O burro nosso de cada dia. Por Carlos Castelo

Atualizado em 21 de abril de 2026 às 8:24
O presidente da Argentina Javier Milei. Foto: Divulgação

Por Carlos Castelo

Em certas nações, a crise se resolve com ajuste fiscal; em outras, com ajuste de cardápio. Na Argentina, por exemplo, o burro ascendeu ao menu. Não como símbolo, mas como prato do dia.

É um avanço conceitual. Durante décadas, acusou-se o povo de ser conduzido como um desses animais. Agora, ao menos, há coerência entre o diagnóstico e o menu. A economia pode estar em frangalhos, mas a retórica nunca esteve tão bem alimentada.

Sob o governo de Javier Milei, instaurou-se uma nova pedagogia econômica: o sacrifício não é apenas abstrato, ele se mastiga. A inflação sobe, o salário encolhe, e o cidadão aprende, com resiliência, que há sempre uma alternativa.

Ainda que ela relinche. Trata-se de uma dieta de austeridade em sentido literal: corta-se o supérfluo, preserva-se o essencial e reinventa-se o resto.

Os especialistas discutem se a carne de burro é nutritiva. Os argentinos, mais pragmáticos, discutem se ela é acessível. Entre um paper acadêmico e um prato quente, vence o prato. A fome, como se sabe, tem pouco interesse por teorias, prefere resultados práticos.

Há quem veja nisso um retorno às raízes. A história latino-americana é pródiga em soluções improvisadas, onde a necessidade faz do cardápio um laboratório. O problema é que, neste caso, o improviso ganhou status de política. Não se trata mais de adaptação, mas de orientação. Comer burro passa a ser evidência estatística.

Naturalmente, sempre há defensores. Argumenta-se que o mercado se ajusta, que a liberdade econômica inclui a liberdade de escolher entre cortes bovinos e alternativas mais inusitadas. Afinal, quem pode ser contra a diversidade alimentar? O consumidor, dirão, é soberano. Mesmo quando só pode escolher entre o improvável e o impossível.

Outros, menos entusiasmados, notam um certo desalinhamento entre o discurso e a digestão. Prometeu-se um choque de prosperidade, mas entregou-se um choque de realidade (e de paladar). A teoria pode ser libertária, mas o estômago continua keynesiano: reage mal à escassez prolongada.

Curiosamente, o burro sempre foi um animal injustiçado. Trabalha muito, reclama pouco e, no imaginário popular, ainda leva a fama de idiota. Talvez haja, portanto, uma justiça em vê-lo finalmente valorizado. Ainda que de forma terminal. Se antes carregava o peso da economia nas costas, agora participa dela de maneira mais direta.

No fim, a crise argentina confirma uma velha lição: quando as ideias sobem demais à cabeça, alguém acaba pagando a conta com o corpo. E, neste caso específico, também com o cardápio. A política econômica pode até aspirar à pureza ideológica, mas a realidade insiste em temperá-la com ferro, sal e uma leve nota de desespero.

Resta saber se, no próximo ciclo, haverá apetite para mudanças. Ou se o país, fiel à sua tradição, continuará mastigando metáforas enquanto procura algo mais substancial para engolir. Porque, no grande banquete das nações, há sempre duas categorias: os que escolhem o prato e os que aprendem, com teimosia de burro, a achar sabor no que sobrou.

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