“Eu tenho medo de morrer”

O desabafo de um policial militar sobre a onda de violência que assombra São Paulo

“A minha primeira ocorrência foi na favela. Fui chamado porque um pai tinha matado o filho de 10 meses de porrada”. Almeida, 29 anos, casado, dois filhos pequenos, mora no interior de São Paulo, trabalha num bairro da capital, é policial há dez anos – e está revoltado e com medo. Ganha 3200 reais e faz bico de segurança numa loja para completar o orçamento.

Ele está sentado à minha frente na lanchonete Blooming, na Avenida Giovanni Gronchi, provavelmente um dos lugares mais seguros de São Paulo. Almeida concordou em falar sobre a onda de violência no estado. De janeiro a outubro, foram 4107 mortos, 11% acima do ano passado. Só em outubro foram 176, contra 82 em 2011.

Desse total de mortos em 2012, 100 eram PMs. Almeida não tem dúvida de que existe uma caçada orquestrada pelo PCC, o Primeiro Comando da Capital, a maior facção criminosa do Brasil. “Eu virei polícia porque acreditava numa causa: justiça. Fazer o bem ao próximo. Eu sou policial por uma questão humana. E eu falo pelos policiais que trabalham na rua. A maioria de nós mora na periferia, ao lado dos criminosos. A família está exposta. É uma situação absurda”, diz.

“Não sei o que gerou a atual medição de força entre o estado e o PCC. Numa carta divulgada pelo PCC, eles dizem: “a cada um de nós que for preso, um policial morre. Estamos em guerra com a PM”. O ex-secretário de segurança pública, Ferreira Pinto, negava isso. Ele estava tão pouco preocupado com a sociedade que, durante esse caos, foi assistir ao jogo do Corinthians no estádio da Bombonera, em junho. É inadmissível. Ninguém se importou com o sargento Marcelo Fukuhara, que foi cortado ao meio na Baixada Santista por uma rajada de fuzil. Executado no chão. Só quem atirou com fuzil sabe o estrago que ele faz. O secretário não foi nem ao velório.

O PM vive sob tensão 24 horas por dia. Minha esposa e meus filhos ficam trancados em casa. Até onde eu sei, ninguém no bairro tem ideia de que sou policial. Mas, por precaução, quando eu saio e quando eu volto pra casa fico de olho na rua. O PCC tem um projeto nacional. Uma das penitenciárias de Porto Alegre já tem estatuto do PCC, assim como outras penitenciárias do nordeste. Daqui a pouco vai ficar difícil de controlar. O Brasil vai virar o México”.

Ele pede um filé mignon fino com arroz e uma salada caesar, que depois embrulha para levar pra casa. Pega o celular para ler a entrevista de Marcola, o líder do PCC, ao jornal o Globo, em 2006. Almeida faz bico. O regulamento da PM proíbe, assinalando que, no horário de folga, o profissional precisa descansar depois do turno de 12 horas.

O ex-secretário Ferreira Pinto: "a cidade estava um caos e ele estava na Bombonera vendo o Corinthians"

“Nessa crise, o governo do estado fez um acordo com o município e convocou policiais de folga para combater os camelôs. Farda do estado, arma do estado, colete do estado. Trabalhei ontem até as 2 da manhã, acordei às 4. Faço isso toda noite. Ser honesto nesse país é sacrifício. Gostaria de ficar com meus filhos. Mas preciso pagar a escola deles e um convênio. Quando entrei na PM, me obrigaram a pagar o hospital Cruz Azul. Mas, se eu for levar meu filho lá, até uma gaze eu tenho de pagar. Estou com uma ação há cinco anos para sair desse convênio e não consigo”.

Você tem medo de morrer? “Hoje, eu tenho. Pelos meus filhos. Quando era solteiro, adorava tudo. Tenho láurea de mérito pessoal por um sequestro. Isso é satisfatório. Já troquei tiro, mas não fui baleado. No mês passado, quase me atingiram. Agradeço sempre por mais um dia. Sempre que precisar de ajuda, sei que vou ter. Quando polícia faz chamada pelo rádio, ferve de outros policiais. Vêm todos, rapidinho.

Uma vez, fechamos a favela de Paraisópolis. Havia uma ordem para matar quatro policiais. Um morador nos avisou. Os cabeças do PCC daquela época foram presos, mas hoje tem outros. O secretário e o governador não falam do PCC porque não passa uma boa imagem. Os pobres vivem reféns dos criminosos na favela. Quantas denúncias de reunião do PCC não chegaram para mim… A gente atende, mas eles são alertados. ‘Os vermes estão na área!’ Aí vem o governador falar que isso não existe? Eu vivo essa realidade!

Para conhecer de segurança pública precisa sentar numa viatura e andar na rua. Não adianta fazer curso, ser PhD. É como matar a fome olhando o cardápio. Não houve nenhum comunicado oficial na corporação sobre essa onda de violência. O que acontece é um superior hierárquico falar para você ficar esperto, não dar mole etc. Isso é conversado nas preleções. Quem garante que esse pessoal esteja aqui neste restaurante jantando tranquilo somos nós. O pessoal dos Direitos Humanos, que deveria trabalhar em prol das pessoas de bem, está do outro lado. Ninguém nos apoia.”

Por que você não desiste? “Pensei nisso o ano passado. Parei três vezes no hospital com pressão alta. Você resolve as ocorrências pelo brio, e só. Não tem perspectiva. Quantas vezes não entrei em Paraisópolis somente com meu parceiro? Uma vez fomos às 2 da manhã atender um chamado de perturbação da ordem. Era um baile funk. 500 pessoas. O Batalhão de Choque deveria ir, mas, como ele está no centro da cidade, sobra para nós. Estávamos em dez. Usamos gás lacrimogêneo, balas de borracha e o que mais é necessário para dispersão uma multidão. Pessoas se machucam? Sim, mas não tem outro jeito. Enquanto abríamos caminho, tomávamos garrafada, pedrada etc. Consegui segurar 14 menores. Crianças de 11, 12 anos. Foram para o DP. Chegaram os pais, deram um esporro e liberaram. No dia seguinte, estavam todos de volta.

Não temos equipamento. As viaturas estão sucateadas e fazemos revezamento de colete. Houve 21 suicídios de PMs neste ano, fora as 24 tentativas. Das 57 mil detenções, metade dos bandidos deve estar na rua. Eu não sou a favor do Esquadrão da Morte, mas entendo o Cabo Bruno. É muito frustrante prender alguém de manhã e o cara estar solto à tarde.

Meu maior ídolo era meu pai. Ele era policial e eu me impressionava com a farda. Morreu por causa do alcoolismo. Era respeitado na nossa cidade. Em seu velório, os colegas vinham elogiá-lo para mim. As coisas mudaram muito”.

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