguesa) tinha essa filosofia. Existia esse estilo de ser e estar sofisticado e camuflado. A única resposta que eu tenho é sociológica e antropológica que está nessa música, o estilo luso.

Até a colonização portuguesa é considerada pacífica em relação à colonização espanhola na América Latina. E a música vai dizendo isso. Dentro dessa história, do ameno, do doce, do dócil, se repete agora mais uma vez. As delações premiadas, que não tinham esse nome em Portugal, já tinham sido implantadas pelo fascismo. A delação premiada tem um potencial enorme em Portugal, porque já foi incorporada nos anos de fascismo, esse modo ser, perigoso.

Certa vez, li um artigo que comparava Bolsonaro ao ditador de extrema direita Antonio de Oliveira Salazar. Você concorda com esse tipo de percepção?

Eu vejo uma diferença principal. Salazar foi implantando suas medidas tirânicas e ditatoriais no decorrer do tempo. Ele não veio como um Bolsonaro, que em poucos meses impôs tudo numa alucinação completa, eu diria sociopata, sem sofisticação, de uma vez só, impondo coisas antipopulares em curtíssimo prazo. O Salazar não foi esse tipo.

A repressão por parte de Bolsonaro é mais rápida, direta e explícita?

Sim. E mais burra, ainda bem (risos). A daqui foi mais sofisticada, foi no decorrer das décadas. Salazar era um homem camuflado, calculista, discreto. E este (Bolsonaro) não é discreto, está se expondo, está expondo até sua capacidade de inteligência e de sua assessoria. Inclusive, até a presença das religiões era também oculta no regime de Salazar, não é como é hoje no Brasil.

Qual a memória que o povo português tem de Salazar?

São várias. O português como um todo não é único. Uma das memórias muito fortes é a questão das mulheres só poderem viajar com autorização do marido. Outra memória horrorosa e violenta é o incentivo à não educação. Ele destacava a questão das mulheres, tem uma frase que diz assim: “se as mulheres aprenderem a ler, elas vão começar a passar cartinhas para os namorados, os homens”. Um incentivo à ignorância. Isso é uma memória de não investir na educação e querer manter o povo ignorante, uma memória terrível no país. A outra questão, a sociedade dos pobrezinhos e dos coitadinhos, de manter essa desigualdade social. Depois, a PIDE, que é a memória do terror, das prisões e da tortura. Das vítimas que esse regime fez. Essa é a dolorosíssima memória do povo. Nesse grupo que se manifestou, há pessoas que tiveram esposos e esposas que foram presos, presas, durante o regime.

Sua colocação é interessante sobre o incentivo à ignorância porque parece com a política educacional de Bolsonaro, se é que é uma política….

Idêntico. Inclusive, os postos policiais, a PIDE, a polícia não precisava ter nenhum grau. Eles já estavam à margem da sociedade, não digo só no sentido econômico. O nível de pobreza era violento. Eles estavam à margem culturalmente, também na questão educacional. Esse exército da PIDE era feito por pessoas que não tinham nenhuma qualificação, nem de primeiro, nem de quarto grau. Não precisava de nada disso. Nisso, os dois (Bolsonaro e Salazar) são idênticos, a educação era uma arma perigosa. E ele não queria isso. E o controle dentro das escolas era violento. As escolas eram completamente cerceadas, vigiadas. Os professores eram uma categoria profissional que até o casamento era regulamentado. Imagina, as professoras não podiam se casar, tinham que pedir autorização ao Estado. Tinham que pedir autorização ao Estado. Em todas as salas de aula do pais, era obrigatório ter um quadro imenso dele. Não era um quadrinho A4. E uma hostilização, um controle imenso, em cima dos professores. São idênticos, parecidíssimos.

Desde que a esquerda chegou ao poder em Portugal, os índices econômicos e sociais aumentaram expressivamente. Por quê?

Não sou profunda nesse assunto. Um dos pontos a ser considerados, além da vitória do socialismo em Portugal, é também a questão da entrada de Portugal na União Europeia. Houve essa mudança e investimentos enquanto União Europeia em Portugal.

Mas Portugal já estava na União Europeia durante a crise de 2009 e viveu um terrível momento econômico governado pela direita, com políticas de austeridade até 2013, quando a direita deixaria o poder.

A troika. 2012. Teve momentos sociais em Portugal que se manifestaram contra a Troika. A que se deve a relevância da esquerda em Portugal se deve a que não entra no discurso da austeridade, mas estamos vivendo um momento em Portugal de crescimento do neoliberalismo, mesmo que o país esteja sendo governado por uma esquerda, com a venda dos Correios, da eletricidade, dos setores mais fundamentais da economia. O neoliberalismo tem outra cara agora, está muito ligado agora ao fascismo. Também assusta a questão da liberdade de expressão e dos valores que ele traz junto. O pós-25 de abril não só representou a questão importante econômica e social também representou uma nova expressão de valores morais e progressistas. Ver o crescimento desse neoliberalismo que está vindo junto com esses valores conservadores tem passado discretamente, mas tem passado.

Está havendo uma contraofensiva neoliberal em Portugal?

Muito forte.

Como o povo português percebe esse contraofensiva?

Eu não acho que o povo português percebe porque a questão da participação política tem sido baixa. Agora, Portugal teve 70% de abstenção nas eleições (parlamentares europeias), o que representou também uma insatisfação com os políticos locais. Não vejo que a população geral vê, pela participação política, que não é das melhores. A contraofensiva neoliberal está claríssima no país. Na educação, na eletricidade, comunicação e Correios.

E isso, você como uma espécie de coalizão da esquerda cedendo ao poder neoliberal?

Está. Eu acho que a esquerda está cedendo ao poder neoliberal. A esquerda está mais central do que esquerda. Ela virou centro. Tal qual o Brasil, deve surgir uma esquerda que faça uma ofensiva mais clara ao neoliberalismo e ao que ele representa. Só que aqui, está passando, muito discretamente, está avançando, pouco a pouco. Cortes na saúde, privatizações… A energia mais cara da Europa.

E você acha que o Partido Socialista pode perder o poder numa futura eleição?

Eu acho que o Partido Socialista está incorporando esses valores e a prática neoliberal. Nesse sentido, politicamente, seja sua própria manutenção no poder, de continuar sendo mais representativo em Portugal. Eu não vejo essa perspectiva por conta dessa centralização da esquerda. A não ser que surja um movimento de grande insatisfação, como demonstraram agora 70% de abstenção.

E como os portugueses percebem a prisão de Lula?

Eu tenho relação com muitas pessoas ligadas às esquerdas, tanto com partidos com e sem representação no Parlamento. Tenho relação muito direta com vários grupos ligados a ele. E a gente que não está ligada a partidos. Eu percebo que, no início da Lava Jato, não existia uma percepção tanto por parte da direita quanto da esquerda.

Da direita, Lula foi crucificado nesse país. Era unanimidade que Lula era corrupto e afundou o Brasil, que o PT afundou o Brasil. A imagem do Lula era um símbolo muito forte em Portugal. Eu discutia muito com os grupos. Também uma aula da esquerda acreditava absolutamente na imparcialidade do ex-juiz, atual ministro da Justiça.

Também na esquerda não existia uma visão crítica quando eu dizia que tinha que conhecer a história do Brasil, que tinha que conhecer a história de corrupção do Brasil, que tinha que conhecer a história de desigualdade do Brasil, de onde ela veio, quando ela veio. Eu ficava sempre discutindo isso. E colocava o Lula como bode expiatório, que assim ele tinha sido colocado. E eles não percebiam. Agora não.

Apesar de ainda ser um momento sensível, a mídia local não sabe ainda, não quer se posicionar. A mídia tradicional local não está querendo muito dar as caras. A primeira vez foi agora nesse evento, que ela deu as caras para uma voz dissonante. Mas a voz

dissonante não existia na mídia local. E do lado da esquerda, existia uma divisão. As pessoas não tinham uma dimensão. E vejo que agora estão tendo. Aqui não se acreditava que a justiça brasileira, representada pelo ex-juiz, fosse tão parcial, politizada e corrupta.

Não se imaginava que existia uma dimensão dessa. Até hoje eu tenho discussões. Outro dia eu recebi uma matéria de um correspondente no Brasil, um português que eu não vou dizer o nome, respeitado aqui em Portugal, que voltava a dizer na matéria que Luiz Inácio Lula da Silva e o PT tinham traído o Brasil. Eu respondi ao Brasil: não, esse discurso não se mantém, não pode ser mantido. Porque não foi assim que eles agiram. Se fosse assim, se Lula tivesse realmente decepcionado o Brasil, eu conhecendo a cultura, a forma de ser brasileira e as estruturas (brasileiras), ele não teria sido preso nunca.

Eles não teriam arrumado todos esses mecanismos para esse homem sair das eleições. Não é assim. A popularidade de Lula continua alta, continua sendo o homem “mais perigoso” do Brasil. Tanto que “têm” que mantê-lo preso. Eu dizia para esses meus colegas: essa análise não procede mais, desde o impeachment da Dilma até agora. Eu estou vendo uma mudança. Tem caído a face da imparcialidade do juiz, que não era clara, inclusive dentro da esquerda, só de um partido ou outro, que se posicionava.

Como veem as ligações de Bolsonaro com a milícia acusada de matar Marielle Franco?

Só quem tem tentado dar visibilidade a essa questão, da Marielle Franco, são os movimentos (sociais) de brasileiros. Na mídia tradicional em Portugal, é muito pouco comentado. Se eu não lesse vocês, que eu leio quase diariamente, e outros jornais, leio também os tradicionais quase diariamente, leio alguns pontos da grande mídia do Brasil…

Se não fosse por vocês e pelas redes sociais, a gente não veria quase nada sobre as milícias aqui em Portugal. A gente só vê a questão da Venezuela, das crises que está vivendo o Brasil, os resultados desse país caótico que virou, sempre numa mensagem subliminar que o responsável por tudo isso é o PT.

Isso é diariamente colocado (pela mídia tradicional portuguesa). Se não fossem os jornais brasileiros e os movimentos sociais brasileiros que estão aqui em Portugal lutando para visibilizar essas questões, seria praticamente zero (a visibilidade do caso Marielle Franco). É chocante, mas seria praticamente zero.

Qual a imagem do Brasil em Portugal hoje?

Agora a imagem do Brasil é de um país assustador. A questão da violência todos os dias aparece, diferente da Venezuela, que pararam de falar da pobreza. Antes de Bolsonaro, o discurso era “para o Brasil não virar uma Venezuela”. O Brasil virou um nome secundário. Quem tomou destaque foi a Venezuela. Toda a referência do Brasil virou a Venezuela. O nome do Brasil quase sumiu. Tudo foi focado na Venezuela. Nós começamos a ser comparados na mídia com a futura Venezuela, “a Venezuela ameaça o Brasil”. O nome do Brasil virou quase Venezuela. A imagem do Brasil tem sido de um país perigoso. Conheço várias pessoas que tinham planos de ir morar no Brasil. Mas não está mais (nos seus planos) por causa da violência. A violência tem tido uma visibilidade número 1.

Você acredita que Bolsonaro resolverá esse problema?

Ele não resolverá. Acho que vai é aumentar. Ele não tem uma política de segurança pública clara. Talvez seja exatamente por isso. Ele sabe que o monstro da violência não se resolve como ele está querendo resolver. Ele passou o combate à violência para o extermínio, passou à força da violência do corpo a corpo. A história da arma como autodefesa. Eu vejo que ele não tem uma política de segurança pública, de redução da erradicação da violência. Ele lavou as mãos e passou para o povo. Mas isso pode ser um tiro no pé. Ele não está avaliando que exista oposição. Ele está pensando que todos os compradores de arma pensem como ele. Essa medida só vai aumentar (a violência).

Muitos brasileiros conservadores foram viver em Portugal. Um caso icônico é da atriz Luana Piovani, critica ferrenha dos governos de esquerda, mas que foi viver num país governado pela esquerda. Como vocês lidam com esses brasileiros?

Esses brasileiros, tal qual como a gente lida com a elite portuguesa, que grande parte está nesse bairro, no Estoril, vivendo em casas que são castelos, isoladas das pessoas. Esses brasileiros não têm nenhuma presença política em Portugal. Todos sabemos que eles estão em apartamentos de luxo aqui. Mas eles não têm voz política em Portugal.

Eles não têm canal em Portugal. A única coisa negativa que eu vejo nisso é que pensam que todos os brasileiros que estão tentando entrar em Portugal estão concentrados nele (nesse grupo). Mas 60% são barrados, de várias classes sociais. Os 60% que são barrados vêm para trabalhar em Portugal, vêm das classes baixas.

Tem muitos brasileiros tentam sair do Brasil. Os brasileiros de classe alta sempre estiveram aqui. Mas existem os brasileiros de classe social baixíssimas que estão tentando entrar, desesperados, em Portugal. Todos os cafés são hoje de jovens trabalhadores brasileiros, que já conseguiram entrar, depois de Bolsonaro. Parece que o brasileiro que está tentando entrar em Portugal é o brasileiro rico. Eu digo que não é isso.

Eles repercutem essa ideia, o que é muito negativo para a nossa a imagem. Teve até uma petição, que não foi a frente. Até me convidaram para assinar. Era para que os brasileiros não trouxessem o fascismo. Mas tem muitos brasileiros pobres e perseguidos que estão tentando vir para Portugal. Eu recebo ligações, via internet, dessas tentativas. Três pessoas dão a imagem que não é real.

O Brasil está um país horrível, como eu falo com a minha família, diariamente. Os brasileiros (ricos) estão quietos, a não violência que existe em Cascais, em Porto, curtindo férias. Eles não querem trazer o inferno que eles fizeram ou fazem no Brasil. Aqui, estão todos calados.

Houve uma petição para tentar barrar a chegada de brasileiros para que não trouxessem o fascismo para Portugal?

Sim, sim. A petição não foi à frente. Eu cheguei a discutir com os peticionários, disse que eles estavam absolutamente equivocados. Que as autorizações de entrada e saída são de regimes fascistas.

A petição pública não foi aprovada pela Assembleia. 60% das pessoas são trabalhadores ou pessoas perseguidas. Devia ter cuidado com quem já está aqui. Já (nas eleições presidenciais de 2014) de Dilma Rousseff já tinha dado um resultado quase semelhante ao

de Bolsonaro aqui. Repetiu-se a tendência. Foi substituído por Bolsonaro, só que com mais votação, com mais incentivo. Gente que viveu 15 anos nunca tinha votado na vida.

Resolveram votar e votaram em Bolsonaro. Eu expliquei que agora é o contrário. As portas da Europa têm que estar abertas. A situação agora é outra porque o grupo que votou pró-Bolsonaro está aqui há alguns anos. Grupos que já saíram no primeiro governo do Lula. Com alguns eu, eu convivi, eu falava, dando aulas de alfabetização adulta, cheguei a ouvir os feedbacks. E eu expliquei isso para as pessoas.

Quem está aqui há 15 anos, várias dessas pessoas são oposicionistas do Partido dos Trabalhadores. Não foi nenhuma novidade a votação em Bolsonaro. Teve gente que foi buscar em casa, gente vestida de Bolsonaro, levando camiseta, ameaça em portas. Eu vivi essas ameaças.

Você foi ameaçada?

Fui. Escrevi no Facebook, (chamada) de “vaca” e tudo. Fui com um casaco vermelho.

Como foi a ameaça?

Faziam fronteiras na entrada da universidade, do lado direito, do lado esquerdo da escadaria, e no centro da escadaria. Alguns vestidos com camisetas (de Bolsonaro). Na eleição passada não tinha gente com camiseta de Aécio. Alguns com camiseta de Bolsonaro na mão.

Não me chamaram para participar da mesa. Não trabalhei nas eleições. Cancelaram meu nome. Eu já tinha recebido uma ligação do Consulado. Acho que diante das minhas posições, cancelaram minha ida. Ainda bem. Acho que ia ser muito polêmica. Quando eu cheguei pra votar, tinha essas fronteiras.

Pessoas lá dentro, com camisetas, cartazes de pano. Chamei os funcionários do Consulado e falei: isso não é permitido na legislação, isso se chama boca de urna no dia das eleições e dentro do espaço da eleição.

Nada foi feito?

Nada foi feito! A RTP estava ao lado. Eu disse: eu tenho voz, já que ninguém me ouve! Pedi um minuto de voz, disse: vocês podem me filmar, dizer o que eu quero dizer? Falei que isso não é possível. Eles se juntaram, três caras, com as camisetas, atrás de mim, e levantaram os cartazes enquanto eu falava, dentro da instituição. Eu disse: isso são cartazes de pano, de tecido. Isso é proibido! Ninguém fez nada. Isso, na eleição da Dilma não foi cometido.

O crime foi cometido e saiu impune?

Foi cometido. Crime eleitoral. Um dos representantes do Consulado disse: “fale com eles”. Essa violência, esse reforço. Uma pressão física em frente à universidade. Eu tirei fotografias com grupos do PT e outros que estavam lá. Já estavam dizendo: “Magdala, vai discreta! Já teve uma briga de manhã”. Eu disse: vou de casaco vermelho e calça preta, como eu me visto normalmente. Eu não vou dar o gosto pra essa gente. Ninguém fez nada! Como é que pode? Gritei.

O que você no horizonte político do Brasil?

Ai, Willy… Depois de um bate-papo que tive com um grupo de mulheres ligadas ao feminismo e que são cariocas, a visão delas é muito negativa. Parece que esse regime de Bolsonaro não vai cair nunca. Agora a perspectiva de minha família no nordeste brasileiro é muito diferente. Falando a distância com familiares, atendendo grupos de jovens, conversando com as pessoas por telefone, diariamente, fazendo posts no Brasil, no nordeste do Brasil, em Alagoas, é uma perspectiva diferente. Há ali uma reação maior, sem medo.

Agora o que eu ouvi das cariocas é muito diferente do que eu estou percebendo em Alagoas, como no próprio nordeste. As pessoas estão falando, postam. Elas (as feministas do Rio) não. Sentem a repressão, que esse governo não vai cair, o que não é a percepção no nordeste. Eu fiquei assustada, confusa.

A percepção que eu estou tendo da população era do nordeste e estão reagindo. Esse grupo do Rio me apresentou coisas que eu não sabia, “a comunicação está toda cerceada, Magdala, toma cuidado com a comunicação na internet, não se comunique”. Eu disse: minha gente, eu não imaginava que estava num nível como esse!

Meu convívio é com o nordeste com os amigos de São Paulo, de classe média, que tem uma autonomia muito grande. Vejo também neles uma liberdade de expressão e uma oposição fortíssima ao governo de São Paulo. A perspectiva que vem do Rio de Janeiro é diferente.

Eu acho que há perspectivas diferentes dentro do Brasil. Eles estão vivendo algo muito maior, essa das milícias, da repressão, do governo do Estado, tudo isso está contando. Minha percepção era de um caos total e que esse governo não tem sustentação.

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