O Brasil tem que voltar a jogar como o Brasil se quiser recuperar a grandeza perdida

O capitão Carlos Alberto ergue a taça no México, em 1970
O capitão Carlos Alberto ergue a taça no México, em 1970

Ladies & Gentlemen:

A resposta para a ressurreição do futebol brasileiro está em vocês mesmos. Vocês traíram a alma do futebol brasileiro ao valorizar a força e a destruição.

Quais os motivos para isso, francamente não sei. Razões concretas jamais houve.

Jogando como brasileiros, vocês venceram, em quatro Copas, três: 1958, 1962 e 1970.

Mesmo em 1974, ainda jogando como brasileiros, vocês por pouco não chegaram à final. Perderam a chance de enfrentar a Alemanha na disputa do título, numa partida duríssima, para a Laranja Mecânica, uma das maiores seleções da história.

A glória do futebol brasileiro veio com seu jeito artístico de jogar.

Em algum momento, isto se perdeu. Provavelmente em 1982, depois que a maravilhosa seleção de Telê Santana foi desclassificada num acidente de percurso contra a voluntariosa, mas amplamente inferior, Itália.

Vocês culparam a arte, a ousadia, o desassombro, quando o real culpado era apenas o azar – e o regulamento da Copa, que não permite tropeço em jogos decisivos.

Em dez jogos contra a Itália, o Brasil em 1982 teria vencido nove. Justo aquele perdeu.

Foi então que o futebol brasileiro começou a morrer. Abandonou suas fantásticas virtudes naturais e se tornou europeu. Não europeu verdadeiro, até porque o Brasil não fica na Europa. Um europeu fajuto, falsificado, adulterado.

Somente a mentalidade de defesa extrema pode explicar que, nesta Copa, em nenhum momento o time brasileiro tenha iniciado um jogo com Neymar, Oscar e Willian juntos.

Se 1982 representou a ruptura com a arte, o atrevimento, 2014 tem que representar a ruptura com a imitação bizarra do futebol europeu.

Isso tem que começar nos clubes, em casa. Vejo, no Campeonato Brasileiro, as sementes do futebol antibrasileiro que observamos nesta Copa.

Onde estão os jogadores hábeis, os camisas 10 que fizeram a glória do Brasil? Não os vejo no Campeonato Brasileiro. Imagino que os técnicos prefiram jogadores de destruição na hora de escalar o time.

Começa aí o drama.

Ladies & Gentlemen: James Rodriguez teria vaga em algum time brasileiro? Ou seria logo substituído por um destruidor?

Mais ainda: nas categorias de base, ele receberia a devida atenção? Presumo que não. As categorias de base reproduzem os times principais. Se a demanda é por jogadores que parem as jogadas do adversário, é este o perfil que os técnicos, na base, privilegiarão.

É um erro colossal.

O maior problema do futebol brasileiro não está na infraestrutura, ainda que ela possa ser inepta, corrupta e arcaica.

O maior problema está na cabeça, na mente – na busca de um futebol que é um desrespeito intolerável às raízes fundamentais do jogador brasileiro.

Ironicamente, o futebol que o Brasil abandonou inspirou a melhor seleção europeia das últimas décadas – a espanhola campeã de 2010. E também um dos melhores times europeus da história, o Barcelona.

Voltem a ser vocês mesmos. Este é o passo essencial.

Sincerely.

Scott

Trasução: Erika Kazumi Nakamura

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